As duas Espanhas


Pedro Correia,

 

«Nos duele esta España eterna.»

Pedro G. Cuartango

 

No 76º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha, hoje assinalado, é patente que as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939. Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 15 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras quase mitológicas, como La Pasionaria e o poeta Rafael Albertí, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

 

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha “enterrado os seus mortos e os rancores”, decidindo “apagar o passado de uma vez para sempre”. Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

 

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938, pelo presidente espanhol Manuel Azaña. A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas, e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos. Azaña proferiu então as palavras que se impunham – mas que ninguém parece ter escutado durante décadas:

“Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: esses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já sem sentirem ódio nem alimentarem rancor, enviam-nos com o fulgor da sua luz, tranquila e remota como a de uma estrela, a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.”

 

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta. Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

7 comentários em “As duas Espanhas”

  1. A história não se repete mas há constantes. E são essas constantes que o ensino da história, o seu conhecimento, nos transmite. Esta nova teoria, de menosprezar os cursos de humanidades, por falta de empregabilidade, leva-nos ao desconhecido. Damos passos, decisões, sem conhecermos o passado, quando na sua maioria as respostas estão todas lá. Deixámos de ler e ouvir os pensadores e filósofos, de ler livros de história. Agora as “estrelas” são os técnicos, os economistas, financeiros e especialistas em mercados. Vêem o mundo em excel, nunca escreveram uma carta, um texto reflexivo. Todos os que ousam ir mais além que a crueza dos números são apelidados de liricos, ou alienados. A realidade que hoje nos servem é apenas a realidade do lucro, lucro só por si, sem regras, nem limites. Usam a solidariedade apenas e só como caridade, e para esta última, como dizia Saramago, é uma chatice se a pobreza acaba. Andamos a brincar com o fogo, vivemos uma era de grandes mudanças na Europa. Que estes técnicos que agora nos governam se lembrem desta guerra civil espanhola e da guerra que lhe sucedeu.

  2. Muito bem lembrado, numa altura complicada.
    A Espanha tem o problema adicional dos nacionalismos, e as duas Espanhas definem-se também nesses combates.
    As potências, Inglaterra e França, acharam que “não eram a Espanha”… fizeram mesmo a real-politik de não hostilizar Franco, e logo de seguida viram-se puxadas para um conflito tão ou mais atroz.
    É complicado ver documentários em que a justificação de execução se resumia a quatro letras: “rojo”… e quando a racionalidade se reduz a isso, mostra bem como a desumanização pode ser facilmente induzida.
    Talvez tenha sido o confronto de onde nos chega a informação mais brutal, por não ter havido o devido crivo censório que deixa imaculados os vencedores.

    É melhor ver as duas Espanhas nos confrontos entre Real Madrid e Barcelona, mas de facto a história de Espanha foi repetidamente demasiado violenta para esquecer que há forças em confronto que não desapareceram. Nem sempre são internas, porque as forças externas gostam muito de instigar confrontos em solo alheio…

    1. Você continua com os posts infames , depois de o de Orwell.

      “A Espanha tem o problema adicional dos nacionalismos”

      Porque é que é problema?

      “A Europa tem o problema adicional dos nacionalismos”

      Que tal para comparação.

      Mais:

      “O Mundo tem o problema adicional dos nacionalismos”

      É óbvio como você é a igualitário – um creacionista em potência – não quer a diferença. Não quer nações.
      A diferença.
      Por isso precisa de uma língua única. É sempre mais fácil manipular.

      1. Lucky… fica zangado se disser que concordo consigo?
        Os nacionalismos são um problema para o centralismo que o governo espanhol quer impor para controlar a despesa…
        A menos que leia ao contrário, eu nunca me pronunciei a favor de nenhuma óptica centralizadora ou uniformizadora.
        Tem que me explicar a infâmia…

  3. Surpreendeu-me não ter referido a criminosa lei de memória histórica do , e as palavras são de Pérez – Reverte, “imbecil y malvado ” bambi/zapatero.
    Quanto à Guerra Civil , atrevo-me a mencionar dois nomes : Pio Moa e Stanley Payne.
    E levo mais longe o atrevimento, tomando a liberdade de sugerir duas leituras : ” Los mitos de la Guerra Civil “, de Moa, e ” Por que la República perdió la guerra” , de Payne ( tradução espanhola).
    Aviso desde já põem totalmente em causa a versão / ficção do komintern que sobreviveu até aos nossos dias…

    1. Sobre a guerra civil de Espanha já li muita coisa. Desde os clássicos – Hugh Thomas, Gabriel Jackson – até ao ‘revisionista’ Cesar Vidal, passando pelo Paul Preston. Li e leio gente de todas as tendências. Nem seria possível chegarmos a conclusões sérias de outra maneira.
      Quanto à lei da memória histórica, está subjacente a minha perspectiva crítica neste texto. Defendo a posição sábia assumida pelas diferentes forças políticas na exemplar transição espanhola de 1976-78.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *