Robert Strange McNamara deixou este mundo no passado dia 6 de Julho de 2009, com 93 anos. A história da sua vida confunde-se com alguns dos períodos mais conturbados da história mundial do século passado. Em 2003, através do brilhante documentário de Errol Morris, Sob a Névoa da Guerra: Onze Lições da Vida de Robert S. McNamara, parte desses momentos e algumas das lições, segundo McNamara, que dai podemos retirar ficaram registadas para a posteridade.
É um homem com o peso da culpa sobre os ombros aquele que nos é apresentado, sem que este, contudo, alguma vez manifeste essa mesma culpa ou aceite sequer discuti-la. No documentário, este refere a primeira recordação de que tem memória, a celebração em terras norte-americanas da vitória na primeira guerra mundial, lembrando como as ruas se encheram de gente, no dia em que a felicidade triunfou sobre o medo da pandemia que então também afectava o mundo, onde as pessoas saíram para a rua sem qualquer máscara de protecção como que a festejar o fim de uma peste maior. McNamara recorda Woodrow Wilson e a sua ingenuidade quando afirmou a propósito dessa guerra que "ganhámos a guerra que terminou com todas as guerras". Mal sabia Wilson como estava errado e como a não concretização desse sonho atormentaria McNamara nos anos vindouros.
Mas voltemos ao inicio: quem foi afinal Robert McNamara? O seu percurso inicial é o de um homem brilhante, inteligente, cuja educação formal culminou com a obtenção de um MBA na prestigiada universidade de Harvard. Pela sua formação académica, quando os Estados Unidos entraram na segunda guerra mundial, McNamara foi alocado ao departamento de controlo estatístico das forças aéreas norte-americanas. Depois disso foi integrado, através de um programa que visava atrair jovens brilhantes, nos quadros da Ford (curiosamente, uma empresa que estava desde 1926 à beira de falir). Nesta conseguiu ascender à posição de presidente, o primeiro a atingir tal feito não pertencendo à família Ford. Esteve pouco tempo no cargo, uma vez que John F. Kennedy ganhara a presidência dos Estados Unidos da América e, com o objectivo de criar uma equipa com os mais capazes e independentes membros da sociedade civil, convenceu McNamara a aceitar o cargo de Secretário de Estado da Defesa. É por este cargo e o que fez durante o seu mandato que McNamara será para sempre recordado, mas antes do acontecimento que representa a sua principal marca na história, recuemos um pouco.
O documentário é dividido por vários momentos. Desses, destaco três:
O primeiro é sobre a crise dos mísseis de Cuba, situação que McNamara viveu por dentro. Nesta recorda como foi ‘Tommy’ Thompson, antigo embaixador norte-americano em Moscovo, quem contrariou o presidente norte-americano sobre a resposta a dar aos russos face ao incidente. Kennedy manifestava muitas dúvidas que pela via da negociação os americanos conseguissem levar os russos a retirar os misseis de Cuba, mas Thompson, colocando-se no papel de Krutchev, um homem que conhecia bem, contrariou o presidente e previu que bastaria apresentar uma hipótese de salvar a face ao líder comunista que este recuaria. Thompson estava certo. E sobre isto McNamara retira a lição da necessidade de sentir empatia com o inimigo. A capacidade de olhar para os acontecimentos através do ponto de vista do outro lado. Coisa que mais tarde admite não ter sido possível sentir para com os vietnamitas. A situação é também aproveitada para retirar outra lição: a racionalidade não nos salvará. A explicação é simples, McNamara remete sobretudo para a sorte o evitar de uma guerra nuclear na situação dos misseis de Cuba. E imaginar que pessoas completamente racionais estiveram em rota de desencadear uma situação explosiva desse género não é lá muito animador. A propósito, McNamara também recorda a reacção do general Curtis LeMay quando Kennedy deu o evitar da guerra como uma vitória, LeMay terá reagido com "Ganhámos? Porra, nós perdemos. Temos de os arrasar hoje.". Era a loucura dos tempos da guerra fria.
No segundo episódio recuamos à segunda guerra mundial, a tal que não deveria existir pela tese de Wilson, e regressamos também à figura que foi Curtis LeMay. O episódio é o bombardeamento com bombas incendiárias de Tóquio, em 10 de Março de 1945, que vitimou cerca de 100 mil japoneses, ordenado por LeMay (que mais tarde viria a autorizar também o uso das bombas atómicas) e segundado por relatórios de eficiência elaborados por McNamara. "Se tivéssemos perdido, seríamos julgados como criminosos de guerra", afirmou LeMay na altura e McNamara não só aceita a tese como incluí-se no grupo de "criminosos de guerra". É a moralidade vista pelos olhos dos que perdem e dos que ganham que surge aqui. Antes disso, já McNamara havia enunciado uma das suas outras lições: A proporcionalidade deve ser regra numa guerra. O exemplo surge com Tóquio: justifica-se a destruição de 51% de uma cidade ou a utilização de bombas atómicas para vencer uma guerra? A resposta que fica no ar é que não. Mas McNamara de certa forma desresponsabiliza os intervenientes dos acontecimentos naquela altura, em parte porque foi a primeira guerra da história onde um tal nível de desproporcionalidade foi possível. Ele culpabiliza é todos os que se seguiram por não terem aprendido com esse suposto erro. Nos culpados, como é óbvio, estará ele próprio. E é ai que entra aquela que chegou a ser conhecida como a Guerra de McNamara.
O terceiro episódio é, portanto, a incontornável guerra do Vietname. Há uma coisa que fica clara das conversas que surgem entre Lyndon Johnson e Robert McNamara a propósito do escalar da guerra: Johnson a certa altura irritou-se com a situação de instabilidade na zona. A McNamara exigiu uma resolução do problema e este, sob pressão, fez o que sabia melhor: agiu. Como Daniel Finkelstein aqui tão bem interpreta, "homens de acção querem agir. São pagos para agir, chegam ao governo para agir. Desde a primeira visita ao Vietname, McNamara podia ter aprendido – se assim pretendesse – o quão difícil as coisas seriam. Mas era um homem tipo executivo e não estava para dizer ao patrão que não conseguia realizar o trabalho. Então, a dúvida foi excluída. E os factos alterados para sustentar a teoria." E a acção foi afundar os Estados Unidos numa guerra como que perdida logo de início. Mais do que isso, McNamara viu o próprio filho nas manifestações anti-guerra. Uma guerra que levou à auto-imolação de Norman Morrison frente ao gabinete de McNamara, no Pentágono, em protesto. A propósito deste último caso, a mulher de Morrison emitiu um comunicado a exigir que os homens deixassem de matar outros homens. McNamara recorda o acontecimento no documentário e questiona: "Quanto mal temos de praticar como forma de promover o bem? Temos certos ideais, certas responsabilidades. Mas existem momentos em que temos de recorrer ao mal, minimizando-o". Nota-se que é a reflexão sentida de um homem que tem em Norman Morrison um dos seus piores fantasmas. Estes acontecimentos afectaram o então secretário da defesa norte-americano. Tanto afectaram que, no dia em que recebeu a Medalha da Liberdade, a propósito do abandono do cargo, em 29 de Fevereiro de 1968, sete anos após ter começado a exercer funções, McNamara não conseguiu pronunciar mais do que uma frase com sentido. O próprio refere, no documentário, que em conversa com uma amiga havia reconhecido que não sabia se "tinha-se demitido ou havia sido demitido". Saiu derrotado e convencido que a guerra estaria perdida. Apesar disso, nunca, em momento algum, manifestou essa convicção em público nos anos seguintes em que a guerra ainda perdurou. De certa forma, e terminando com Finkelstein, já aqui citado, "A última lição é que os homens não se tornam prisioneiros só dos seus aliados. São também prisioneiros dos seus erros. No livro de Halberstam sobre o Vietname este é apresentado como a tragédia dos melhores e dos mais brilhantes. Estes nunca declararam guerra, apenas seguiram de acto em acto, enquanto a lógica sobrepunha-se ao senso comum. Enviar conselheiros, proteger conselheiros, o ataque é a melhor forma de defesa, usar bombas para atacar, ter tropas em terra para dar apoio aos ataques aéreos. Mais fundo e fundo eles cavaram".


Excelente ensaio, Jorge. Cada vez tenho mais vontade de ver este documentário, que na altura me escapou. Entre as frases muito relevantes que citas, destaco esta, do ex-presidente Woodrow Wilson: “Ganhámos a guerra que terminou com todas as guerras”.
Como se viu, e como se vê, é sempre um erro pensar assim…
O documentário é muito bom, Pedro. Recomendo.