As canções no cinema (3)


Pedro Correia,

 

MOON RIVER (Boneca de Luxo, 1961)

 

Moon River, wider than a mile,
I’m crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker,
wherever you’re going I’m going your way. 

 

Era ainda o tempo da televisão a preto e branco, tinha eu 13 anos, quando vi este filme pela primeira vez. Revi-o mais tarde, já restituído à cor original, mas quase não dei pela diferença. Porque esta é daquelas películas que imaginamos sempre em várias tonalidades – todas as que assentam bem à pele da estrela. E neste caso estamos perante Audrey Hepburn, uma estrela verdadeira.

Rodada em 1961 por Blake Edwards para a Paramount, esta longa-metragem viu suavizadas diversas arestas da novela de Truman Capote, Breakfast at Tiffany’s, herdando-lhe o nome original e a protagonista, chamada Holly Golightly, mulher que “sempre dependeu da generosidade de forasteiros”, como diria Blanche DuBois, outra grande figura feminina da literatura norte-americana.

Edwards limou alguma camada cáustica do texto, conferindo ao filme uma aura de “comédia romântica” ainda antes de este rótulo se generalizar até à náusea. Audrey encarnou Holly à sua maneira, mais doce e sonhadora do que a do livro, surgido em 1958. O papel do narrador Paul Varjak foi confiado a um jovem intérprete formado no Actors Studio, George Peppard: raras vezes um par funcionou tão bem no cinema como neste filme de impossível tradução literal, transformado em Boneca de Luxo na versão portuguesa e Bonequinha de Luxo no Brasil (já José Blanc de Portugal, tradutor da novela, a denominara Ao Começo do Dia, igualmente em crise de inspiração quanto a títulos). Melhor estiveram os espanhóis, que lhe chamaram Desayuno con Diamantes [Diamantes ao Pequeno-Almoço].

Seja qual for o nome, todos lembramos certas cenas da película. A começar pela inicial, enquanto é exibido o genérico: Audrey/Holly, contemplando a montra da célebre joalharia na Quinta Avenida. Ou a da animadíssima festa no apartamento que ela tomou de empréstimo. Ou a das aulas de português em que arranha o nosso idioma enquanto vai repetindo as frases escutadas num disco para agradar a um certo ricaço brasileiro. Ou a fabulosa cena final, de que falarei adiante.

 

Fui vendo o filme com mediano interesse até reparar em Audrey na escada de incêndio do prédio. Tinha ar melancólico, uma viola na mão e cantava quase em tom de sussurro uma das mais belas canções que alguma vez ouvi no cinema. No andar de cima, Paul – candidato a escritor que não passava das primeiras linhas – chegou-se à janela, atraído por aquele fio de voz suficiente para nos virar do avesso. Virou-o a ele, mudando-o para sempre. E a tantos de nós, capazes de nos imaginarmos inseridos nos versos daquele trecho musical.

“Two drifters off to see the world, / There’s such a lot of world to see.” Que adianta percorrermos os trilhos do mundo sem uma alma gémea com quem possamos partilhar esses roteiros e as memórias que deles subsistem?

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Henri Mancini (1924-1994) compôs a música navegando contra a corrente dominante naquela época, que clamava por partituras em rock n’ roll. Formado na prestigiada escola musical Julliard, em Nova Iorque, este filho de um operário italiano preferia o jazz e as baladas do seu país de origem. Compôs o tema em parceria com o letrista Johnny Mercer (1909-1976), veterano dos estúdios cinematográficos, e Blake Edwards prestou-lhe justiça, inserindo-o em versão instrumental logo no genérico inicial de Breakfast at Tiffany’s. Mas só escutamos a letra quando Holly a interpreta nas escadas. Incendiando Paul, incendiando cada potencial navegador dos rios lunares.

Um executivo da Paramount chegou a sugerir a eliminação desta cena logo após o primeiro visionamento da película, antes da estreia comercial. Tinha vistas curtas e era duro de ouvido. Felizmente a actriz fez-lhe frente, recusando tal sugestão. Ela que três anos depois viria a sentir uma profunda mágoa quando Jack Warner decidiu dobrá-la em My Fair Lady, recorrendo à voz operática de Marni Nixon. Mesmo depois de Audrey Hepburn ter demonstrado aqui como sabia cantar. E encantar.

 

Moon River ajudou a elevar este filme ao estatuto de obra-prima. E ganhou asas, voando por si própria. Começou por ser gravada, ainda em 1961, por cantores como Jerry Butler e Danny Williams. A versão instrumental, lançada em disco por Mancini no final do ano, tornou-se muito popular. No ano seguinte vieram os Óscares: melhor canção e melhor banda sonora original para o compositor. E os Grammy: disco do ano, canção do ano. Andy Williams interpretou-a na cerimónia de distribuição das estatuetas em Hollywood e ficou ligado a ela para sempre.

Mas Moon River, para mim, continua inseparável da terna fragilidade de Audrey Hepburn e da perene fotogenia do seu rosto, um dos mais belos da Sétima Arte. E mesmo em dias de sol, como o dia de hoje, sonharei com noites de chuva intensa como a que surge na despedida deste filme inesquecível. Uma cena em que Holly, com um gato molhado nos braços, se deixa enfim beijar por Paul depois de lhe ter dito que ninguém pertence a ninguém.

Falava só da boca para fora enquanto aqueles belos olhos diziam o contrário.

Lá continuam eles, fitando-nos para a eternidade. Lá ecoa novamente a versão coral de Moon River, ao cair do pano, ensinando-nos ad infinitum que nenhum de nós – homem ou mulher – nasceu com vocação para ser ilha: todos somos parcelas de um vasto continente. We’re after the same rainbow’s end.

0 comentários em “As canções no cinema (3)”

  1. Depois daquela resposta que o Pedro deu ao meu comentário apostei comigo mesma que a nr. 3 seria o Moon
    River. E ainda bem que ganhei: adoro esta canção e este filme.
    Vi-o no cinema numa daquelas reprises de Verão, já não recordo em que ano. Revi-o na tv e tenho o dvd cá em casa.
    Gosto de tudo: da Audrey, do George, do gatinho, especialnente daquele final à chuva (lembrei-me deste final quando li o seu ‘Cat in the Rain’ do Hemingway) e, claro, da canção.
    Foi uma boa surpresa!
    🙂 Antonieta

    1. Esta tinha mesmo que passar por cá, Antonieta. E quanto mais cedo melhor. ‘Um Gato à Chuva’ também me faz sempre lembrar o fabuloso final deste filme irrepetível, rodado em estado de graça.
      … E vou começando a pensar na quarta canção da série. Demorei a tomar balanço mas estou a gostar de escrever estes textos.

  2. Ao fim de apenas o 3º da série, dá (de sobra) para constatar que este conjunto de posts merecia mais que ir deslizando a pouco e pouco para os “mais antigos” do Delito de Opinião, mas essa é a lei dos blogs.

    Magníficos e tocantes textos, a que não é possível ficar-se indiferente…

      1. Editor não sou. Não sei como se faz e já é tarde para mudar de vida (se alguma vez o for, verdadeiramente, exigindo-o essa vida).

        Mas leitor vou sendo, por aqui, e com muito gosto. E porque as coisas na internet são fatalmente efémeras, desde o exílio nas “mensagens antigas”, ou equivalente, e armazenadas de forma que desencoraja a busca, até à perda total, irrecuperável e impune, porque algo aconteceu ao “servidor” ou coisa que o valha (o “sistema ir abaixo” é a grande e omnipotente justificação para o que quer que seja, por estes dias; e pode “ir abaixo”, o raio do “sistema”, uma e outra vez!), esta série – como outras, antes dela – bem poderá constituir um livro que, a surgir, não me escapará.

        Costa

          1. Venho juntar-me ao Fiel Leitor e ao Costa.
            Também eu gostaria de comprar um livro com esta e outras séries com que o Pedro já nos brindou aqui no Delito.
            Poderia ser um livro assim no estilo das Folhas da Cinemateca, eu tenho o do Ingmar Bergman, que acho uma preciosidade.
            Aguardemos pois.
            🙂 Antonieta

          2. Obrigado de novo, Antonieta. Primeiro os textos hão-de vir aqui. Em primeira mão para os leitores do DELITO. e já decidi qual será o próximo. Espero que goste.

  3. Eu sou sempre muito suspeita nos meus comentários porque já expressei várias vezes uma opinião ( a minha) muito positiva sobre o que o Pedro escreve e como escreve.
    O que dizer sobre um tema belíssimo de um dos filmes mais bonitos da história do cinema?
    Não sei se muito mais haveria para dizer, o Pedro já disse tudo, nessa sua maneira simples e elevada de escrever.
    Prevejo uma série sublime 🙂

    1. Muito grato pelas suas palavras, Dulce. Espero que continue a gostar desta série que vai prolongar-se por todo o Verão. E talvez também pelo Outono. E (quem sabe?) pelo Inverno.

    1. É também um dos filmes da minha vida, Cristina. Estreado no mesmo ano de outros dois que também constam do meu panteão privado: ‘Os Inadaptados (de John Huston) e ‘Esplendor na Relva’ (de Elia Kazan).

  4. Gostei de o ler e também aprecio o filme e sobretudo a música. Trago um apontamento: há uma cena de antologia com o Moon River no La Mala Education do Almodovar.

      1. A senhora Hepburn era uma senhora lindíssima. Para dizer a verdade, Pedro, concordo consigo. Lawrence da Arábia um filme extraordinário. Na minha opinião, O’Toole merecia mais o Óscar do que Peck. A personagem de O’Toole foi um tremendo desafio, enquanto a de Peck era uma personagem facílima de interpretar. Aparentemente, Peck disse que a personagem que interpretou tinha a sua personalidade.

        1. Peter O’Toole devia, de facto, ter conquistado o Óscar de 1962 pelo seu desempenho excepcional em ‘Lawrence da Arábia’, obra-prima absoluta. Gregory Peck, em comparação, limita-se a uma actuação competente, sem deslumbrar.

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