Marguerite tem um cabelo que nos remete imediatamente para o título do filme: hirsuto e pintado de vermelho, mais daninho não podia ser. A sua voz é firme, embora um pouco ansiosa, talvez porque vive sozinha e já não é jovem. É isto que sabemos dela quando na rua lhe roubam a mala por esticão, um acidente que a levará a conhecer Georges Palet (André Dussollier), um sexagenário casado há trinta anos e que explode de raiva e de desejo sempre que se cruza com mulheres que o atraem. Tamanha misoginia leva-o até a reflectir sobre crimes praticados no passado que não chegamos a saber se são fantasias ou factos reais.
Sublime nesta composição, Dussollier induz-nos a pensar, por reflexo, que a polícia nos adverte sempre de que em regra os serial killers parecem pessoas absolutamente normais. Ou seja, por interposto Dussolier, o realizador leva-nos a percepcionar os comportamentos mais bizarros das personagens desta história como possíveis. Se não banais, pelo menos possíveis.
Alain Resnais diverte-se à nossa custa com este estranho par que rejeitamos, mas cuja loucura entendemos bem demais. Sem juízos morais, mas com um sentido de humor notável, tal como no seu anterior filme Corações (Coeurs) de 2006, ele revela em Ervas Daninhas (2008) a loucura da normalidade, o jogo claro escuro entre as convenções sociais e os desejos. Um conflito velho como a Bíblia, mas que em tempos de individualismo exacerbado nos consome, transformando-nos em ervas daninhas de nós próprios. Dramático? Certainement, mais… Resnais obviamente não cai em lugares comuns e deste drama potencial faz uma espécie de comédia de costumes com molho agridoce.
Anne Consigny, que desempenha neste filme o papel de Suzanne Palet, mulher de Georges Palet, afirmou em entrevista recente que os filmes de Resnais “são sempre sobre violência, mesmo que neles não se encontrem cenas de violência“. A sua personagem, uma mulher que aceita a agressividade sempre latente do marido, com um passado possivelmente obscuro, e as suas constantes infidelidades com abnegação é um bom exemplo dessa agressividade subliminar de que a actriz fala. Apesar de dócil, nem por isso é menos agressiva do que a mulher de cabelos desvairados que o marido passa a desejar de forma obsessiva. Suzanne, só mais normal que os outros dois na aparência, dorme sozinha em posição fetal e é gentil para as amantes do marido. A sua excentricidade é a autofagia. Tudo porque tem medo de viver – ao contrário dos protagonistas, que têm medo de não viver.
Do alto dos seus 87 anos, Resnais só pode rir-se do desnorte da humanidade com a gestão do tempo. No fundo é o que faz neste filme, com uma espantosa frescura, não se esquecendo de deixar bem claro que nós, pacatos frequentadores de salas de cinema, também não somos o que parecemos. Ele sabe. E nós, no escurinho da sala, ficamos a saber que ele sabe.
Há várias semanas em sala, já não deve demorar em cartaz. Não é o melhor de Resnais, mas é um bom Resnais. Não o percam.
Na foto: Sabine Azéma, em Ervas Daninhas (2008), filme que concorreu à Palma de Ouro de Cannes/ 2009 e foi pretexto para a atribuição de um prémio especial de carreira a Alain Resnais.


Podemos nem ver os filmes, mas os teus textos não podemos perder.
nem mais John …bem dito.
Esta rapariga tem um dom.
CR, o Resnais é que tem o dom de nos inpirar.
Exagero teu 🙂
Finalmente, um filme para ver no cinema. Nem dei por ele, e gosto tanto dos filmes do Resnais.
Apresentado por ti neste texto excelente, seria imperdoável não correr para o cinema. Já agora… onde?
Obrigada, Ana. Está no Monumental e apressa-te porque deve estar quase, quase a sair do cartaz.
Vou tentar ir amanhã. Obrigada.
Já estiva à procura, e não consegui descobrir em que sala está…, se pode perder um Resnais.
… não se pode perder um Resnais.
(estou uma trapalhona)
Já o Sexo e a Cidade II (vi o primeiro e fiquei esclarecida) até tem cartazes de promoção a forrar prédios inteiros. Critérios…
Obrigada Teresa. Já percebi porque não encontrei, fiz a busca por “Ervas” e o título é “As Ervas “.. a ver se ainda consigo ir a tempo de ver. Tem razão o sexo e a cidade está por todo lado, eu nem sequer fui ver o primeiro. A série da TV nunca captou muito o meu interesse, vi meia duzia de episódios, uns mais interessantes que outros, e fiquei esclarecida.
:)))
Pois é, Ariel. Vou já emendar. Sou tão distraída, ai,ai…
Gostei muito desta análise ao filme, Teresa. Lamento (ainda) não ter visto ‘Ervas Daninhas’. Mas o anterior filme do Resnais, ‘Corações’, era excelente. Há mais de meio século que roda longas-metragens: começou logo com uma obra-prima: ‘Hiroxima, meu amor’ (1959).
Adoro o Hiroxima e gostei mais do Corações do que deste. Mas Ervas Daninhas está bem à altura deste senhor que não envelhece.
Gostei muito do seu comentário, e pelo que dele deduzo o filme vale a pena concerteza.
É uma boa escolha, Sílvia, pode crer.
até percebi a intenção, penso eu, mas não gostei nada.