As tatuagens


Paulo Sousa,
– Porque é que certos homens gostam de tatuagens?

– Tatuagens? A que propósito vêm agora as tatuagens?

– Não sei, João, lembrei-me. Conheci um tipo que tinha uma nas costas daqui até aqui. É esquisito, não é?

(…)

– Ainda que fossem exibicionismo – continuou Guida – ou ridículo, ou feira de virilidades, se fossem só isso, enfim, que se lixassem as tatuagens. O pior é que estão carregadas de ritual, as tatuagens, carregadas de superstição. No fundo não passam de um ritual religioso para eternizar a autoridade. Ou os sentimentos, vem a dar no mesmo.

 

O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires

 

 

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“É professor e tem o corpo, o rosto e até a língua cobertos de tatuagens. Sylvain Helaine recorreu mesmo a cirurgia para que o branco dos olhos ficasse preto. É professor primário em Paris e mas já foi impedido de continuar a ser educador num jardim de infância francês depois de um pai ter reclamado que Helaine assustou o seu filho.

A história gerou discussão em França e com o novo ano lectivo Sylvain Helaine, de 35 anos, ainda dá aulas para crianças a partir dos seis anos e rejeita que o seu aspecto cause problemas e afirma que, após um choque inicial ao vê-lo pela primeira vez, os seus alunos acabam por se habituar à sua aparência.”

 

Tenho um amigo que garante que um dia, juntamente com a mulher barbuda, será atracção num circo como sendo o último caucasiano branco sem tatuagens.

Os apreciadores acreditam que a pele do corpo é uma tela para uma livre expressão artística e com ela permanecerão juntos até que a morte os separe, e mais 40 dias.

Outros aceitam mas só se houver bom gosto nos motivos tatuados. Outros ainda ficam incomodados com o mínimo traço, ou ponto tatuado.

Saber o que estará na mente de cada um de nós será sempre um mistério insondável, mas quão legítima será a queixa dos pais dos alunos do ensino primário e quão legítima será a defesa do professor conhecido como Freaky Hood que se queixa de discriminação?

25 comentários em “As tatuagens”

  1. Neste caso concreto, o problema não está nas tatuagens mas sim na profissão.
    Quando o professor é ele mesmo um foco de distracção, deixa de conseguir transmitir a sua mensagem.
    E as crianças entre a atracção circense e a matéria escolar, fazem a escolha óbvia.

  2. estão carregadas de ritual, as tatuagens, carregadas de superstição. No fundo não passam de um ritual religioso para eternizar a autoridade. Ou os sentimentos, vem a dar no mesmo.

    Jamais uma mulher se exprimiria assim. Este discurso é inverosímil.

  3. Os motivos de distração são os que uma pessoa quiser.
    Uma profe bem decotada, um stor de brinco, um tipo que coxeia ou uma de cabelo roxo, podem “distrair”. Devem ser impedidos de leccionar?

  4. O problema não é a profissão. O problema são as tatuagens. Neste assunto sou liberal, a cada um segundo o seu livre-arbítrio. Cabe à sociedade, democrática, acolher e enquadrar estes hábitos, recentemente generalizados. O PM António Costa abriu caminho para reflectirmos ponderamente sobre o assunto, quando aludiu à hipótese de empregar os refugiados do Próximo Oriente em trabalhos braçais organizados pelo Estado (essa solução seria ilegal, pois o direito internacional impede a utilização de refugiados, facto que o então neófito político e desconhecedor de ciências jurídicas António Costa desconhecia). Mas, de facto, será essa a solução: trabalhos braçais forçados e perpétuos para detentores de qualquer tatuagem – com excepção de marinheiros profissionais de veleiros e veteranos da guerra colonial, por usucapião dos seus corpos. E em campos sexualmente apartados, para impedir a sua reprodução biológica. Que fique explícito, apesar de tudo, e por razões de princípio, sou avesso à pena de morte para tatuados.

  5. Ó diabo, este destronou o nosso “craque” Raul Meireles e respectiva esposa no Campeonato do Mundo das Tatuagens.
    Há que reparar a honra nacional ofendida. Alguém vá rapidamente tatuar os olhos ao patusco casal.

  6. Nada tenho contra tatuagens. Mas, como em tudo, há exageros.

    Não concordo com a personagem de José Cardoso Pires. Nem sobre as tatuagens, nem sobre a equivalência entre autoridade e sentimentos. Um desejo exagerado de autoridade é, na verdade, uma anulação de sentimentos.

  7. Há tatuagens belíssimas e tatuadores tão geniais como muitos mestres do renascimento.
    Dar o corpo à tatuagem é uma escolha em liberdade. Um bom professor não deixa de ser um bom professor por ser tatuado. Isso são tretas e fundamentalismos bacocos. É bem mais assustador para uma criança ver , por exemplo, o pai bater na mãe ( ou vice versa, vá lá).
    Se eu gosto de tatuagens? Acho algumas uma obra de arte. Jamais me tatuaria ou concordaria em autorizar uma tatuagem.
    Depois há esta situação dos viciados em tatuagens. É como tudo… como aquelas pessoas que depois da primeira cirurgia plástica não conseguem parar, sempre em busca da perfeição.
    Este rapaz em particular, aliás, como todos os from head to toe até onde a minha noção de estética alcança, fica desfigurado. Um troll, um orc ? Com o passar do tempo será apenas um borrão, nada mais.

  8. “Um bom professor não deixa de ser um bom professor por ser tatuado.”
    Se for um “professor” de tatuagens é capaz de ser verdade.
    Mas no caso da figura acima e porque é professor de crianças o respeito é substituído pelo medo.
    Um palhaço teria o mesmo efeito, e em algumas crianças o medo daria lugar ao riso.

    1. Vamos supor que o professor teve queimaduras profundas na cara e está completamente desfigurado, mas é uma pessoa funcional e um excelente profissional apesar de parecer um personagem de filme de terror. Inspirará medo? Provavelmente, mas não é um palhaço, é uma pessoa competente, eficiente e integrada na sociedade.

      1. Completamente de acordo consigo. Eu também não estou a defender o código de conduta que havia antigamente.
        A minha opinião sobre as tatuagens diz respeito apenas à figura. E aquela apresentação não é própria de um professor, com a agravante de ser um professor de crianças.
        A missão de um professor é ensinar não pode ser chocar.

          1. E porque não as duas? Uma pessoa competente tem de ter noção da imagem que cria sobre os outros. Ou então será um indivíduo desprovido de bom senso. Não caiamos no exagero de julgar apenas a aparência da pessoa, mas também não vamos deixar de julgar a pessoa que não tem o equilíbrio e a responsabilidade de perceber até que ponto pode ir. Neste caso, acho de um incrível egoísmo um professor achar-se de elevação moral para fazer o que lhe apetece, como tatuar-se todo e aparecer aos seus alunos de 6 anos nesta figura. Tal como não seria aconselhável um indivíduo aparecer de calções e camisola de uma equipa de futebol a uma entrevista de emprego. Tal como não seria responsável um PM aparecer vestido de mulher.
            Cada um é livre de se vestir e pintar como quiser, certo. Mas certas diretrizes sociais devem existir e manter-se.

          2. Concordo com o exagero, mas não temos a informação de que o empregador se sentisse incomodado com a aparência do empregado antes de UM pai se sentir melindrado porque o look assustou o filho.
            As crianças são normalmente a melhor desculpa para todo o tipo de intolerâncias.
            Presentemente qualquer coisa melindra as pessoas e tem que se tratar tudo nas palminhas.
            Um primeiro ministro travestido não é novidade, vemos isso diariamente por pensamentos, palavras e obras.

          3. As crianças são normalmente a melhor desculpa para todo o tipo de intolerâncias.

            Excelente observação.

            As crianças foram usadas pela direita para manifestar a sua intolerância da homossexualidade. Não se aceitava o casamento de homossexuais porque as crianças iriam ficar chocadas por ver dois homens casados. Não se aceitava a adoção por homossexuais porque as crianças assim educadas tenderiam para a homossexualidade.

            Em vez de declararem abertamente a sua intolerância, os adultos de direita projetavam-na sobre crianças imaginárias.

      2. Não confundamos, atrevo-me a sugerir, uma “fatalidade”, involuntária e seguramente indesejada – um acidente de que resultam graves e disformes queimaduras, ou outras consequências (e até por respeito por quem disso foi vítima) – com uma acção deliberada, decerto maturada e tomada sabendo, ou mesmo desejando-o, e por isso mesmo, que (ainda, até ver…) teria como efeito marcar uma clara posição – posição bem distanciada, para não dizer oposta – ao que, ainda, vai sendo tomado como natural. Como normal.

        Nada tenho, bem pelo contrário, sempre dentro do bom senso, contra o normal. Fui educado e eduquei dentro desse limite. O meu erro – grave erro – deve ser esse.

        Costa

        1. “foi impedido de continuar a ser educador num jardim de infância francês depois de um pai ter reclamado que Helaine assustou o seu filho.”

          Não se trata de escolhas. Resume-se tudo à aparência. Se estive desfigurado por acidente e parecesse um ” monstro”, não iria do mesmo modo assustar as criancinhas ? Quanto a indignar os papás, já não sei. Reclamar não seria politicamente correcto.

          1. Então porque é que não se pode dar as aulas nu?

            “Resume-se tudo ás aparências”

            Sim e as aparências escolhidas representam valores e graus de civilidade.

            Mas para quem não se importa de desconstruir a civilização tudo vale até ao dia que passar a ser conveniente voltar a construir depois de desconstruir seguindo sempre o l’air du temps…

            lucklucky

  9. Eu só posso dizer que não gostaria nada de ter aulas com Monsieur Helaine… e já não sou uma criancinha de seis anos.
    Sempre gostei de olhar os meus professores “olhos nos olhos” e sinto que não seria capaz… logo iria chumbar… e isso é que não

    Agora como obra de arte ambulante tem todo o direito de circular por aí à vontadinha.
    🍁
    Maria

  10. Acho que deveriam aumentar a idade legal para fazer tatuagens – creio que com autoriz. dos pais, podem ser feitas a partir dos 16 anos. Conheço mais de que um caso de jovens que se arrependeram (e a remoção é ainda um processo longo, traumático e caro). Um clássico é a entrada no mercado de trabalho – setores que preferem candidato(a)s com uma imagem mais conservadora (a banca, por ex) e certas “decorações” não são apreciadas. Depois há os trabalhos mal feitos, ou o “produto” de uma noite de copos (ou substâncias…) que resulta num grafitti embaraçoso, que acaba por ser removido… As tatuagens bonitas e bem feitas não são baratas, as pessoas acabam por optar pelos motivos tribais, a preto ou frases-feitas sem nenhuma originalidade…

  11. Isto das tatuagens tem que se lhe diga, sem falar das tatuagens dos aborígenes da Nova Guiné ou até da Nova Zelândia e nem sequer dos marinheiros ou dos prisioneiros que, julga-se, assim o faziam por razões de grande isolamento familiar.
    E é mesmo no âmbito do isolamento familiar que começaram a aparecer as tatuagens nos soldados durante a guerra colonial (1961-1974).
    O mais vulgar dessas tatuagens era o “Amor de Mãe” e “Amor de Maria Rita” tatuado num braço dentro dum coração, feitas com um objecto bicudo (faca ou alfinete) e tinta da china.
    E, passados uns anos da guerra, começaram a aparecer problemas para a possibilidade de se querer livrar das tatuagens. A razão parecia evidente, no regresso da guerra a Rita e outras Marias já se tinham enamorado com outros, e a chatice continuava com uma nova namorada que não se chamasse Rita.
    Mas, nas tatuagens “Amor de Maria” as confissões ‘ainda não te conhecia e já tinha o teu nome gravado’ dava para muitas hipóteses, só que era muito difícil a explicação às com os nomes, entretanto, da moda: Mafalda Isabel ou Vanessa Sofia.

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