MRS. ROBINSON (A Primeira Noite, 1967)
And here’s to you, Mrs. Robinson,
Jesus loves you more than you will know (Wo, wo, wo…)
God bless you please, Mrs. Robinson,
Heaven holds a place for those who pray
(Hey, hey, hey… hey, hey, hey…)
Certos filmes devem ser vistos na idade própria. Porque têm um limite de validade relativamente curto: se deixamos passar o prazo, aquela obra engana-se no destinatário. E pouco ou nada nos diz.
Eu tive a sorte de ver A Primeira Noite (The Graduate, no original, baseado no romance homónimo de Charles Webb publicado em 1963) no momento propício – quando era adolescente, lá para finais da década de 70, uma década após a estreia. Era pouco mais novo do que Benjamin Braddock, personagem principal desta longa-metragem, interpretada por um Dustin Hoffman quase trintão mas ainda com cara de miúdo.
E sonhava – como julgo que a grande maioria dos adolescentes sempre sonha – conhecer uma Mrs. Robinson. Madura, sábia, elegante e sensual.
Fantasias de jovem macho em fase de crescimento e afirmação. De algum modo semelhante ao que vi na grande tela, muito bem interpretado por Hoffman naquele que em 1967 foi o seu papel inicial como protagonista num percurso que o conduziu à galeria dos consagrados da Sétima Arte.
The Graduate simboliza uma época de transição no cinema e na própria sociedade norte-americana. Época de rupturas geracionais, de profundas alterações nos costumes, de afirmação de diferentes correntes estéticas.
Novos cineastas, novos intérpretes, novos temas, nova linguagem.
Nova música também.
De repente, tudo quanto ficara para trás parecia ter envelhecido sem remissão. O folk-rock emergia na Sétima Arte pela mão de Paul Simon, que o realizador d’ A Primeira Noite, Mike Nichols, desafiou a compor a banda sonora deste filme.
Desafio aceite. Aqui nasceram algumas canções que não tardariam a ser imortalizadas pelo duo Simon & Garfunkel: Sounds of Silence, Scarborough Fair e Mrs. Robinson.
A última conquistou Nichols logo à primeira audição, quando Simon apenas compusera a música e hesitava quanto à letra – a tal ponto que planeou chamar-lhe Mrs. Roosevelt, em nostálgica alusão a uma América que perdia as figuras de referência do passado.
A poderosa carga emocional do poema manteve-se na versão definitiva, mas o realizador convenceu Paul Simon a baptizar a canção com o nome de Mrs. Robinson, Afrodite mal-casada que seduz o efebo Benjamin, iniciando-o nos prazeres carnais. Sinal de viragem nos estúdios de Hollywood: o amor sem sexo dava lugar ao sexo sem amor.
“Would you like me to seduce you?”, perguntava ela ao balbuciante jovem. E nós, adolescentes à época, roídos de inveja daquele recém-graduado com um bacharelato na Universidade de Berkeley – centro da agitação estudantil nos EUA durante a segunda metade da tumultuosa década de 60.
Quem não gostaria de se queimar naquela brasa?
As aparências iludem: A Primeira Noite funciona como um jogo de enganos, ludibriando o espectador. Benjamin, segundo ele próprio declara no filme, acabou de completar 21 anos: Dustin Hoffman tinha 29 anos quando o filme foi rodado. Mrs Robinson admite sem rodeios ter “o dobro da idade” dele: mas a actriz Anne Bancroft, propositadamente envelhecida para o papel, acabara de completar 35 anos. E Elaine, a filha dela que Katharine Ross interpretou no filme, já festejara 27 primaveras na vida real – mais oito do que a da personagem, só menos oito do que a idade da suposta mãe.
Mike Nichols pensou inicialmente em Doris Day para Mrs. Robinson, mas ela recusou de imediato, alegando que não se despia no cinema. Jeanne Moreau – que protagonizaria daí a meses A Noiva Estava de Luto, de François Truffaut – chegou a ser uma forte hipótese. Teria sido uma excelente escolha, sem a menor dúvida. Mas a opção final recaiu em Bancroft, já galardoada com o Óscar de melhor actriz em 1962. E nenhum rapaz espigadote que tivesse visto o filme por ocasião da estreia (ou mais de dez anos depois, como foi o meu caso) negará mérito à escolha.
“Posso fazer-te uma pergunta pessoal?”, diz-lhe ela.
“Pergunte o que quiser”, responde ele, visivelmente embaraçado.
“É a tua primeira vez?”
Não há segundas oportunidades para uma primeira impressão. No cinema como na vida.
Certos filmes apenas devem ser vistos uma vez. E, se nos tocaram profundamente, só ganhamos em preservar intacta essa memória. Para evitarmos desilusões.
Aconteceu-me com The Graduate, que revi vários anos depois: achei que envelhecera mal e perdera em definitivo a frescura que antes me deslumbrara.
O problema, provavelmente, não era do filme: era meu. Mudei muito entre as duas ocasiões.
E não há noite como a primeira.
Mas temos ainda entre nós Paul Simon e Art Garkunfel, ambos com 73 anos. E teremos sempre o disco deles, com a banda sonora do filme, que vendeu mais cópias em 1968 do que o álbum branco dos Beatles.
Teremos sempre Mrs. Robinson – não a personagem datada do filme de Mike Nichols mas a canção que permaneceu no top americano durante três semanas no Verão de 1968 e foi o primeiro tema de folk-rock galardoado com um Grammy para melhor canção do ano.
Teremos sempre estes versos únicos que transcenderam a sua época e chegaram até nós valorizados pela passagem do tempo, ecoando como um poderoso hino que ultrapassa fronteiras etárias ou geracionais: “Where have you gone, Joe DiMaggio? / A nation turns its lonely eyes to you.”

![the-graduate-movie-poster-1020428277[1].jpg the-graduate-movie-poster-1020428277[1].jpg](http://2.fotos.web.sapo.io/i/B4406f614/18705660_VsMcT.jpeg)
Que tipo de filmes diria que só são supostos ser vistos uma única vez, Pedro?
Deixo um exemplo neste mesmo texto. Eis outro: os clássicos da Disney só ganham em ser vistos na infância. Poderemos valorizá-los também na idade adulta, mas não é a mesma coisa.
Qual é a sua opinião acerca de Gregory Peck em Na Sombra e No Silêncio, Pedro?
Não tem nada a ver com este filme. Mas é um desempenho correcto, no papel de Atticus Finch, o advogado criado por Harper Lee (alegadamente com base no pai da escritora). Ganhou Óscar de melhor actor em 1962, mas no mesmo ano esse galardão teria sido bem mais merecido nas mãos de Peter O’Toole, pelo seu inesquecível desempenho em ‘Lawrence da Arábia’.
Vi este filme no cinema e não fiquei com boas recordações: achei um horror aquela mãe ‘roubar’ o namorado à filha. Não gostei nada da Bancroft, a Moreau teria sido uma melhor escolha (Pedro, o filme do Truffaut é ‘La Mariée était en Noir’, um filme fabuloso).
Adorei a música dos Simon & Garfunkel (ainda adoro) e o concerto do Central Park é uma das melhores recordações da minha juventude.
Revi o filme em dvd há 2 ou 3 anos e a opinião mantém-se, com a agravante de ter achado o Dustin Hoffman muito velho para aquele papel.
Um filme de ‘iniciação de um jovem’ que eu sempre adorei (e vi-o imensas vezes) é o “Summer of ’42” do Robert Mulligan.
🙂 Antonieta
A sua perspectiva confirma a nossa subjectividade enquanto espectadores, Antonieta. O seu olhar só podia ser diferente (direi mais: oposto) do meu. Mas comigo só funcionou mesmo naquela época. A música de Paul Simon é que não passa de moda. O ‘Concerto em Central Park’ é também um dos discos da minha vida.
Obrigado pelo reparo ao título do filme de Truffaut: obviamente era a noiva que vestia de luto. Viúva de negro não é notícia.
Pedro, queria ter dito mais umas coisas mas a net está péssima, sempre a cair.
Já ontem não consegui, é desesperante estar aqui a escrevinhar e ver desaparecer tudo.
🙁 Antonieta
Isso é que é pior, Antonieta. Parece quase o meu computador portátil, que está quase a dar o berro por excesso de uso. Já escrevi dois livros nele. E milhares de ‘posts’.
Pedro, bela série esta tua!
Obrigado, Helena. Vai continuar (já escolhi as próximas duas). Espero que gostes das que vão seguir-se.
A senhora Bancroft era extremamente bonita.
Era ‘sexy’, sem dúvida.
Apesar de Mike Nichols ter feito um bom trabalho neste filme, acho que eu teria dado o Óscar de Melhor Realizador a Arthur Penn em Bonnie e Clyde. Realizar Bonnie e Clyde foi um maior desafio. Nichols poderia ter ganho anteriormente em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? mas perdeu para o realizador de Um Homem Para A Eternidade.
‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’ é de facto uma obra-prima da década de 60. Ganhou vários Óscares mas merecia ter conquistado o de melhor realização. Por sinal foi o filme de estreia de Mike Nichols como realizador. Com desempenhos inesquecíveis do casal Elizabeth Taylor-Richard Burton.
Só não passará nesta série porque lhe falta a canção.
Mas na minha opinião, o Melhor Filme de 1966 foi O Bom, O Mau e O Vilão. Eu sei que discordará comigo em Melhor Actriz de 1944, Pedro. Sempre considerei a senhora Stanwyck melhor que a senhora Bergman. Eu daria 10 Óscares ao Pagos a Dobrar, de Billy Wilder. Achei que o desempenho de Stanwyck era superior a o de Bergman em Gaslight, apesar da Ingrid ter dado um bom desempenho.
Respeito a sua opinião, sem discordar. Permita-me concentrar no tema desta série, que é o da relação entre uma canção e um filme – e entre ambos e a recordação que deles conservamos. Dá pano para mangas. E por enquanto tenciono prossegui-la. Faz bem à memória. E espero que dê algum prazer aos leitores.
“Não há segundas oportunidades para uma primeira impressão”. Subscrevo. Passados anos, a nossa reacção é sempre diferente. É claro que somos nós que mudamos, mas ainda bem não é? 🙂
Fantástica banda sonora e … também eu tenho o “The Concert in Central Park” nos meus favoritos. E não é nostalgia, é música muito boa mesmo!
Muito boa a música, sim, Custódia. Ajudou a criar a fama do filme e é hoje o melhor que ‘A Primeira Noite’ tem para oferecer.
E, sim, ainda bem que vamos mudando. Seria estranho que o nosso olhar permanecesse imutável enquanto tudo se altera à nossa volta.
Este é um dos filmes da minha vida e uma das canções também.
Vi o filme em 76. Era diferente, inovador, mexia com tabus e mentalidades. Não se tratava de uma doce donzela seduzida por um galã de terceira idade.
Não nos é possível imaginar outra Mrs. Robinson. Garanto que sempre que Anne Bancroft for mencionada ( e que tem inúmeras e excelentes interpretações) a primeira coisa em que se pensa é naquela mulher nua numa cama com um atarantado tosco de boxers, madura ( ou amadurecida como parece ter sido o caso) e sexy qb para revolver as hormonas do pobre e inexperiente Ben, cujo coração apaixonado vibra por Elaine, a filha da sedutora amante.
Vou revendo, porque a experiência de apreciar um Tawny de 40 anos é sempre enriquecedora.
Da música, da excelente música com que este duo dinâmico nos brindou durante anos, com sons mágicos e letras fantásticas, esta canção dada a interpretações várias e que assenta na película como uma luva, é uma amostra de grandiosidade e um hino ao desencanto. Toca no final do Lobo de Wall Street…
Bom fim de semana a todos
“UIm hino ao desencanto”. Muito bem, Dulce.
Grande série, Pedro. Vi “TheGraduate” (detestei sempre o nome que deram ao filme em português) quando estreou em Lisboa, se bem me lembro, no São Jorge na primavera de 1969 ou 70.
Dou sempre muita atenção aos genéricos dos filmes, porque é aí que muitas vezes, ou quase sempre, passam as melhores musicas. As primeiras cenas do filme são de arrepiar, ao som do fabuloso “The Sounds of Silence”. E digo que são de arrepiar, porque revi o filme há dois dias num dos canais de tv, com o mesmo gosto de há 40 e tal anos.
A banda sonora do filme é de uma excelente qualidade e tem musicas editadas em três grandes albuns diferentes, “Sounds of Silence”, “Parsley, Sage, Rosemary and Thime” e de “Bookends” que é para mim o melhor album da dupla.
“Bookends” e “Mrs Robinson” foram considerados o melhor album e a melhor musica editados em Portugal no ano de 1968 pelo saudoso programa de rádio “Em Órbita”.
A titulo de curiosidade: vivo em Évora e uma certa noite, há uns 20 e tal anos, estava no bar da Pousada dos Lóios e vi uma pessoa que era igualzinha ao Art Garfunkel. Um olhar mais atento confirmou que era mesmo ele, que estava calmamente a tomar uma bebida no bar enquanto lia um livro. Ninguém o incomodou, e quando saíu passou por mim, e perante o meu ar talvez meio espantado, sorriu e educadamente fez um pequeno aceno de cabeça. Soube depois pelo empregado do bar que Art Garfunkel há vários anos que vinha passar uns dias em Évora, onde dava longos passeios pelo campo e conseguia passar incógnito.
Nesse ano um jornal especializado em musica descobriu que ele estava em Évora fez um artigo sobre o assunto e foi lá pedir-lhe uma entrevista, que ele concedeu.
Em resultado disso, acabaram-se as férias em Évora para o Art Garfunkel. A fama tem sempre um preço a pagar…
Obrigado pelas evocações em torno do filme e pela deliciosa história sobre o Art Garfunkel que aqui nos traz, Alexandre.
Partilho consigo a apreciação que faz sobre os álbuns de Simon & Garfunkel.
(E seja bem-vindo de volta às caixas de comentários do nosso blogue.)
Sempre gentil, Pedro. Tenho estado mais ou menos calado, mas todos os dias visito o Delito. Esta série tem sido deliciosa.
Muito obrigado, caro Alexandre. Espero que continue a ser do seu agrado.