Assinalar uma data


Sérgio de Almeida Correia,

Hoje celebra-se o Dia Mundial do Consumidor. E muito embora não me chame Ralph Nader, não gostaria de deixar passar esta data sem dizer duas palavras.

A ASAE marcou o dia com mais uma acção de grande envergadura em todo o país, sendo que no Algarve fiscalizou centenas de viaturas para verificar as condições de transporte dos alimentos. Tanto quanto a Antena 1 referiu apenas duas viaturas não estavam a cumprir as regras. Esse é um bom sinal de que mesmo com alguns exageros, lamentáveis, a ASAE não é uma nova PIDE, bem ao contrário do que patuscamente e sem um mínimo de pudor um senhor deputado há uns tempos assinalou.

Mas eu gostaria de marcar esta data chamando a atenção dos leitores e da ASAE para uma empresa que transportando milhares de passageiros diariamente e estando aparentemente ao seu serviço, na prática serve-se a si própria e aos seus trabalhadores. Refiro-me à CP.

Agora que o TGV tem estado tanto na ordem do dia, convém dizer que a CP é uma empresa que se procurou modernizar, mas cuja renovação se ficou pela imagem e por um site na Internet não tendo sido acompanhada de uma verdadeira mudança.

A começar pelas máquinas de emissão de bilhetes, que provocaram o encerramento de bilheteiras – veja-se o caso da Linha de Cascais –, e despertam a ira de qualquer passageiro que não seja titular de um passe e pretenda adquirir um bilhete antes de se pôr ao caminho. Com as bilheteiras normalmente encerradas, a luta começa logo com a emissão do título de transporte numa das vistosas e pouco funcionais máquinas que foram instaladas. A informação é escassa, má e pouco legível. Depois, quando uma pessoa consegue finalmente perceber o funcionamento da dita cuja logo tem de começar tudo de novo, porque entretanto o tempo diminuto que é concedido para a operação já se encarregou de apagar o ecrã e colocar tudo de novo no princípio. Entretanto, o tempo corre e quem está atrás na fila começa a ficar impaciente. Enquanto isso cinco trabalhadores da CP seguem em amena cavaqueira no átrio da gare, fumando o seu cigarrinho ante o desespero da velhota que queria apanhar o comboio das 17h para não perder a camioneta da carreira que faz ligação da estação de destino a sua casa e normalmente não espera pela chegada do comboio porque o seu motorista também tem a família à espera. Depois, surge o drama da máquina não dar € 0,50 de troco e emitir um papelinho que pode ser trocado, evidentemente, numa bilheteira. Desde que ela esteja aberta, convém dizê-lo. Dez minutos depois, ainda sem bilhete e depois de ter pedido ajuda a um trabalhador da CP, o passageiro lá consegue obter o almejado bilhete, mas o comboio já partiu e não vai ser nessa altura que vai conseguir receber o troco porque a bilheteira está encerrada.

Então e o tempo que as viagens levam? Já repararam nisso? No dia 1 de Março apanhei o Intercidades em Faro, pelas 9h da manhã. Cheguei à Estação do Oriente com 12 minutos de atraso. A viagem de 265km entre Lisboa e Faro demorou apenas 4h e 17m! Como depois regressei no Alfa Pendular, consegui fazer € 530km em cerca de 7h e 15m num percurso entre a capital política e administrativa e a capital turística do País. Notável.

Mas não só. Se alguém que trabalhe em Faro quiser ir passar o fim-de-semana a Lisboa e tiver que trabalhar, como é normal, à sexta-feira, terá de sair do serviço antes das 17h, porque esta é a hora a que sai o último comboio da CP para Lisboa. Ou seja, quem trabalha terá de sair mais cedo, aí pelas 16h 30m para ter tempo de encontrar um lugar para estacionar o carro nas imediações da estação. Um amigo confidenciou-me que a razão do horário tem a ver com o facto dos funcionários da CP poderem chegar a casa a horas decentes para jantar. E nem com o Alfa se pode contar porque o último sai às 13h 20m que é uma hora bestial para um tipo ir de fim-de-semana até Lisboa. É preciso é que esteja a receber subsídio de desemprego.

O problema é que nem mesmo ao domingo ou numa quarta-feira europeia um tipo consegue ir ver um jogo do Benfica sem levar o carro. É que como os jogos são ao final da tarde, ou à noite, das duas uma: ou não se vai ao jogo, o que é desagradável estando na capital, ou então vem-se no comboio do dia seguinte, às 8h 51m, porque a partir de Lisboa o último comboio sai para Faro às 18h e 51m e a essa hora o jogo ainda nem sequer começou.

Já nem vale a pena falar da péssima qualidade e preço exorbitante das refeições, ou ir ao pormenor da inadequada limpeza das casas de banho (e eu há muitos anos que só viajo em 1ª classe), logo pela manhã, onde o cheiro do café se mistura com o que vem da sanita e os solavancos são tantos que quem se alivie em pé corre o risco de partir a cabeça ou o braço enquanto tenta fazer pontaria e evitar chegar ao Campus da Justiça com as partes baixas todas encharcadas.

O desperdício na CP é tão grande que enquanto nos aviões distribuem auriculares aos passageiros que são recolhidos pouco antes do final da jornada, a CP oferece auriculares no Alfa de cada vez que um tipo viaja e ninguém os recolhe. Como nunca me lembro de levar comigo os da jornada anterior, tenho uma colecção deles em casa que já pensei metê-los no correio para o Dr. Teixeira dos Santos fazer face ao défice. Sempre poderia vendê-los como “semi-novos” e realizar uns trocos que depois faria chegar à CP.

Aproveita-se a paciência, e ultimamente também a educação, de quase todos os revisores e pessoal do bar, mas isso é claramente insuficiente para justificar o mau serviço que a CP presta ao país e à maioria dos seus utentes. Basta ver a evolução do transporte em autocarros entre Faro e Lisboa para perceber que a concorrência é uma coisa muito saudável e que enquanto nos comboios a oferta continua insuficiente e a viagem é longa, morosa e cara, nos autocarros reduzem-se preços, alargam-se horários, aumenta-se a oferta e reduzem-se os preços.

Eu não gosto de andar de autocarro. Por isso mesmo gostaria de ter um serviço de comboios rápido, eficiente e asseado. E não precisava de ser o TGV. Um Alfa que fizesse o percurso em menos uma hora, sem ter de andar em certos troços a 60 ou 80km/hora, já não seria mau. 

Não sei se algum dia isso ocorrerá. Ou se não será mais uma utopia. Penso é que aquilo que sai dos meus impostos todos os anos para sustentar as CP deste país já teria justificado, também por isso, uma intervenção da ASAE ou de qualquer outra entidade que zelasse pelos direitos dos utentes da CP.

Mas o ideal mesmo era termos nos comboios uma espécie de Ryanair. Graças aos irlandeses, quem mora no Algarve passou a ter voos directos para o Porto, o que podendo parecer uma insignificância à maioria dos leitores significa um avanço para todos os que vivem nesta região simpática e acolhedora às portas da Andaluzia e do aeroporto de Sevilha.  

 

P.S. Este texto devia ter entrado ontem, mas a informática fez birra e só esta manhã ficou operacional.

18 comentários em “Assinalar uma data”

  1. Gostaria apenas de confirmar dois dos pormenores deste post:

    1) as casas-de-banho dos intercidades Lisboa-Porto estão em estado de asseio pouco recomendável. Não têm água para a sanita, cheiram mal, etc.

    2) já me aconteceu a mim pessoalmente perder um combóio no Cais do Sodré por não perceber como funciona a máquina de emitir bilhetes. É de facto incompreensível.

  2. É verdade que a CP podia prestar um serviço muito melhor. Mas há algumas incorrecções no seu texto, Sérgio.

    Se alguém que trabalhe em Faro quiser ir passar o fim-de-semana a Lisboa e tiver que trabalhar, como é normal, à sexta-feira, terá de sair do serviço antes das 17h, porque esta é a hora a que sai o último comboio da CP para Lisboa.

    Há um intercidades para Faro às 17h30. Mas o último intercidades para a capital algarvia é às 19h30. Ando nele pelo menos uma vez por mês, quando vou de visita à minha terra. Sim, leva quatro horas (até Faro). Isso deve-se essencialmente à linha (que também condiciona, e muito, o alfa) e à velocidade do próprio comboio. Repare que a Sul de Setúbal não há sequer linha dupla.

    ou ir ao pormenor da inadequada limpeza das casas de banho (e eu há muitos anos que só viajo em 1ª classe), logo pela manhã, onde o cheiro do café se mistura com o que vem da sanita e os solavancos são tantos que quem se alivie em pé corre o risco de partir a cabeça ou o braço enquanto tenta fazer pontaria e evitar chegar ao Campus da Justiça com as partes baixas todas encharcadas.

    Com as linhas que temos, os solavancos são inevitáveis. A mim chateia-me a casa de banho do intercidades ser tão desconfortável (sobretudo se comparada com a do regional).

    Um Alfa que fizesse o percurso em menos uma hora, sem ter de andar em certos troços a 60 ou 80km/hora já não seria mau.

    Isso seria óptimo. Mas era necessário fazer uma nova linha. Com a que existe, é impossível. A menos que se desactivem todos os outros comboios.

    Já agora, uma coisa em que ninguém repara: o Intercidades não faz uma única paragem no concelho de Odemira – o maior do país -, apesar de o concelho dispor de duas estações e de dois apeadeiros. Bom serviço público.

    E uma consideração pessoal:

    basta ver a evolução do transporte em autocarros entre Faro e Lisboa para perceber que a concorrência é uma coisa muito saudável e que enquanto não comboios a oferta continua longa, morosa, cara e insuficiente, nos autocarros reduzem-se preços, alargam-se horários, aumenta-se a oferta e reduzem-se os preços.

    Tal como o Sérgio, também não gosto de fazer viagens longas em autocarro. Por isso, só se o Intercidades piorar – e muito – é que mudo para a Rede Expressos (de resto, o expresso de Sete Rios a Odemira leva quatro horas – sim, quatro horas!). Já estou tão habituado ao Intercidades que, sinceramente, até gosto, apesar de todas as suas falhas (são muitas).

  3. Tenho muita experiência com a CP e subscrevo tudo o que dizes. Sou um crítico assumido do TGV e defendo há muito três coisas:
    – rede renovada urgente para mercadorias, interna e com o exterior;
    – rever horários de acordo com os utentes e não com os interesses internos da CP;
    – pôr os comboios de média/alta velocidade (Alfa Pendular) em condições de utilização (respeito pelos utentes) e rentabilizá-los de modo a que circulem à velocidade para que foram concebidos.

    Sonhar com o TGV sem dar conta do que já existe é apenas mais uma das patetices do costume.

      1. Provavelmente, essa é uma das soluções. Certo, certo é que estamos longe de aproveitar o que devemos aproveitar e continuamos a sonhar com o que não temos. Veja-se só o que aconteceu com a linha número um, a Porto-Lisboa: milhões investidos quase inutilmente. Claro que alguém ficou a ganhar, como sempre…

        1. Sim, mas melhorar os comboios no Sul passa obrigatoriamente por fazer novas linhas. Repare, João, que (como refiro noutro comentário acima), entre Setúbal e Faro a linha é única, e não dupla. Isto obriga o intercidades, e mesmo o alfa, a fazerem paragens para esperarem que outro comboio passe.

          Mais: o prolongamento da linha do Sul até Vila Real de Santo António, e o ramal de Lagos, não foram electrificados. Há seis anos era possível entrar num comboio ( o “famoso” interregional) em VRSA e sair no Barreiro. Actualmente, até o serviço regional está a desaparecer.

  4. … “e os solavancos são tantos que quem se alivie em pé corre o risco de partir a cabeça ou o braço enquanto tenta fazer pontaria e evitar chegar ao Campus da Justiça com as partes baixas todas encharcadas.” A imagem para mim é hilariante, mas imagine o Sérgio que quem se alivie de cócoras também não tem a vida nada facilitada, antes pelo contrário, primeiro porque nunca se senta na sanita, depois a conjugação da exiguidade do espaço com as manobras a ter em conta com o vestuário, tornam a tarefa verdadeiramente circense.
    :))

    1. Sabe o que é mais engraçado, Ariel? É que quando se está a fazer o “serviço” de pé no WC do Intercidades, é praticamente impossível não activar o secador de mãos com as costas… 🙂

      Mais giro ainda é quando os solavancos não nos fazem ir ao chão, mas fecham a tampa. Enfim. Já levo muitos anos de comboio!

  5. É serviço público o que aqui fazes, Sérgio. Há muito que pretendia escrever também sobre isto. Verdadeiramente escandaloso, o tratamento dado aos passageiros nos comboios suburbanos, de que a linha de Cascais é um bom (mau) exemplo. E tens toda a razão quanto ao percurso Algarve-Lisboa – e vice-versa. Faço muitas vezes esta viagem e subscrevo todas as críticas que aqui deixas, nomeadamente quanto aos horários absurdos, nada em consonância com os preços praticados.
    No regresso do Algarve, na última vez, optei por um autocarro expresso com ligação directa a Sete Rios (centro de Lisboa). Mais barato, tão confortável como o comboio, muito mais rápido e com horários adequados à necessidade dos passageiros, não ao conforto dos funcionários.

    1. Já agora, Pedro, já reparou que nas estações da linha de Cascais, e ao contrário do que acontece na linha de Sintra, não existem os painéis de indicações sobre os próximos comboios? Ou será que isso já foi solucionado..?

  6. Para comprar um bilhete para o Alfa para o Porto, fui à estação do Rossio. Fui informada que só o podia comprar em Sta.Apolónia!!!! Não será a mesma companhia? Ainda reclamei para o provedor do cliente mas resultou em nada.

    Maria

  7. Oportuno, este post acerca de comboios e caminhos de ferro! Utilizo com frequência o percurso Faro-Lx e muito sinceramente, meus amigos, não vejo grandes razões de queixa: antes da remodelação da via e da entrada ao serviço dos alfa sim, era “chato” fazer a viagem!!! Nem vale a pena comparar com as linhas de cascais ou sintra, são casos à parte! Mas convido-vos a fazer uma viagem (é melhor chamar-lhe passeio…) entre faro e tavira, por exemplo, para se aperceberem do calvário que passa quem tem de utilizar este meio para as suas deslocações diárias! Como passeio, digo-vos que é dos mais belos que conheço: flamingos, garças, cegonhas, salinas, noras, ria e agora até a nova barra da fuzeta! Lindo! Mas para quem tem de usar todos os dias… terrível!!! Depois digam-me o que acharam… 😉

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