Até os cães conseguem entrar


Paulo Sousa,

Na senda dos postais anteriores do Luís Naves e do jpt avanço aqui com o que acho sobre essa temática.

Escrever num blog é fácil, sendo que o único custo suportado se resume ao tempo que a isso dedicamos. Ter leitores é uma outra camada, que se consegue, ou não, acrescentar ao acto de escrever. Sem leitores, sinto que escreveria apenas para mim, para registar um ponto de vista, uma opinião, uma memória ou um acontecimento, pensando que talvez um dia alguém achasse interessante e viesse a dedicar-lhe alguma atenção. É muito melhor ter leitores.

O Delito de Opinião, como se diz na minha terra, é como a porta da Igreja quando está aberta, que até os cães conseguem entrar. Peço aos leitores que não entendam esta expressão como sendo de menosprezo: eu aprecio, e muito, a sua diversidade.

A estatística do tráfego disponibilizada mensalmente pela plataforma Sapo diz-nos que apenas uma pequena minoria dos leitores atravessa a barreira do comentário. Dos que comentam, alguns fazem-no com uma frequência que já nos permite ir conhecendo, uns mostram concordância, outros replicam olhe que não, mas todos confirmam a regra geral de que as pessoas dizem coisas. Confesso que alguns, não muitos infelizmente, acrescentam por vezes informação que me leva a outras consultas e a mais conhecimento. Outros, reagem com o imediatismo previsível e característico da classe, categoria, prateleira em que se arrumam neste nosso rectângulo. Desses, há uns muito empenhados na hercúlea tarefa de querer que o resto do mundo concorde com eles, nem que, à falta de um segundo argumento, insistam em repetir ad nauseam aquilo que já disseram antes.

Numa conversa de café trocam-se argumentos, como se de um imaginário jogo de ténis se tratasse. Nem toda a gente aceita ser contraditada e por isso só vale a pena entrar num debate se do outro lado estiver alguém que mereça esse esforço. Contrapor numa conversa é para mim como que uma forma de reconhecimento de capacidade. Perante alguém que não conhecemos, aceitar debater pode ser um acto arriscado. Mas pode ser também uma forma de passar uns belos longos minutos a esgrimir argumentos, sendo que, invariavelmente, se acaba sempre por aprender qualquer coisa. Já me aconteceu avançar com uma contraposição com um desconhecido e rapidamente sentir que dali não se leva nada, pois a reacção não passa de uma sequência de chavões ouvidos, de lugares-comuns repetidos por associação descombinada, que obrigam a uma retirada rápida até porque o tempo é um bem escasso e as pérolas são mal empregues quando dadas a porcos.

Aqui no blogue, às vezes surgem palermas dessa estirpe. Ou porque descarregam reportórios que copiaram num qualquer recanto mal frequentado, ou porque escrevem em maiúsculas como quem grita, ou porque querem promover um canal do Youtube de terraplanistas ou de achaques análogos, ou porque estão mesmo convictos de uma qualquer teoria da conspiração e acham que têm de evangelizar o mundo antes do Apocalipse ou porque entram logo a destratar quem lhe terá de aprovar a missiva. Recordo-me que por ocasião da invasão russa à Ucrânia fomos aqui quase agredidos por uns empenhados prosélitos que descarregavam repetidamente longos textos, talvez julgando que alguém achasse que os ali tinham escrito com a dedicação necessária para tão extensa tarefa e que mais não eram do que copy paste largado em tudo o que mexia na blogosfera. Clicar no “apagar” exige ainda menos esforço do que o trabalho que tiveram a seleccionar um excerto de texto e depois combinar a pressão em duas teclas.

Como já disse noutros textos e em comentários, é para mim um gosto debater com quem o merece. Trolles, idiotas, grunhos em geral, trato-os todos da mesma maneira. O baldinho do lixo está sempre ali ao lado.

22 comentários em “Até os cães conseguem entrar”

  1. Here, here! Paulo. Sabe que não conseguindo eu imaginar as pessoas fisicamente, penso sempre nos irredutíveis com uma chave daquelas com que antigamente abríamos as latas de atum, prontinhos para a trepanação e posterior enchimento a seu bel prazer?
    Festas Felizes [<<-]

  2. comento para dar a minha opinião factual de forma civilizada, mas existe sempre alguém com dificuldade em aceitar os factos.
    conheço apontamentos sobre acontecimentos da vida contemporânea vistos do outro lado do biombo, ouvidos por familiares a aspectos diversos com participantes que os jornalistas se recusaram a ouvir por não pertencerem à ‘verdade oficial’

  3. “Nem toda a gente aceita ser contradito…”
    Ora aí está! É precisamente isso que acontece tanto em quem escreve o texto como em quem comenta. E o caso só aumenta de proporção devido à falta de argumentação de um dos lados.
    Quando não se consegue aceitar o ponto de vista do outro torna-se difícil a continuação do diálogo sem resvalar para o insulto gratuito.
    Todos somos diferentes, felizmente, e um texto conotativo tem diversas interpretações, daí que as reacções nunca podem ser as esperadas.

  4. Paulo Sousa gosto deste seu post
    Agora certamente que leu dezenas de comentários quando os russos atacaram a Ucrânia.
    Houve comentários como ‘a questão é os russos não quererem que a Ucrânia entre para a NATO’ , e em vez de ir para o caixote do lixo levou com o contra comentário ‘cala a boca putinista’.

    1. Não só por isso, mas especialmente depois de ver como é que esse ditador execrável trata quem dele discorda, fico intrigado com tantos os que defendem uma situação onde seriam privados do direito básico de se poder manifestar. São os putinistas, que cá podem falar, mas que defendem quem à força manda calar. São uns palermas.

      1. Pois, pois Paulo Sousa, então o que é que você chama a quem se quer manifestar pelos palestinianos contra os bombardeamentos arrasando e provocando milhares de mortes em Gaza?

        1. Não chamo nada. Aprecio apenas a capacidade de ter certezas sobre algo que tenho dúvidas. Tenho a certeza porém que, infelizmente, os seus comentários não salvam ninguém.

      2. “…..onde seriam privados do direito básico de se poder manifestar….”
        esta privação varia se for contra Israel a favor da Palestina.

          1. manifestações dentro de Israel são com milhares de pessoas contra Netanyahu, em Gaza não há manifestações contra o Hamas.
            mas a questão é apelidar de putinistas e não, agora, de netanyahunistas os que apoiam os bombardeamentos a Gaza destruindo cidades e matando mais de 20.000 mil pessoas.

          2. Para começar “netanyahunistas” é muito mais difícil de dizer ou escrever. Filho da Dona Putina, é muito mais fácil de dizer. Sobre os números de mortos na faixa de Gaza, um seria demasiado, mas aguardo confirmação independente.

          3. Faça lá uma lista de manifestações dentro da Rússia contra o governo russo e dentro da Ucrânia contra Zelensky.

          4. O que aconteceu em 2014? E nos dias de hoje quantos ucranianos se manifestam sequer? Pense um bocado e talvez chegará lá e perceberá porque é que os palestinianos alegadamente não se manifestam contra o Hamas. Mas o melhor mesmo é quem vive na Europa, num país que está em paz, a mandar postas de pescada sobre o que quem vive num país que está a ser bombardeado há décadas deve ou não fazer.

          5. Não sei se leu o texto acima, mas sou eu que pergunto quem é que vive na Europa, num país que está em paz, a mandar postas de pescada sobre um assunto que nem sequer foi abordado no texto. Quantas vidas já salvou em caixas de comentários?

  5. “Até os cães conseguem entrar”
    Quem é que deixa os cães entrar? Quem é que tem o poder de aprovar ou não aprovar comentários? Quem é que aprova comentários fascistas?

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