As duas Espanhas


Pedro Correia,

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«Nos duele esta España eterna.»

Pedro G. Cuartango

 

No 80.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha, hoje assinalado, é patente que as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939. Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 15 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Manuel Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras quase mitológicas, como La Pasionaria e o poeta Rafael Alberti, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

 

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha “enterrado os seus mortos e os rancores”, decidindo “apagar o passado de uma vez para sempre”. Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

 

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938, pelo presidente espanhol Manuel Azaña. A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas, e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos. Azaña proferiu então as palavras que se impunham – mas que ninguém parece ter escutado durante décadas:

“Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: esses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já sem sentirem ódio nem alimentarem rancor, enviam-nos com o fulgor da sua luz, tranquila e remota como a de uma estrela, a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.”

 

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta. Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

0 comentários em “As duas Espanhas”

  1. as duas Espanhas

    Na verdade não eram duas mas, pelo menos, quatro. No campo republicano havia (pelo menos) três: os republicanos “clássicos”, não revolucionários, de que Azaña era um expoente, os comunistas, e os anarquistas. Três Espanhas muito diferentes e com projetos antagónicos.

    1. No campo republicano as divisões eram imensas. Havia os socialistas (divididos entre os moderados, de Julio Besteiro, e os ultra-radicais, de Largo Caballero, o “Lenine espanhol”), os anarquistas (com força sobretudo na Catalunha e muito influentes no movimento sindical), os comunistas (que só valiam 3% em 1936 e eram uma pequena força muito disciplinada e “ordeira”) e os liberais centristas, como Martinez Barrio.
      De tudo isto resultou uma amálgama difícil de gerir. E resultou até uma guerra civil dentro da guerra civil, na Catalunha, com os comunistas a esmagarem o pequeno partido trotsquista POUM e a imporem-se depois aos anarquistas. E também conflitos sérios entre os separatistas catalães e o poder central em Madrid.

  2. “É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas.”
    Ou das três, ou quatro, ou cinco… não interessa.
    O que interessa mesmo é o sublinhado do texto.
    Grande M. Azaña!
    Hoje, devíamos acrescentar:
    – É criminoso fomentar o mito dos dois, três… mundos.
    João de Brito

    1. Azaña, figura trágica num tempo em que as luzes se apagavam e as trevas alastravam na Europa.
      Esse discurso, quase um testamento político, é notável a vários títulos. E um dos marcos da oratória política do século XX.
      Merece ser conhecido e divulgado.

  3. Tanto Fernando Ónega como Ignacio Camacho, que dispensam apresentações, coincidem em que ” o ponto comum na política espanhola é o ódio”.
    E apesar de Julho de 36 ser apontado oficialmente como o início do “baile assassino”, convirá ler “1934 : Comienza la Guerra Civil. El PSOE y la Esquerra emprenden la contienda”, de Pio Moa.

    Como “brinde” temos o prólogo por Stanley Payne.

    1. Ignacio Camacho é um dos melhores colunistas espanhóis, os textos deles são uma leitura que não dispenso.
      Ónega escreveu uma biografia de Adolfo Suárez que já tive oportunidade de recomendar aqui:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/outra-vez-a-feira-6383568
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/leituras-6651417

      Eles, tal como Cuartango no excelente texto que menciono na epígrafe, tocam no ponto certo: existe – por suposta fatalidade genética – uma atmosfera “guerracivilista” em Espanha, muito potenciada e ampliada nestes últimos anos com as chamadas redes sociais. Esta atmosfera transforma cada adversário num inimigo e vê em cada argumento contrário uma declaração de guerra. A propósito seja do que for. As vozes moderadas – como foram as de Ortega, Marañón ou Madariaga durante a guerra civil – são varridas para um canto. Ninguém as ouve.
      Esta cultura política é avessa ao espírito de pactos, de consensos. Não por acaso, desde a implantação da democracia, com a Constituição de 1978, nunca houve um governo de coligação em Espanha.

      1. Faltou-me agradecer-lhe a sugestão de leitura final. Não conheço essa obra, passou a integrar a minha lista de prioridades. A guerra civil de Espanha é um tema inesgotável – e que desde sempre me fascinou.

        1. A guerra civil de Espanha é um tema inesgotável – e que desde sempre me fascinou.

          Permito-me discordar.

          A guerra civil não teve grande interesse. Desde o seu início que a República estava condenada. A República perdeu todas as batalhas (menos uma, salvo erro em Teruel) da guerra civil e perdeu constantemente território. Sujeita a um embargo à venda de armas exceto pela URSS, a guerra civil foi um longo e desinteressante estertor.

          Muitíssimo interessante, isso sim, foi a resistência ao golpe de Estado, em julho e agosto de 1936, a formação de comunas operárias e camponeses na Catalunha e na Andaluzia, e o massacre dos anarquistas pelos comunistas. Isso sim, são temas muito interessantes.

          Mas todo o interesse acabou em maio de 1937. A partir daí, já nada havia para ver.

          1. Quando me refiro a guerra civil, refiro-me a todo o período “guerracivilista” – de âmbito mais vasto do que aquele em que duraram as operações militares. Incluo também o período 1931-36, em que a guerra civil esteve quase sempre latente – e quase eclodiu em 1934, com o levantamento das Astúrias e o seu esmagamento.
            Tudo isto sem esquecer que esta guerra tão sangrenta e dilacerante foi um prelúdio da II Guerra Mundial. Que começou exactamente cinco meses após o último telegrama de Franco declarando o fim das operações militares em Espanha.

  4. Bom post, Pedro. Bem lembrada – e melhor analisada – a data. Curiosidade: a ‘paga extra’ (o subsídio de férias) foi instituído pelo regime franquista neste dia 18 como forma de animar as massas para a celebração. Mudam os tempos, mudam os regimes, mudam os instrumentos, mas a lógica parece ser sempre a mesma.

    1. Uma data trágica, Diogo. Que convém ser lembrada enquanto o clima “guerracivilista” persistir em Espanha. “Cainista”, como aí dizem, em alusão a Caim, o primeiro homicida da história.
      A transição de 1976-78 contrariou em toda a linha o ancestral “cainismo” espanhol. Lamentavelmente, uns quantos irresponsáveis parecem apostados em enterrar o espírito da transição e reviver as velhas trincheiras, que já deviam estar sepultadas nos livros de história.

  5. Entendo e acompanho a pertinência de colocar este tema, quando na Turquia se voltam a ver brechas abertas.

    Porém, há uma ideia persistente de que Portugal ou Espanha não se livrariam de guerras civis caso não tivessem entrado na CEE, ou se saísem da UE.
    Se a Espanha tem um problema latente de nacionalidades abafadas (País Basco, Catalunha), tal não se verifica minimamente com Portugal.

    Ainda que a divisão política espanhola nos anos 30 tenha coincidido também com uma divisão de nacionalidades, parece-me errado estar sempre a acenar com fantasmas que tiveram o seu próprio contexto.
    E não é errado pela lembrança, porque há coisas que não devemos esquecer, é errado quando se quer cristalizar o futuro com base numa única interpretação do passado, extrapolando-a simplificadamente para os dias de hoje, ajustada a uma certa agenda política.

    Convém não esquecer que o processo de independência da Irlanda não foi nenhum passeio no parque… houve muita matança, mais esquecida.
    Mas ninguém contestará hoje que a Irlanda tem um espaço próprio na Europa, que é diferente do espaço do Reino Unido.

    1. Faz hoje 80 anos teve início a mais sangrenta guerra civil do século XX. Aqui mesmo ao lado.
      É motivo mais do que suficiente para justificar invocação. E para combater desmemórias. Vivemos num tempo em que tudo passa e nada fica, em que predomina o culto da irrelevância.
      E, sim, o alerta para graves erros do passado serve – ou deve servir – para evitar que sejam repetidos num futuro próximo.

  6. A memória , que deveria ser histórica, parece, pura e simplesmente não existir : o termo Kosovo diz (-nos) / prenuncia alguma coisa ?…

    1. Sem memória, cometeremos sempre os mesmos erros. E as tragédias passadas tornam-se tragédias presentes, contaminando o futuro. Por isso nunca é de mais recordar o que se passou. Sobretudo tratando-se de uma realidade tão próxima da nossa, e que também tanto nos marcou, como foi o caso.

  7. Discursos à parte, Manuel Azaña teve as suas responsabilidades no desembocar da guerra; quando já se ateava fogo a igrejas, e lhe pediam que impusesse a sua ordem, respondia que não iria pôr em risco a vida de de nenhum republicano por causa de uma igreja, como se a ordem pública não fosse exactamente uma prerrogativa do estado.

    Hoje em dia a sociedade espanhola não está tão dividida como em 1936, salvo nos nacionalismos catalão e basco (o galego é mais uma teimosia de sectores esquerdistas minoritários), já que se pode ser autonomista, católico, democrata e monárquico, como exemplo de várias combinações possíveis, ao mesmo tempo. À esquerda, o PCE e sobretudo o PSOE são muito diferentes do que eram na altura, as formações republicanas azañistas são irrelevantes, os anarquistas também definharam (a sede da CNT/FAI em Barcelona é quase imperceptível), o POUM é uma memória; à direita, a Falange não é mais que meia dúzia de saudosistas (e todos os partidos neofranquistas são um fracasso), os carlistas, ainda mais minoritários, dividiram-se numa pequena facção de esquerda e noutra de direita, e monárquicos há-os em toda a parte; curiosamente, talvez seja o PP o mais parecido com um dos grandes partidos da época, a CEDA, de Gil Robles (que mais tarde rompeu com o franquismo, e cujo filho, o espanhol que melhor português vi falar, pertence ao PP e chegou a presidente do Parlamento europeu), embora num contexto muito menos tenso. Aparentemente, o Podemos é a formação com mais saudades da república, mesmo sabendo ao que isso levou.

    Mas não havendo duas Espanhas, nem sequer as pulsões suicidárias de 1936, permanece uma divisão forte na sociedade, ainda que mais mitigada e empolada por mentes mais radicais, e claro, alimentada pelo clima de corrupção na política e pela crise económico/bancária. Mas aí a culpa caberá também ao todo, e não apenas a facções.

    1. Boa análise, João Pedro. Não nego, claro, as pesadas responsabilidades de Azaña enquanto chefe do Governo no descalabro da situação espanhola daquela terrível década de 30 em que todos pareciam gritar “quanto pior melhor”.
      Anoto no entanto o acto de contrição contido naquele seu notável discurso de 1938, já enquanto chefe do que restava do Estado na Espanha republicana. Um discurso em que era óbvia a confissão implícita dos erros cometidos também na facção em que ele se integrava.
      Seria bom que todos os políticos espanhóis contemporâneos o lessem de quando em vez. Receio no entanto que grande parte deles nem sequer tenha ouvido falar alguma vez nele.

    1. Quem semeia ventos colhe tempestades. Nunca um adágio popular se aplicou tanto a uma situação política como nesses meses – ou anos – que antecederam a guerra civil espanhola. O problema dos espanhóis é continuarem a semear ventos.

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