1 – A precipitada e confusa exoneração de funções de Fernando Lima, ex-assessor presidencial do Presidente da República, se, por um lado, demonstra que Cavaco Silva segue com atenção o que se vai passando em seu redor, ao mesmo tempo evidencia as suas fragilidades e, não menos importante, as debilidades do actual sistema de partidos.
2 – Na linha do que já alguns referiram, tão telegraficamente quanto me é possível, direi apenas que o Presidente da República, que há dias declarava não ser ingénuo, começa, finalmente, a dar mostras de aprender com os seus erros, o que só reforça a sua verticalidade e carácter. Demorou, é verdade, mas tomou a única decisão possível perante a avalancha e a crueza dos factos. É bom que os portugueses possam continuar a acreditar no seu Presidente da República e que não o confundam com uma seita infiltrada nos órgãos de Estado nem com meia dúzia de valdevinos acoitados nos partidos e que medram à sua sombra. É bom perceber que há gente de boa fé no meio do furacão e que não se pode partir do princípio maniqueísta de que só há bons e maus e que os nossos é que são os exemplos a seguir.
3 – Fica ainda muito por esclarecer. Pois fica. Só que o Presidente da República para exercer convenientemente o seu papel não pode andar atrás dos acontecimentos, nem contribuir para a sua precipitação, sob pena de ser ele a mina que destrói o regular funcionamento das instituições e põe em causa a já tão maltratada estabilidade do relacionamento entre elas.
4 – Por aqui já se vê que não poderá ser o Presidente da República a dar cobertura aos insistentes pedidos de Pacheco Pereira para que esclareça já tudo o que há a esclarecer. Não estamos a falar da interrupção do envio de tropas para a guerra colonial, como se pedia nos idos de 1974. Neste momento é demasiado claro aos olhos de todos que criticando o que fez o Presidente da República, criticando o momento e exigindo esclarecimentos antes do acto eleitoral de 27 de Setembro, Pacheco Pereira pretende encontrar um primeiro responsável para a derrota de Manuela Ferreira Leite. Caso Manuela Ferreira Leite vencesse as eleições de domingo, Pacheco Pereira diria que o PSD o fez contra tudo e contra todos. Como percebeu, depois do que aconteceu, e de descoberta a moscambilha com epicentro em Belém que iria servir de muleta ao PSD para apear José Sócrates, que a derrota é quase inevitável, Pacheco Pereira quer evitar já o descalabro de domingo e proteger a sua líder. Dava jeito ao PSD, para o bem e para o mal, que Cavaco Silva falasse de imediato. O Presidente da República não pode nem deverá fazê-lo. Ele não se chama Marcelo Rebelo de Sousa e já chega a turbulência política que por inépcia e excesso de confiança permitiu durante 35 dias.
5 – Uma outra lição decorre da circunstância de uma pequeníssima “crise”, motivada pela liberdade de actuação de uma clique de irresponsáveis e de gente que não olha a meios para atingir os seus fins, praticamente poder provocar um golpe de estado sem que se conhecessem os seus reais protagonistas. Bastaram meia dúzia de telefonemas, um par de cafés e umas quantas mensagens trocadas por e-mail. Saberá o prof. Cavaco Silva quantas vezes ocorreram episódios idênticos no passado usando técnicas semelhantes de manipulação da informação, lançamento de rumores e de insinuações sobre a credibilidade e reputação de terceiros para assim se obterem, ilegitimamente, ganhos políticos? Houve quem aprendesse na Guiné com um falecido marechal e nunca mais esquecesse. Joaquim Furtado, que fez uma série sobre a guerra colonial que devia ser de visionamento obrigatório nas nossas escolas, saberá melhor do que eu do que falo. A generalidade das pessoas, a começar pelo prof. Cavaco Silva, que teve sempre uma vida de trabalho honesta, pacata e transparente, parte do princípio, inaceitável com este pessoal que anda na política, de que é tudo boa gente. Não é, como se viu. Impõe-se que quem exerce funções de responsabilidade nas instituições políticas do Estado esteja cada vez mais alerta e seja criterioso nas escolhas que faz. Um mau psicólogo nunca pode ser bom político e se for teimoso estará desgraçado. Ele e quem dele dependa.
6 – Neste pequeno turbilhão provocado por duas ou três pessoas os partidos nada puderam fazer. Ficaram manietados pelos acontecimentos e pela informação que alguns iam filtrando e colocando nos jornais a conta-gotas. Desta vez o objectivo foi claro. De outras nem tanto. Desvirtuar o resultado das eleições de 27 de Setembro, através da criação artificial de uma crise institucional pela qual seriam acusados o PS e José Sócrates, era o que se preparava. Em Itália, os amigos de Silvio Berlusconi não fariam melhor.
7 – Manuela Ferreira Leite pode fazer de conta que não é nada com ela. Mas é. Não será por assobiar para o lado enquanto arde a casa do vizinho que a sua não irá arder. Seria bom que ela, José Sócrates e os demais líderes políticos começassem a olhar para dentro das suas próprias casas com olhos de ver e retirassem as devidas conclusões. Uma democracia que não é protegida pelos partidos e pelos seus líderes é uma democracia condenada.
8 – O que aconteceu com o Presidente da República foi apenas um aviso. Uma repetição seria a machadada final no regime. Ninguém no seu perfeito juízo quererá dar mais razão a Vasco Pulido Valente do que aquela que ele já tem.

Salvo o devido respeito, trata-se de areia para os olhos ou na melhor das hipóteses um ensaio de justificação que não casa com os factos conhecidos e já assentes que são de tal forma irrefutáveis que a sua não consideração pode começar a passar por litigância “agumentativa” de má-fé…
É que a actuação do PR não deixou margem para qualquer generosa interpretação sofisticada; é, para mal de todos, já tarde demais. Acabou.
Portanto, por mim, menos que o art. 131.º da CRP não!
Li o seu post com atenção e independentemente do pendor +/- moralizante com que retrata a situação actual, e sobre a qual não divirjo, noto, contudo, que aquilo que mais retive e ao que dou mais relevância é a denúncia feita acerca da hipotética intromissão de Pacheco Pereira na esfera do PR.
Não minimizando o restante, é aqui que bate o ponto.
Li o seu post uma vez.
Li duas vezes.
Mas como sou um pouco lerdo não sei se compreendi bem.
Está a querer dizer que Cavaco, o santo homem das acções da SLN, não sabia de nada?
Que o seu amigo e conselheiro desde 1985, é um pulha e fazia diabruras clandestinamente?
Desculpe, com todo o respeito, posso ser burro, mas ingénuo não, como diz Cavaco!
Já li este post e o do andar de cima dúzias de vezes e não percebo onde quer chegar. Não tendo a inteligência e os conhecimentos do Portas e do Louçã, gostaria de lhe pedir a descodificação possível da moscambilha.
Parece agora evidente que houve uma tentativa clara de envenenar a opinião pública à beira das eleições, retomando uma história com mais de um ano e que estava a aboborar no Público, para que a ala cavaquista do PSD pudesse obter um melhor resultado eleitoral na sua luta contra o PS. Moscambilha é sinónimo de trapaça, de jogo sujo, de tramóia, de intriga. Foi o que aconteceu. Nesse aspecto não há outra descodificação possível, é tudo muito claro.
Estou um pouco aturdida, mas se bem percebo, o que nos estará a dizer é que temos de ajudar o presidente a acabar o seu mandato com dignidade. Já fui obrigada a engolir alguns sapos, não sei se consigo digerir este…
O mandato do Sr Silva já acabou à 17 ( DEZASSETE ) meses atrás.
Esse cara de pau quando vier fazer a comunicação ao País na véspera das eleições poderá por acaso estar a pensar que alguem minimamente formado crescido ou esclarecido lhe dará um milésimo de segundo de atenção , ou que pelo contrário lhe estará a passar roda de ………..para baixo.
Por falar disso, não estará a dar futebol nesse momento?
Rectifico; um pequeno grupo ( os pachecos,as menuelas,os marcelos os fernandes,os brancos, os mendes, os borges de que muito se irá falar,e muitos outros ) de iluminados paladinos da verdade absoluta e outros mimos que não posso descrever estarão embevecidos de tanto terem chafurdado na mentira e pouca vergonha desse senhor que terão uma reacção quase orgâsmica/messiânica.
Muito bem, Sérgio. Destaco, entre outros trechos, este que aqui deixaste: «É bom que os portugueses possam continuar a acreditar no seu Presidente da República e que não o confundam com uma seita infiltrada nos órgãos de Estado nem com meia dúzia de valdevinos acoitados nos partidos e que medram à sua sombra. É bom perceber que há gente de boa fé no meio do furacão e que não se pode partir do princípio maniqueísta de que só há bons e maus e que os nossos é que são os exemplos a seguir.»
Pedro percebo muito bem o que se pretende sublinhar, só que pessoalmente tenho muita dificuldade em admitir tanta ingenuidade. Lembra-se do comportamento de Willy Brandt ? Pois é. Garanto-lhe que não sou nada maniqueísta, já vi demasiada porcaria exactamente no meu lado da barricada para acreditar em anjos. Também sei que o momento é difícil e precisamos de um garante de estabilidade. Mas tenho sérias dúvidas que o presidente ainda vá a tempo de cumprir esse papel. Como digo, já tenho a minha dose de sapos. Estou muito muito pessimista com os próximos tempos.
Ariel, defendo o princípio enunciado pelo Sérgio em tese, sem fulanizar. Aliás, como deve ter reparado, fiz já uma crítica frontal ao Presidente Cavaco Silva pelo seu comportamento ziguezagueante no famigerado caso das pseudo-escutas. Sem retirar uma vírgula do que escrevi, e consciente de que os factos mais recentes só me deram razão, tendo sempre – em tese, repito – a considerar o Presidente da República a última reserva moral do nosso sistema democrático. No dia em que isso fosse seriamente posto em causa, estaria aberta a porta a um regime autoritário, tendencialmente ditatorial, pronto a pôr fim aos “erros” da democracia. Supondo que era aí que o Sérgio pretendia chegar, acompanho-o nesse raciocínio. Por uma questão de princípio, seja quem for o titular que estiver em Belém.
É claro.
Não confudamos o titular com o órgão. Do titular podemos libertar-nos nas próximas eleições. Em relação ao órgão não podemos passar sem ele, por isso seria bom que ele (o orgão) não fosse apoucado. E não é preciso ser um conservador para perceber isto.
Cruzando os comentários do Sérgio e do Pedro julgo ter percebido o que verdadeiramente importa.
Obrigada aos dois.
E o que verdadeiramente importa é…………………. ajudar Cavaco a acabar o mandato com dignidade.