As canções no cinema (4)


Pedro Correia,

 

CUCURRUCUCÚ PALOMA (Fala com Ela, 2002)

 

Dicen que por las noches
No mas se le iba en puro llorar,
Dicen que no dormía
No mas se le iba en puro tomar;
Juran que el mismo cielo
Se estremecía al oír su llanto,
Cómo sufrió por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando:

 

Cucurrucucú, cantaba,
Ay, ay, ay, ay, gemía,
Ay, ay, ay, ay, lloraba,
De pasión mortal moría.

 

Certos filmes propiciam-nos momentos mágicos que para sempre guardamos na memória. Aconteceu-me em 2002, ao ver em estreia aquela que ainda hoje é para mim a melhor obra de Pedro Almodóvar: Fala com Ela. Subitamente, a grande tela torna-se ainda maior quando ali irrompe Caetano Veloso, de forma imprevisível, entoando um tema clássico da música hispânica do século XX naquele seu jeito que tantos procuram imitar sem conseguir.

Caetano canta numa récita ao ar livre perante algumas dezenas de convidados que se deslumbram ao escutá-lo. E nós, espectadores, partilhamos com eles um deslumbramento que não cessa. Ele surge durante alguns minutos, interpretando-se a si próprio, e não reaparece em Fala com Ela. Canta Cucurrucucú Paloma, fenomenal êxito mexicano da década de 50, escrito para Lola Beltrán, que o popularizou no filme homónimo de 1965 e divulgado desde então por celebridades dos palcos melómanos e também por incontáveis trios de anónimos mariachis, tornando-se um dos temas musicais mais associados ao país de origem.

Lola manteve-se fiel à toada de raiz folclórica. Mas Caetano estilizou a canção na película de Almodóvar, apropriando-se dessa vibrante ranchera e dando-lhe um cunho pessoalíssimo. Cucurrucucú Paloma migrou do México para o Brasil, abraçou o violão e a batida da bossa nova, foi amparada pelo carinho vocal do criador de Menino do Rio, tornou-se canção emblemática de um mundo sem fronteiras, tornou-se tema do filme da vida de cada um de nós.

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Fala com Ela é uma belíssima longa-metragem sobre os ténues laços que ligam os seres humanos num mundo povoado de silêncio e solidão. Mas não é um filme desencantado: há nele uma luz de esperança que nunca se apaga, protagonizada por Benigno (Javier Cámara), o enfermeiro que não cessa de comunicar com a bailarina Alicia (Leonor Watling), em coma no hospital. Ao contrário do que sucede com Marco (Darío Grandinetti), jornalista e escritor, incapaz de enfrentar o coma de Lydia (Rosario Flores), a toureira que o arrebatava antes de ser colhida numa praça a las cinco en punto de la tarde.

“Fala com ela”, recomendava-lhe Benigno – nome que certamente não foi escolhido por acaso. Dando uma lição de vida ao profissional da comunicação, afinal incapaz de comunicar.

 

Tomás Méndez (1926-1995), o compositor desta canção que deu a volta ao globo também nas vozes de Joan Baez, Perry Como, Harry Belafonte, Nana Mouskouri, Pedro Infante, Julio Iglesias, Lila Down e Luis Miguel, foi um compositor reconhecido em vida e muito aplaudido no México. Mas talvez nunca imaginasse que a sua Paloma fosse capaz de voar tão alto como nesta obra-prima do espanhol Almodóvar, rodada sete anos após a sua morte.

Fala com Ela mereceu todos os prémios conquistados: Óscar em Hollywood para melhor argumento original (também de Almodóvar), Globo de Ouro e BAFTA (Óscar inglês) para melhor filme estrangeiro, César (francês) para melhor filme da União Europeia, troféu da Associação de Críticos de Los Angeles. E teria merecido ainda mais: logo na estreia ganhou o estatuto de clássico.

O fascínio incessante deste que é um dos mais universais títulos de sempre do cinema espanhol nunca será dissociado daqueles três minutos de pura magia proporcionados pela inesperada aparição de um genuíno cidadão do mundo: Caetano Veloso, baiano de Santo Amaro da Purificação cantando em castelhano um tema composto no México.

“Dicen que por las noches / No mas se le iba en puro llorar, / Dicen que no comía / No mas se le iba en puro tomar; / Juran que el mismo cielo / Se estremecia al oír su llanto / Como sufrió por ella, / Que hasta a en su murte la fue llamando: / Cucurrucucú, cantaba, / Cucurrucucú, lloraba.”

 

Tantos anos depois, imagino Caetano em rotações contínuas num som incessante mas sempre renovado – como se o tivesse escutado há minutos pela primeira vez. Imune à erosão do tempo, perpétuo na imensidão do espaço.

0 comentários em “As canções no cinema (4)”

  1. Eu fiquei maravilhada mas não surpreendida, pois já sabia que o Caetano Veloso cantava esse tema no filme.
    Sublime! (e já vai fazer 73 anos a 7 de Agosto).
    O Fala com Ela também é um dos meus filmes favoritos do Almodóvar, de braço dado com o ‘Volver’ e o ‘Abrazos Rotos’, pela extrema sensibilidade com que ele trata temas tão sérios.
    Para rir não há melhor do que o ‘Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos’.
    Se gostei deste nr. 4 da série?
    Não, não gostei: Adorei!!!
    🙂 Antonieta

  2. Também acho que Habla con ella é uma obra-prima, Pedro, para mim o melhor filme de Almodóvar, de quem também sou fã, assim como Caetano, cidadão do mundo e músico/cantor de excelência não perde a capacidade de nos encantar.
    Estou a gostar muito desta tua nova série, mas este texto toca-me de forma mais especial. Muito, muito bom, Pedro. Consegues sempre encontrar as palavras certas para dizer o que também pensamos e sentimos sem o conseguir dizer assim. Já várias vezes me emocionei a ler-te. Esta foi só mais uma… 🙂

    1. Que boa surpresa encontrar aqui estas palavras, Isabel. Também gostei da sintonia de gostos, que aliás não me surpreende. Eu andava há meses a tomar balanço para esta série, que começa a sair agora, quase de jacto, como se já a tivesse escrita na cabeça. E confesso que me dá muito prazer revisitar estes filmes e estas canções sob este pretexto. Espero que gostes do que está para vir. E eu gostarei se tu gostares.

  3. Gosto muito de Almodovar .
    Ritmo, acção e argumentos que nos envolvem completamente.
    Gosto de ver em casa. Gosto de poder rever.
    Esta música intemporal, já com um par de anos, e que eu adorava ouvir interpretada pela Nana Mouskouri, que aparece aqui como que feita por medida, encantou-me pela interpretação do Caetano Veloso. Foi como se escutasse uma voz amiga de há muito tempo que os anos envelheceram, e afinal soava tão jovem e encantadora como sempre fora.
    Gostei muito. Que venha o livro. 🙂

    1. “Foi como se escutasse uma voz amiga de há muito tempo.” É precisamente isso que eu sinto também sempre que oiço o Caetano Veloso cantar, Dulce. E já o tive o privilégio de o escutar ao vivo. A actuação dele neste filme do Almódovar é um verdadeiro achado.

  4. Grande escolha. Entre o muito que me agrada neste filme está a ambiguidade da personagem de Benigno. Cuidador empenhado, abusador, homem perturbado que vive uma ilusão na qual não há malícia nem dano. O nosso olhar sobre ele vai mudando ao longo da história e acabamos por lamentar que ele tenha de ser sacrificado para que outros possam amar e viver.
    Vou estar atenta a esta série de canções.

    1. Obrigado, Carla. De facto, Benigno é uma personagem muito bem construída, precisamente por essa ambiguidade que menciona. Gostei de saber que vai acompanhar esta série: vou escrevendo à medida das minhas possibilidades, vamos ver no que dá. E aproveito para felicitá-la pela qualidade dos seus textos no Aventar.

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