Portugal consome 80 mil a 90 mil toneladas de azeite por ano. Quase metade do que consome é azeite importado, mas o nosso país poderá ser auto-suficiente daqui a uns quatro anos, que é quando deverá começar a produção dos novos e vastos olivais que têm sido plantados. Até aqui, tudo bem. Mas há um lado curioso que se prende, uma vez mais, com a nossa incapacidade para darmos conta das nossas necessidades: o azeite que ainda importamos vem de Espanha e o azeite novo que vamos produzir também é espanhol, visto que se trata, em grande parte, de chorudos investimentos em terras e oliveiras vindos dos nossos vizinhos. Tem-se discutido muito se há ou não Estado a mais, mas ainda não vi debater se há ou não Espanha a mais. Se calhar, valia a pena.
Sendo um produto alimentar mediterrânico de qualidade a que estamos habituados por longa tradição, não resisto a assinalar uma quebra da tradição que me parece inexplicável. Refiro-me à possibilidade de distinguir os diferentes tipos de azeite, tanto para o uso em vista como para o paladar de cada um. Tradicionalmente, os nossos azeites eram comercializados com a indicação do grau de acidez na embalagem. Porém, como as directivas europeias não incluem esta indicação, alguns dos nossos produtores têm andado a romper com isso, vá lá saber-se por quê.
Ainda não percebi: Bruxelas não impõe e, portanto, passamos a esconder o indicador que nos orienta? Sempre achei que Portugal aplicava todas as directivas da UE com muita pressa, quando elas serviam interesses destes ou daqueles. Agora, francamente, cumprir directivas pela negativa? Realmente, Portugal deve estar no topo dos países que cumprem as omissões. Se for para abater, estamos aí, não é? País de azeiteiros…

Excelente apontamento, compadre. Esta notícia, melhor do que muitas outras, revela bem o estado do nosso país, que já foi auto-suficiente em azeite e agora depende dos espanhóis para 50% do consumo deste bem essencial. Custa a crer, com tanto azeiteiro por aí…
Enfim, mais um sinal da ‘modernidade’ destes felizes anos do consulado Sócrates. Qualquer dia nem rolhas produzimos.
Pedro Correia,
Por muita razão que possa ter, não pode, salvo melhor opinião, reconduzir a problemática do desbaratamento do olival somente a um governo.
Questionado sobre as decisões que tomou enquanto ministro da agricultura, Arlindo Cunha, Ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação e Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, 1986-1994, disse:
“Na agricultura e nas pescas passámos tempos difíceis, pois tivemos que aplicar as políticas da União Europeia (que à época se chamava Comunidade Económica Europeia – CEE) a partir de 1 de Janeiro de 1986, data da adesão de Portugal. Quer a Política Agrícola Comum (PAC), quer a Política Comum de Pescas exigiram aos nossos agricultores e pescadores um enorme esforço de adaptação.
Eram sectores com um considerável atraso estrutural e que com a adesão à CEE tiveram que se preparar de forma acelerada para defrontar a concorrência dos seus parceiros comunitários. Mas se não fosse esse choque competitivo, estou convencido de que estaríamos hoje bem pior. Na verdade, nenhum sector da economia se moderniza e desenvolve se não tiver o impulso da concorrência. Também foi nessa altura que fizemos uma reforma muito profunda da PAC, por forma a adaptá-la melhor aos desafios dos novos tempos.” in,http :/ geozenite.blogspot.com /2008/05 dixit-arlindo-cunha.html )
O certo é que já perdemos lugares e qualidade/variedade no mercado das rolhas, compadre. A maioria é de segunda e terceira qualidade, complemento de outras cortiças de primeira (caso do champanhe), outras são faixas secundarizadas na mistura para rolhas em que a cortiça à superfície é a melhor e não é nossa, outras ainda já foram substituídas por materiais alternativos.
Excelente conclusão e post, João. Acho que se usam as directivas da UE a bel-prazer do Governo. Só a título de exemplo, se a ASAE funcionasse na Dinamarca, Reino Unido e na Alemanha com o zelo que tem demonstrado por cá, os países fechavam. E também ainda não percebi por que é que não se investe nesse tipo de produtos, parece-me que mercado não faltaria.
Certíssimo. Vale tanto a pena investir que os espanhóis vieram cá fazê-lo em grande escala. De um lado, os investidores inteligentes; do outro, os azeiteiros do costume.
Muitíssimo bem observado. Travo uma guerra cega ao procurar ler o grau de acidez em qualquer letra minúscula do seu rótulo, só porque a lei deixou de o impor.
Mas se eu uso mais este, porque hei-de levar ao engano aquele, sem poder comparar acidez versus preço?
É uma questão de prioridades, com toda a certeza. E aqui o Zé que se amanhe e passe a entender a diferença entre um “clássico”, um “virgem” ou um “virgem extra”, baralhado que está entre o tira e pousa a garrafa.
Antigamente, o nosso azeite era o melhor do mundo, agora nuestros hermanos riem a bom rir: que te aproveche …
Gostava que este apontamento pudesse ser entendido como serviço público. A gente passa a usar um azeite que apresenta o grau de acidez e nem tenta outros que não o mostram. O problema é que aqueles que ainda o registam talvez venham a deixar de o fazer. E depois? São uns cretinos, é o que são.
Muitíssimo bem observado e a verdade é que, até agora, estava convencido de que essa omissão se ficava a dever exactamente a mais um imperativo estúpido da CE, a exemplo de muitos outros que, sem qualquer critério lógico, tem vindo a impor aos mais variados produtos dos seus países membros. Afinal, não! É Portugal – mais uma vez no seu melhor – a querer ser mais papista que o Papa e a criar a si próprio dificuldades, como se já não fossem bastantes as que nos são impostas, as mais das vezes sem qualquer razão lógica aparente, repito. Grandes azeiteiros estes, na verdade, que já nem precisam que alguém lhes ponha uma casca de banana importada para escorregarem no seu próprio caminho. Nada disso! Eles mesmos se encarregam de derramar nele o seu azeite para o efeito, não venham a ser acusados de atrapalharem os interesses de “nuestros hermanos” ou de virem a ser interceptados com um grau de acidez impróprio para consumo…
Sabes o que me faz lembrar esta coisa da indicação do grau de acidez? As chapas de matrícula nos motociclos. A UE consagrou o uso de chapas na rectaguarda das motos e Portugal, que (como outros) já usava, tratou imediatamente de abolir o uso de chapas na frente. Claro: a UE só disse na atrás…
Mas Espanha a mais porquê ?? Se eles investem cá e plantaram olivais,ainda bem.O azeite aí produzido será bem nacional e se ficarmos autosuficientes melhor. O mesmo diria se os investidores fossem lituanos. Alguém disse que o nosso azeite dantes era o melhor do Mundo : mas onde raio se fundamenta uma pessoa para afirmar isto ? Tínhamos e temos excelentes azeites,como os têem em Espanha,Itália,Grécia e no geral em todo o chamado arco mediterrânico.É como a história do melhor peixe do Mundo…por favor temos bom e mau como toda a gente.
Como já devem ter reparado, Antolin não é um apelido servo-croata…
Não, nunca reparei e V. podeia até ser marciano. O caso é que V. gosta de se prender nos detalhes e ignora o essencial. Deve ser por querer ripostar sem ter nada de especial a dizer.
Eu não escrevi que há Espanha a mais, mas que nunca vi isso debatido. E mantenho, porque não falta quem se queixe disso, com ou sem razão.
Também não escrevi que temos os melhores azeites do mundo, mas é verdade que hoje em dia estamos em condições de apresentar tão bons como os melhores.
Finalmente, o que escrevi tem duas partes fundamentais: por um lado, o notório investimento espanhol em contraste com a nossa incapacidade crónica para termos feito o mesmo em tempo oportuno; por outro, o desaparecimento escusado que se verifica no que respeita à indicação do grau de acidez, tradição nossa que me parece muito útil, só porque a UE o desperdiçou.
Sobre um e outro, afinal, V. comentou nada.
Prosa muito bem oleada, João. :))
Uma coisa: eu nunca compro azeite sem ver o grau de acidez. Até agora não dei pela falta da indicação nos rótulos.
[Mas, veja bem, tenho-me queixado amargamente de outra coisa que não tem a ver com o post mas só comigo: as letrinhas são tão pequenininhas que eu vejo-me grega para as ler… :))))) ]
Quando vou ao hiper-mercado, MDSol, tenho sempre na carteira uns óculos de farmácia com umas lentes garrafais, para as letras pequeninas. Daqui a uns anos levo a lupa:)
A vida não é justa Maloud. Não é mesmo! Ó p’ra nós todos catitas e, quando menos se espera…
:))))))
As letras estão cada vez mais pequenas. E, Maria do Sol, há-de reparar antes de comprar o seu azeite do costume: cada vez há mais que não apresentam o grau de acidez e já faz tempo.
Sim, vou reparar. Ainda bem que levantou a questão. Vai ser um problema porque eu não compro azeite sem saber o grau de acidez.
:)))
Tal como eu.
Não é nada justa Maria do Sol, quando menos se espera acordamos ceguinhas, pernetas e entrevadinhas :)))
Eheheeh Só a Ariel para me por um sorriso largo depois de tantas horas mergulhada em papéis!
:))))
Nos anos 60, estávamos na EFTA, houve uma fortíssima campanha, patrocinada por alguns nomes sonantes da medicina da época, que levaram à redução drástica do consumo de azeite em favor dos óleos. Só no fim dos anos 90, os media começaram a divulgar os benefícios da dieta mediterrânica e paulatinamente o consumo de azeite começou a aumentar, embora estejamos a milhas dos italianos e muito principalmente dos gregos.
Embora me interesse pelo grau de acidez, que vou encontrando afixado em todos as marcas nacionais que compro, julgo que mais importante é a rotulagem sobre o método de extracção. A qualidade de um azeite extra-virgem extraído a frio é substancialmente diferente de todos os outros e justifica o custo mais elevado.
Quanto ao nosso azeite de antanho, com sabor a tulha (mesmo quando a acidez era baixíssima), ser o melhor do mundo é opinião que de forma alguma partilho. Bastava dar um salto à Toscânia e comer uma bruschetta, para percebermos o longo caminho que tínhamos de percorrer. Felizmente na maioria dos casos já foi percorrido com êxito e hoje quase sempre é um regalo saborear um bom azeite português. Dir-se-á que estes azeites de topo são caros. Talvez, mas são sempre bastante mais económicos que os franceses ou italianos de qualidade idêntica.
Sobre as rolhas de cortiça, João, muito haveria a dizer, mas para lençol já chega o azeite:)
Certo, Maloud. E há-de reparar nas marcas nacionais que deixaram de lado o grau de acidez. Cada vez há mais e não é de agora.
Boa tarde,
Tenho produção de miolo (grão) de amêndoa e azeite de trás-os-montes e pensei que poderia estar interessado em comprar. Vendo pequenas quantidades (min. 5l e 1kg).
Cumprimentos,
João Tomé
email: joaobtome@gmail.com
Tem razão, João começa a haver casos em que deixaram de colocar o grau de acidez. Mas sublinho o que diz a malould sobre ser mais importante a rotulagem sobre o método de extracção, do que propriamente o grau de acidez, embora todos nós continuemos a valorizar o grau de acidez por tradicionalmente ter sido a forma de diferenciarmos o bom do mau azeite.
Sem dúvida. O método é essencial, mas a acidez é ainda associada ao paladar, o que tem importância.
Amen!
Assim seja. Ou assim fosse.
A falta de tempo não me tem permitido uma presença assídua no DO e perdi este magnífico post e os respectivos comentários. Na altura da aplicação da Directiva, que pôs os portugueses a pensar que o azeite virgem e extra-virgem era o melhor que estava à venda, tive oportunidade de escrever sobre o assunto. Mas este post também me trouxe à memória a “guerra dos galheteiros” e, com tua licença, vou postar um destes dias sobre o assunto…