Asneira em dose dupla


Pedro Correia,

   

  

É uma questão de conflito de interesses mal resolvida. Ser administrador de uma empresa que elabora sondagens eleitorais e ao mesmo tempo apoiante declarado de uma candidatura a esse mesmo escrutínio são condimentos certos para dar asneira. Cumprindo os preceitos da Lei de Murphy, neste caso a asneira aconteceu mesmo. E em dose dupla. José Couceiro, derrotado nas eleições do Sporting, só conseguiu sagrar-se “vencedor” nas sondagens da empresa desse seu apoiante, numa afirmação viva do antigo preceito “não basta querer – é preciso poder”.

As sondagens falharam redondamente. Nada que não tivesse ocorrido noutras eleições, nada que não se adivinhasse nestas também. Admira-me é haver quem persista em encomendar estudos de opinião a quem é recorrente no erro, talvez confundindo desejos com realidades. Se não é, parece. E no futebol, como na política, o que parece é.

Na altura, entre as hostes de Couceiro, houve quem tivesse embandeirado em arco. Sem motivo, como agora se vê. As referidas sondagens só iludiram quem gosta de ser tomado por parvo. Vistas à distância, têm apenas a vantagem de nos fazer rir. Num clube onde o riso escasseia, valha-nos ao menos isso.

8 comentários em “Asneira em dose dupla”

  1. Engraçado que as sondagens até estão quase certas, mais a primeira que a segunda, se trocassemos o Couceiro pelo Carvalho, claro…

  2. Uma maneira como outra qualquer de fazer campanha e tentar influenciar o resultado das eleições.

    No entanto suspeito que o único resultado que vão influenciar é o financeiro da própria empresa , descredibilizada com estas e outras .

    1. Num tempo em que todos exigem a todos a invocação de conflitos de interesses, aos donos das empresas de sondagens tudo parece ser permitido. Quem mais se desacredita com isto são os jornais que as publicam. E neste caso foram três.

    1. Admito, caro JPT, que foi um exercício falhado de ironia da minha parte. Sou forçado a dar-te razão, com todas as letras: estamos perante aquilo que se configura como um exercício de manipulação. Assumido apoiante de uma candidatura, o administrador desta empresa deveria ter-se abstido desse apoio ou, em alternativa, de qualquer envolvimento nesta suposta auscultação da vontade dos sócios para evitar que o acusassem de confundir desejos com realidades.
      Curiosamente, estes exercícios acabam por produzir muitas vezes resultados opostos àqueles que pretendem. O voto, neste caso, funcionou contra o candidato que o administrador da empresa de sondagens apoiava. E contra as próprias sondagens, com resultados escandalosamente retorcidos. Como a realidade amplamente demonstrou.
      Quem acaba por perder mais com isto são os jornais que confiam nestas “sondagens”. O que nos levaria a outra reflexão, desta vez sobre as causas da decadência da imprensa em Portugal.

      1. Não me parece ter sido falhada a ironia. Apenas quis salientar que é necessário por nomes aos … manipuladores. Aliás, neste particular caso, seja no desporto seja na política parece-me que o descrédito de Oliveira e Costa é generalizado. Pode parecer ser útil, aqui e ali, mas o “embustismo” vai longo demais.

        Quanto ao seu peso no sportinguismo narro um pequeno episódio. Bruno de Carvalho veio a Maputo. Sessão de esclarecimento seguida de jantar. Chego algo atrasado, estava ele a falar, mesa corrida, largas dezenas de pessoas (depois aumentaram, para o jantar). Começada a sessão de perguntas e respostas, há hesitação. O presidente do núcleo enceta e depois o habitual silêncio. Então recomeço, para quebrar o pigarrear geral, e faço-o jocoso e provocatório: “o oliveira e costa apoia quem?” “O Couceiro”, diz o candidato, até aliviado. A gente ri-se, todos aliviados. Passado um bocado chegam mais sportinguistas, alguns um pouco a leste das noticias daí, enredados na vida daqui apesar do fervor clubístico. “Hé pá!, o Oliveira e Costa tá com quem?” “ouve lá, o Oliveira e Costa apoia quem?”, foi-se ouvindo, tal como se ouvia a satisfação aquando das respostas, bem acompanhada do linguajar da bancada, entre a imprecação de alívio e o injuriar de alguém que vai colhendo o menosprezo.

        É certo que o homem tem as suas redes. Mas está na altura de o apear do estatuto de porta-voz do clube. E, também, de encantador sondagístico, mas isso já é outra coisa, de quem lhe paga os trabalhos …

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