IT HAD TO BE YOU (Um Amor Inevitável, 1989)
It had to be you, it had to be you
I’ve wandered around, finally found somebody who
Could make me be true
Could make me be blue
And even be glad just to be sad thinkin’ of you.
Há canções que permanecerão para sempre inseparáveis de certos filmes – como o amor de que nos fala o nome português dessa insuperável comédia romântica intitulada When Harry Met Sally, um dos melhores filmes norte-americanos da década de 80.
Acompanhei-a na estreia – muito longe de Portugal, muito longe dos Estados Unidos, mas com a idade adequada para me rever por inteiro nas linhas e entrelinhas dos labirínticos jogos de sedução entre uma mulher e um homem condenados a cair nos braços um do outro como se fosse uma verdade inscrita desde que o sol amanheceu pela primeira vez neste planeta.
Adorei cada minuto do filme realizado por Rob Reiner (que eu bem conhecia, desde a década de 70, como genro do irascível Archie Bunker na série Uma Família às Direitas), escrito por Nora Ephrom e com um par de intérpretes que pareciam ter nascido para desempenhar na perfeição aquela sucessão de encontros e desencontros: Billy Crystal (Harry Burns) e Meg Ryan (Sally Albright). Adorei aquela cena do restaurante em que Sally simula um estridente orgasmo perante um embaraçadíssimo Harry enquanto uma cliente já idosa (mãe do realizador, na vida real) pede sem sombra de pudor à empregada de mesa: “Quero [comer] o mesmo que ela!”
E gostei muito da música, claro. Um conjunto de standards extraídos do melhor património da música popular norte-americana – nenhum tão apropriado, pareceu-me logo, como It Had to Be You. Tema de 1924, composto por uma parceria de sucesso: Isham Jones (1894-1956), autor da música, e Gus Kahn (1886-1941), responsável pela letra. Jones – também chefe de uma jazz band com o seu nome que integrou Benny Goodman e Woody Herman em início de carreira – obteve um êxito instantâneo, nessa era do gramofone, ao gravar a versão instrumental do tema.
It Had to Be You tornou-se um hino romântico de sucessivas gerações. Em 1944 – já com 20 anos de existência – ascendeu ao top norte-americano de vendas discográficas e por lá permaneceu 12 semanas numa célebre versão interpretada por Dick Hymes e Helen Forrest, acompanhados pela orquestra de Victor Young.
“Some others I’ve seen / Might never be mean / Might never be cross / Or try to be boss / But they wouldn’t do.”
Há canções que nunca passam de moda. É o caso desta, que teve até hoje uma impressionante galeria de intérpretes: Frank Sinatra, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Anita O’ Day, Bing Crosby, Ray Charles, Petula Clark, Barbra Streisand, Andy Williams, Don McLean, Liza Minnelli e Rod Stewart. Sem esquecer Diane Keaton, que a canta – propositadamente mal – numa cena de Annie Hall.
Mas nenhuma versão me tocou tanto como a de Harry Connick Jr. para este filme, valorizado em larga medida pela fabulosa banda sonora que recria a era das big bands. Comprei logo à época o CD: a poucos da minha larga discoteca privada devo ter dado tanto uso de então para cá.
Connick conquistou um merecido Grammy pela sua participação vocal neste disco, que incluía outros temas clássicos, como Don’t Get Around Much Anymore (Duke Ellington-Bob Russell) e Let’s Call the Whole Thing Off (George Gershwin-Ira Gershwin). E teve aqui uma inquestionável rampa de lançamento. Entre os cultores de lugares-comuns, não faltou quem lhe chamasse “o novo Frank Sinatra”.
É precisamente a voz de Sinatra himself que escutamos na cena final do filme, quando Harry e Sally reconhecem que foram feitos um para o outro: também eles acabam por sucumbir à poderosa atracção dos contrários, graças à qual o mundo pula e avança. Uma viagem mudou-lhes a vida, uma canção traçou-lhes o destino, um momento fugaz transformou-se num fragmento de eternidade.
Dirão alguns que o enredo padece de excesso de candura. Não serei eu a desmenti-los. Aliás lá surgem com nitidez, recortando-se na paisagem novaiorquina, as malogradas Torres Gémeas – simbolizando uma idade de inocência que não mais voltará a despontar nos dédalos da aventura humana.
O que só contribui para acentuar o fascínio deste filme.
É a noite da passagem de ano. Eles encaram-se de súbito como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez.
Ela diz que o odeia. Ele beija-a. E todos sabemos, a partir daí, que ficarão juntos até que a morte os separe. Estava escrito nas estrelas desde o princípio da história, desde o princípio do mundo.
“For nobody else gave me a thrill / With all your faults, I love you still. / It had to be you, wonderful you, / It had to be you.”


(provocação)
Caro Pedro,
E do restaurante?
O Katz’s Delicatessen, referenciado pedo Anthony Bourdain!
Isso dá outra série, António: cinemas e restaurantes. O Bourdain é aquele ‘expert’ em gastronomia que veio cá recomendar bifanas e sandochas de coiratos?
Gosto muito da canção. É forte e terna.
O filme é muito engraçado, com apontamentos gentias ” I’ll have what she’s having” , por exemplo. É um marco na comédia romântica, mas não é um dos filmes da minha vida. Não mudo de canal quando passa na TV; já ganhou estatuto de filme que me deixa bem disposta com uma lágrima.
Já vos disse que adoro a canção ? 🙂
É uma das mais belas canções de sempre. Genial, nas vozes de Billie Holiday e Ella Fitzgerald, cada qual no seu estilo inconfundível.
Uma canção que parece ter sido composta para este filme. Mas não: nasceu 55 anos antes.
O meu terceiro filme favorito de sempre… sendo que o primeiro e o segundo são “Casablanca” e “Cinema Paraíso”.
Não me canso de ver os momentos delirantes de conversa entre Billy Crystal e Meg Ryan…
Bom gosto, Nuno. ‘Casablanca’ esteve em foco no texto de estreia desta série: t/as-cancoes-no-cinema-1-7620592
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
Pedro
Este teu post aliviou-me de um dia em que só se falou de política e de desgraças. Claro que a política já é, ela própria, outra desgraça…
Obrigada Pedro!
Ainda bem que gostaste, Helena. Eu estou a fazer férias prolongadas da política…
Esta série vai continuar, prometo.
A comédia romântica não será o meu género favorito, mas este é um filme inesquecível, que marca uma época, da minha vida sem dúvida, e da de todos os que o vimos na altura, provavelmente. Acho que o vi pelo menos duas vezes. e, no entanto, não o associava a esta canção, que conheço também há muito na voz de Ella F., sobretudo, e de que gosto imenso, porque é impossível não gostar.
Nem que fosse só por isto esta tua série já teria valido a pena, Pedro.
E fico até com vontade de rever alguns dos filmes de que falas aqui. Este, por exemplo. 🙂
Um dos objectivos desta série é precisamente este, Isabel: motivar quem a lê para ver ou rever os filmes, a pretexto da canção que lhe serve de emblema musical. ‘It Had to Be You’ surgiu muito antes no cinema: pelo menos meio século antes, num filme de 1939, de Raoul Walsh, intitulado ‘Heróis Esquecidos’ (com James Cagney no papel principal). Pode escutar-se também em ‘Casablanca’, no piano-bar de Rick/Humphrey Bogart, e na voz de Diane Keaton em ‘Annie Hall’, como refiro no texto.
Mas é aqui que surge em todo o seu esplendor. E em ligação directa com a história – fabuloso argumento de Nora Ephron, merecidamente nomeado para o Óscar de 1989.