Fui passar o fim-de-semana à terra, aproveitando a passagem por lá tanto da minha irmã como de um amigo de infância emigrado. Normalmente, a ida à aldeia não serviria de pretexto à bloga (só talvez pela açorda de marisco na Zambujeira do Mar, que continua extraordinária), mas quando ontem já preparava o regresso a Lisboa esta notícia do Público fez-me pensar se a viagem de Intercidades prevista para as 19:25 não se revelaria atribulada.
Comboio Intercidades atropela ovelhas e fica parado quatro horas
O comboio saiu de Lisboa pouco depois das 14h e chegará ao Algarve com quatro horas de atraso.
Em circunstâncias normais, um acidente desta natureza com o comboio que faz o percurso Lisboa – Faro não devia causar atrasos na composição que faria o percurso inverso horas mais tarde, mas quem viaja com frequência na CP sabe que hoje em dia as circunstâncias da ferroviária serão tudo menos normais. Se o comboio acidentado a ir para baixo fosse o mesmo comboio que devia voltar para cima mais tarde, e se não houvesse uma composição de reserva, o atraso seria inevitável. Sabendo que a minha namorada estava nas imediações de Sete Rios, pedi-lhe que passasse na estação e tentasse saber alguma coisa.
“Aqui não têm qualquer informação de atraso”, diz ela pelo telefone. “Dizem que os comboios não são os mesmos, e que o comboio não bateu num rebanho de ovelhas, mas apenas numa ovelha”.
Não fiquei especialmente descansado, mas não havia muito mais a fazer (e dei por mim a pensar quão grande teria de ser uma ovelha capaz de rebentar com uma locomotiva). Perto da hora fui para a estação, encontrei um antigo colega de escola e entretemo-nos à conversa. Como era de esperar, às 19:25 não vimos nenhum comboio atravessar o arco da ponte da muito arruinada Estrada Nacional 266, logo antes de entrar na estação de Santa Clara – Sabóia. Os minutos foram passando. Nada de comboio, e nada de informação – a estação encontra-se há muito encerrada, funcionando apenas como apeadeiro, pelo que não há um empregado a quem se possa perguntar algo. Os altifalantes permaneceram em silêncio. O aparelho de contacto estava avariado ou desligado – premia-se um botão, ouvia-se um pi-pi-pi, e nada. A “linha de apoio” da CP continua muda – imagino que seja mais fácil comunicar com Proxima Centauri do que obter “apoio” da ferroviária. Perto das 20:00 (já com meia hora de atraso, portanto), lá soou qualquer coisa nos altifalantes roucos da estação: que ia chegar um comboio Intercidades às 20:30, perdão, às 20:10, e mais algumas palavras imperceptíveis. Mas era melhor do que nada – era, finalmente, uma informação.
Só quando vimos um comboio a vir de Norte quando devia vir de Sul é que percebemos mesmo o que se passava.
O comboio parou e, em menos de nada o revisor viu-se rodeado por todos os passageiros que aguardavam em Santa Clara – Sabóia. E esclareceu: aquele era o comboio que saíra de Lisboa pouco depois das 14:00 e que tivera o tal incidente com a ovelha ou as ovelhas. E aquele era também o comboio que partiria de Faro com destino a Lisboa, e que devia parar naquela estação às 19:25 (estaríamos perto das 20:15). Considerando que a viagem entre Sabóia e Faro leva uma hora e quinze minutos, é fazer as contas (para recordar as sábias palavras do Guterres) ao tempo que ainda teríamos de esperar ali, no meio de nenhures, numa estação fechada e muito pouco abrigada, com a noite já a cair. Perante os protestos, lá balbuciou um “eu entendo, mas não é culpa minha”, enfiou-se na carruagem e partiu rumo ao Algarve.
Sendo da terra, pude voltar a casa dos meus pais para jantar (os outros passageiros não tiveram a mesma sorte), antes de regressar à estação para tentar a única alternativa a uma espera longa e incerta, ou ao adiar da viagem para o dia seguinte: apanhar um comboio “especial” que a CP faz às Sextas de Lisboa para Faro, e aos Domingos de Faro para Lisboa, e que devia parar ali às 21:25. Lá chegou com cinco minutos de atraso: uma automotora de três carruagens com todos os lugares ocupados e com dezenas de passageiros amontoados pelo chão. Foi assim que voltei da província para a capital neste Verão de 2019: sentado no chão de uma automotora, felizmente entretido a ler banda desenhada (ao contrário dos telemóveis e dos tablets, os livros e as bandas desenhadas nunca ficam sem rede ou sem bateria); à minha frente, um velhote de pé – saiu na Funcheira, sorte dele -, um homem de meia idade sentado no chão a olhar para o vazio e outro, de pernas cruzadas no chão, a fazer qualquer coisa num computador portátil. Dois estudantes sentavam-se nos degraus da porta e falavam de futebol, passando de craques recentes a partidas disputadas décadas antes de terem nascido. Havia crianças e idosos a permanecer de pé, gente sentada em cima de malas e no chão, a desviar-se sempre que alguém queria chegar à casa de banho, a levantar-se quando a posição se tornava insuportável. O revisor, esse, nunca apareceu – e imagino que terá mantido o mínimo contacto possível com os passageiros.
Lá cheguei a Lisboa minutos antes da meia-noite. E em Sete Rios, onde ninguém iria embarcar naquele comboio, já se sabia qualquer coisa: que o comboio Intercidades procedente de Faro com destino a Lisboa Oriente circulava com um atraso de três horas e trinta e tal minutos, e que a hora prevista de chegada seria à uma e dezoito da manhã (mais o pedido de desculpas “pelos incómodos causados”). Uma informação que, cinco horas antes, teria decerto sido útil para os passageiros que esperavam em Sabóia – e, imagino, nas Amoreiras e nas Ermidas (talvez na Funcheira ou em Messines se soubesse de alguma coisa, o que não será de todo garantido), mas que ali pouca utilidade teria. Quem habita no interior – naquele interior só lembrado quando há desgraças – não merece comboios pontuais, e muito menos informação sobre os atrasos. Esperem ou amontoem-se nos comboios, se quiserem. Da próxima vez que o Marcelo e o Costa se lembrarem de ir fazer propaganda para o interior, sugiro que viajem como eu e muitos outros viajámos hoje: sentados durante no chão sujo de uma automotora durante horas. Talvez lhes servisse de lição antes de dizerem asneiras e fazerem promessas vazias.
O amigo emigrado que encontrei no fim-de-semana disse-me que na Alemanha, onde vive, os passageiros ficam fulos se um comboio se atrasa dois minutos. Pensei muito nisso hoje (ontem) à tarde. Talvez a culpa de todos estes atropelos até seja nossa: bufamos pelos atrasos e pelas supressões constantes, mas acomodamo-nos. Não reclamamos, não partimos a loiça, não abanamos umas carruagens, não fazemos um motim numa bilheteira, não cobrimos um ministro ou um secretário de estado de alcatrão e penas. Nada. Encolhemos os ombros a cada declaração autista de um (ir)responsável político. Gracejamos quando o atraso se repete (e repete). Cagamos umas larachas – para usar uma expressão da terra – nas redes sociais e ficamos por aí, apaziguados pela falsa empatia dos likes e dos emojis furiosos. Enfim, seremos ovelhas, também – e nesse sentido até teremos talvez sorte pelo atraso dos comboios, que pelo menos assim não nos colhem na linha.
ADENDA: Devia ter transcrito este post para as folhas do livro de reclamações, já que me saiu bem melhor. Pormenor interessante: um utente que queira fazer uma reclamação na Estação de Sete Rios terá de escrever de pé, sobre o balcão estreito, quase em cima de quem precisar de utilizar a bilheteira. Enfim, dadas as condições de viagem que a CP me proporcionou ontem, não deixa de ser ironicamente adequado ver-me obrigado a passar longos minutos de pé a preencher os formulários e a descrever o ocorrido.

Provavelmente o atraso foi devido ao Delegado de Saúde andar por longe.
Sim, talvez para se ser ouvido, neste país, já não baste o grito, mas sim a punhada.
Somos demasiado mansos.
E Beja, João?
Sinceramente, nem sei se ainda chegam comboios a Beja. A ligação para a Funcheira foi desactivada há anos; para Lisboa é capaz de haver uma automotora. Ainda lá fui várias vezes de Intercidades quando estudava…
Pois,só que na Alemanha não são só os comboios que chegam a horas,as pessoas também! Aqui,fazem gala em chegar tarde. Já li que é “chique” fazer esperar… 😠
Se é chique fazer esperar, então a CP é “chic a valer!”
Comboios na Alemanha a horas??? Nunca viajou na Deutsche Bahn de certeza…..
Os comboios na Alemanha funcionam bastante mal, com supressões e atrasos frequentes.
O que não torna a CP boa evidentemente. Anos de desinvestimento, que ainda não acabaram, levaram a isto.
Claro. E na Alemanha também existem acidentes rodoviários, como cá. É tudo normal. Até aposto que estamos a crescer mais que a Alemanha….
Ver o mundo a preto e branco dá nisto.
Não se concebe que sendo os combóis maus cá, não sejam bons na Alemanha. É impossível que exista alguma coisa má nos países “ricos”. A parolice quando dá…
É algo inédito na história do setor empresarial do Estado em Portugal
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticia s/governo-esquece-se-de-aprovar-contas-d a-cp-desde-2015-466914
https://www.rtp.pt/noticias/economia/op osicao-acusa-governo-de-levar-cp-ao-cola pso_v1091695
https://www.publico.pt/2018/07/11/econo mia/noticia/cp-esta-a-ficar-sem-comboios-e-a-b eira-do-colapso-1837465
A culpa é do Passos….
O Passos tem as costas largas.
Isso não sei, pois nunca andei de comboio na Alemanha. Mas se calhar eu até vivia bem com atrasos e supressões de comboios à alemã se também tivesse condições de vida à alemã.
Eu sou o amigo emigrado do João. É certo que não conheço toda a Alemanha, mas do que conheço os comboios não “funcionam bastante mal” para a realidade portuguesa. E os atrasos frequentes que conheço são de 1 ou 2 minutos. Os intercidades veja só que chegam ao destino quase 10min antes da hora de partida.
Hehe. Mas com a CP um ou dois minutos não é atraso, é compasso de espera. O país não teria stock de ansiolíticos suficiente se os utentes da linha de Sintra se passassem da marmita a cada dois minutos de atraso… 🙂
Chamaram o pã,cerimónia funesta,voto de pesar na assembleia,trez dias de luto e luta contra o incivismo ferroviário.
O deputado do Pã provavelmente nunca terá visto uma ovelha…
Por mim era bater-lhes. Muito. Ah pois, e resolvia alguma coisa? Não tenham dúvidas de que sim.
Alcatrão e penas à saída de cada comissão parlamentar de inquérito, já!
Parece-me bem, mas… e que tal se fosse antes, à entrada?
Por que não ambas?
Já fizeste a tua parte, João, ao denunciar aqui mais esta pouca vergonha da CP, um episódio digno de um país do terceiro mundo (expressão proscrita pelo politicamente correcto, mas que é a que melhor traduz estas realidades).
Ainda irei fazer uma reclamação e exigir o reembolso do bilhete que paguei, mas do qual não usufruí. Só hoje, claro – à hora a que cheguei ontem já não havia vivalma na estação.
Comboios, comboios.
Diz que os transportes públicos estão melhores.
Haveria muito por dizer quanto à qualidade do serviço da CP, mas para já, as reclamações.
Fiz algumas, devido a atrasos. Prazo de resposta, superior a um ano.
Reembolso de um bilhete não usado devido a greve, cerca de três meses.
Apoio ao cliente, telefónico ou chat, limitam-se a ler/escrever os textos que estão no site.
Fiz uma reclamação acerca de um bug no site, em que cobravam mais do que o devido. Dei-me ao trabalho de descrever o processo passo a passo, colocar imagens do formulário, explicar qual o erro e qual o comportamento esperado. Resposta? Nunca. Reenviei para DECO, que contactou a CP. Resposta? Nunca. A opção seria accionar via jurídica… por meia dúzia de euros. Pois, conformismo.
Depois há todo o regulamento de reembolsos. Escrito pela cp, para a cp. Foi sendo “adaptado” de maneira a minimizar os direitos do utente. Que faz a entidade reguladora? Zero.
COmunicação social, pega nisto? Basta relembrar o Verão passado, fazem um escarcéu enorme, e depois… cai no esquecimento.
Por último, o ano passado cancelaram o 1º Alfa Sul-Norte. Houve abaixo-assinados, petições, cartas à AR, a autarcas. Ligaram? Pois sim. Por curiosidade, de todos os deputados contactados (dos 5 grupos parlamentares), apenas um(a) respondeu. E até levou o assunto a uma Comissão parlamentar. Não que tenha servido de muito, mas ainda se deu a algum trabalho.
O Público ainda vai escrevendo sobre o assunto, mas é o único. E sim, as reclamações são só para se dizer que se fez alguma coisa, pois não vão servir para nada.
O “apoio” ao cliente da cp é em si uma paródia.
As reclamações via formulário caem no vazio. Ninguém tem acesso. Somente indo a Campanhã ou Sta Apolónia (vou arriscar também Oriente), para que o chefe da gare telefone (dentro do horário de expediente, claro) para a central.
E a minha experiência recente é no Longo curso da linha do norte, a tal que “dá lucro”, e que é a menina dos olhos da cp. E o serviço é o que é.
PS: carruagens de substituição não há. Avaria o Alfa, ou espera pelo seguinte, ou faz parte do percurso em Urbanos, ou (já me aconteceu) num IC. Perguntei se teria direito a qualquer tipo de reembolso, visto que pagara por um Alfa, lugar marcado, com “condições” de Alfa, e acabei num ic, a sentar onde havia lugar, sem wifi (não que no alfa o haja, mas pronto), sem bar, com bancos piores. Encolheram os ombros… só faltou dizerem (mentira, disseram) que sorte tinha eu em haver comboio.
Vou descobrir isso daqui a pouco. Eu e muitos outros ontem nem fomos “despromovido” de banco de Intercidades para banco de regional; foi mesmo de banco de Intercidades para chão do regional. E vá lá não ter aparecido um revisor armado em parvo a implicar, como vi uma vez entre Entrecampos e o Pinhal Novo quando um Alfa teve um atraso de horas.
É uma pena que para estas coisas seja difícil chamar a TVI ou a CMTV. Uma crónica de viagem em directo era capaz de ser giro.
O João Campos tirou fotos? Se sim, publique. Não é só as gentes serem prejudicadas, há artigos – li um ontem – a dizer que está tudo bem. Ou que Passos Coelho e a troika venderam ou tentaram vender ao desbarato “tudo o que dá lucro”, nomeadamente a TAP, RTP, CGD, Metro, e CP. Incrível.
Cabe a todos, a todos mesmo, desconstruír essa narrativa, por todos os meios. Não, não dão lucro, e não, não está tudo bem. Só se estiver bom para os políticos, porque o povo, seja de que partido for ou em que partido vote, está a ser tratado abaixo de cão.
Tirei algumas, mas não para publicar; não pedi a ninguém que o autorizasse, e não iria gostar de me ver sabe-se lá onde.
Isto está uma maravilha para uns quantos, mais os respectivos sabujos de turno. O resto do país que se lixe.
Não é só em Sete Rios que as reclamações são escritas nessas condições.
Eu sei que não. Mas concordará que recorrente não é sinónimo de correcto.