As canções no cinema (5)


Pedro Correia,

 

ROCK AROUND THE CLOCK (Sementes de Violência, 1955)

 

One, two, three o’clock, four o’clock rock
Five, six, seven o’clock, eight o’clock rock
Nine, ten, eleven o’clock, twelve o’clock rock
We’re gonna rock around the clock tonight

 

Com a electrizante voz de Bill Haley, acompanhado pelos seus Comets, o rock n’ roll irrompia no cinema, alterando radicalmente as linhas melódicas e rítmicas adoptadas até aí nas produções norte-americanas – e logo na MGM, o mais conservador dos grandes estúdios.

Estávamos a meio da década de 50, entre as guerras da Coreia e do Vietname, fronteira entre dois mundos. O cinema antecipava as modas dominantes a todos os níveis – do vestuário à linguagem, passando pela música. Nascia o culto das Harley-Davidson como metáfora da rebeldia juvenil protagonizada por Marlon Brando no filme O Selvagem (László Benedek, 1953), os adolescentes ganhavam um meteórico protagonismo entronizando James Dean como figura emblemática em obras capitais como A Leste do Paraíso (Elia Kazan, 1955) e Fúria de Viver (Nicholas Ray, 1955). E a batida do rock tomava de assalto as telas cinematográficas de forma imparável, acompanhando o pré-genérico e o genérico inicial de Sementes de Violência, longa-metragem de Richard Brooks inspirada no romance homónimo de Evan Hunter (The Blackboard Jungle, no original), publicado no ano anterior.

 

Lembro-me perfeitamente de ter visto Sementes de Violência, num cinema da Margem Sul que transformava o Verão em época de “reposições” de êxitos antigos – como sucedia nessa década de 70 por esse País fora. Eu era adolescente à época, teria a idade dos estudantes que surgem em foco neste filme centrado na delinquência juvenil numa escola pública de um bairro pobre de Nova Iorque. Mas o que me atraiu à sessão, naquelas férias grandes, foi o actor principal, Glenn Ford, que eu já conhecia de uma série exibida em 1975 na RTP sob o título Terra Bravia (Cade’s County, no original) – muito popular na altura entre a rapaziada da minha geração por ser um trepidante western contemporâneo. Ignorava ainda que Glenn Ford, à época em que rodou Sementes de Violência, já protagonizara obras-primas como Gilda (Charles Vidor, 1946) e Corrupção (Fritz Lang, 1953).

The Blackboard Jungle não mitifica a adolescência, longe disso. É talvez o primeiro título das grandes produções de Hollywood capaz de inverter o aforismo do padre Américo: afinal existem rapazes maus. Brooks – cineasta que viria a rodar belíssimas películas, como Gata em Telhado de Zinco Quente, O Falso Profeta, Corações na Penumbra, À Queima-Roupa e Amar Sem Amor – era também escritor, assinando o argumento desta longa-metragem que mereceu nomeação para um Óscar. O filme foi proibido em diversos Estados norte-americanos por decorrer numa escola multirracial (com um notável desempenho de Sidney Poitier, ainda muito jovem) e era antecedido de uma mensagem aos espectadores garantindo que nada daquilo existia na esmagadora maioria dos estabelecimentos escolares dos Estados Unidos.

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Gostei de o ver. A tal ponto que fiz questão de revê-lo dias depois – hábito que conservo desde então quando descubro um filme de que gosto muito. Mas nada me prendeu tanto a atenção como a música, diferente de todas as que me habituara a ouvir em películas produzidas naquela época.

Se aquilo me acontecia 22 anos depois da estreia, imagine-se o que não terão sentido os jovens espectadores de 1955 que transformaram Sementes de Violência num êxito de bilheteira ao escutarem a voz de Bill Haley, apoiada nos sete “cometas” (tocando guitarra clássica, guitarra eléctrica, baixo, piano, sax tenor e bateria): “Put your glad rags on and join me hon’ / We’ll have some fun when the clock strikes one / We’re gonna rock around the clock tonight / We’re gonna rock, rock, rock, ‘till broad daylight / We’re gonna rock, gonna rock around the clock tonight.”

As almas mais empedernidas entraram em pânico com aquela “batucada” de “inspiração diabólica” que quebrava os cânones melódicos e ameaçava perturbar a doce harmonia das famílias norte-americanas. A tal ponto que em certas cidades a música foi suprimida: o genérico passava sem som.

 

Reza a lenda que a culpa foi de um rapazinho de dez anos: Peter Ford, que tinha em casa o disco, gravado nos estúdios novaiorquinos da Decca em 12 de Abril de 1954. A pedido do realizador, coube-lhe a escolha do tema musical que tornaria Bill Haley numa celebridade e faria disparar as vendas do single logo após a estreia do filme, em 19 de Março de 1955: Rock Around the Clock liderou o top discográfico nesse Verão, durante oito semanas. Prenunciando a erupção de Elvis Presley como “rei” do género.

Hoje poucos se lembram de Bill Haley, que teve nove canções na lista das vinte mais vendidas entre 1954 e 1956. Mas os Beatles e os Rolling Stones, entre tantos outros, sempre prestaram tributo a este tema, nascido em 1953 da súbita inspiração do letrista Max C. Freedman (1893-1962) e do compositor James E. Myers (1919-2001), que era também produtor discográfico e assinou com o pseudónimo de Jimmy DeKnight. Com os primeiros acordes a constituírem um plágio descarado de Move it on over, primeiro grande sucesso de Hank Williams, datado de 1947.

São ainda mais aqueles que ignoram quem gravou a primeira versão de Rock Around the Clock, semanas antes dos Comets: tratava-se de um recém-surgido grupo de baile italo-americano denominado Sonny Dae and His Knights. Não há registo de que tenha voltado a gravar outro disco.

As bandas dissolveram-se, os ventos da moda mudaram, a música de miúdos tornou-se música de avós. Mas na galeria das canções ligadas ao cinema ficará para sempre inscrito este tema pioneiro do rock que rasgou fronteiras, alargou horizontes e quebrou tabus.

0 comentários em “As canções no cinema (5)”

  1. Epítome de ideais puros e violência gratuita, esta história brilhantemente contada ainda exemplifica a sociedade moderna em muitos aspectos.
    A música é frenética, louca, insana para a altura.
    De”A música de miúdos tornou-se música de avós”, permita-me discordar… A boa música não tem idade… Como o Tin Tin, dos 7 aos 77 e mais além.
    Cabe aos avós o papel mais importante do mundo: passar aos netos as preciosidades de “cotas” que os pais não souberam valorizar.
    Excelente escolha. Gostei muito do texto também.

          1. Suspense? Mr. Alfred Hitchcock maybe…
            Tantos e tão bons filmes por onde escolher.
            Esperemos, pois aposto que não vai dizer.
            🙂 Antonieta

  2. Li o livro do Evan Hunter, dancei o Rock Around the Clock, mas não me lembro de ter visto este filme.
    Do Richard Brooks, para além dos filmes que o Pedro menciona, recordo (com a ajuda das minhas listas), os seguintes:
    – Lord Jim
    – The Brothers Karamazov
    – The Last Time I Saw Paris
    – Looking for Mr. Goodbar
    – In Cold Blood
    – The Professionals
    O texto é brilhante, como sempre.
    :-)Antonieta

    1. Também li o livro do Evan Hunter (que assinava Ed McBain nos policiais). Li outro romance dele de que gostei muito: ‘Mães e Filhas’. Richard Brooks foi um dos melhores realizadores da gama média-alta de Hollywood, que assinou excelentes filmes entre as décadas de 50 e 70. Um deles foi precisamente ‘Lord Jim’, como refere, Antonieta. Com um Peter O’Toole pós-Lawrence da Arábia.

  3. Uma boa escolha a par de estupendo texto que me fez recordar os tempos magníficos da minha juventude. O livro de Evan Hunter foi lido e relido, agora, e fruto do uso que lhe foi dado aqui em casa pelas gerações que se seguiram, jaz velhinho. Não me ocorre que tenha visto o filme, mas a música foi muito dançada encantando-nos e tornando-nos felizes.

    1. A música ajudou a popularizar o filme e este, por sua vez, contribuiu para a divulgação mundial da música. Raras vezes se viu uma convergência tão grande a este nível.

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