As canções no cinema (2)


Pedro Correia,

 

SINGIN’ IN THE RAIN (Serenata à Chuva, 1952)

 

I’m singin’ in the rain
Just singin’ in the rain
What a glorious feelin’
I’m happy again
I’m laughing at clouds
So dark up above
The sun’s in my heart
And I’m ready for love

 

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o vi: tinha acabado de fazer 16 anos, era Verão e aproveitei uma “reprise estival” no cinema Condes, na Baixa lisboeta, para assistir àquele que não hesito em classificar de melhor filme musical de sempre.

Conheço muita gente que detesta musicais. Eu estou no campo oposto: gosto muito. Talvez porque fosse musical o primeiro filme que vi no cinema, com apenas sete anos (hei-de falar dele aqui), talvez por não conceber a vida sem o som e o dom da música. E recuso dar ouvidos às sumidades da praxe, que nas últimas décadas se encarregaram de proclamar a “morte dos musicais” enquanto víamos desfilar nos ecrãs pequenas e grandes maravilhas do género: Everyone Says I Love You (Woody Allen, 1996), On Connaît la Chanson (Alain Resnais, 1997), Moulin Rouge (Baz Luhrmann, 2001), Chicago (Rob Marshall, 2002), Nine (Rob Marshall, 2009).

 

Presumo que mestre Stanley Donen – aos 91 anos, decano dos cineastas e um dos raros sobreviventes da época áurea de Hollywood – terá gostado tanto como eu destes filmes mais recentes que de algum modo prestam tributo ao seu título de “rei dos musicais”, obtido numa carreira iniciada logo com uma obra-prima do género: Um Dia em Nova Iorque (1949), película em que o musical se despia de artifícios e mergulhava nos ruídos da rua.

Donen realizou-a em parceria com Gene Kelly, o melhor dançarino do cinema desde Fred Astaire. Três anos depois, voltaram a juntar-se para dirigir e coreografar (e interpretar, no caso de Kelly) este fabuloso Singin’ in the Rain. Ode ao optimismo saída dessa incomparável caixa de magia que era a Metro-Goldwyn-Mayer.

 

Filme solar como poucos, mesmo quando chove. Ou sobretudo quando chove. Gene Kelly, bailarino-acrobata, contagia-nos com a sua incontida alegria em technicolor, tornada ainda mais transbordante à medida que o aguaceiro se acentua. Apetece-nos estar ali e dançar também à chuva, cantar também à chuva, subir ao candeeiro, rodopiar com o guarda-chuva, pisar os charcos em infantis manifestações de pura alegria.

“Let the stormy clouds chase / Everyone from the place / Come on with the rain / With a smile on my face / I walk down the lane / With a happy refrain / Just singin’, singin’ in the rain.”

Celebração da vida, celebração da música, celebração do cinema. Com vários outros momentos inesquecíveis, como Make’ Em Laugh e Good Morning. Mas a jóia da coroa é a canção que dá nome ao filme. Canção dançada por um Gene Kelly em estado de graça.

movieposter[1].jpg

 

“I’m happy again”, um dos versos de Singin’ in the Rain, bem podia servir de mote àqueles anos em que o sol iluminava de novo os céus do mundo enquanto se varriam os escombros da II Guerra Mundial e o Ocidente iniciava três décadas de inédita prosperidade.

Mas a canção tinha uma origem muito anterior. Fora concebida em 1927 por Arthur Freed (1894-1973) e Nacio Herbo Brown (1896-1964), respectivamente letrista e compositor. Estreou-se em 1929 no teatro musicado, então muito popular nos Estados Unidos: era um dos temas da revista The Hollywood Music Box Revue, transposta nesse mesmo ano para um filme de sucesso: The Hollywood Revue of 1929, alternando cenas a preto e branco com o esplendoroso colorido que funcionou como marca das produções MGM.

Singin’ in the Rain surge nesse filme interpretada por Cliff Edwards, numa cadência muito mais acelerada do que a da versão de 1952. Era o tempo em que os cantores da moda ainda não sabiam pausar e temporizar, o que só viria a acontecer com Bing Crosby e mais tarde com Frank Sinatra, por notória influência dos blues da cultura negra.

Eram tempos de transição, nos filmes e na vida. A Sétima Arte ganhava cor e adquiria voz: disso nos fala o enredo desta Serenata à Chuva ambientada nesse final dos anos 20, com Donald O’ Connor e a encantadora Debbie Reynolds formando um magnífico trio com Gene Kelly – actores interpretando actores, o cinema olhando-se ao espelho. Últimos dias festivos antes desse pesadelo colectivo ocorrido a partir da quinta-feira negra de Outubro de 1929, quando a Bolsa se estilhaçou em Wall Street.

 

Lembro-me perfeitamente. Saí da sala do velho Condes que já não há e senti-me um Gene Kelly, acelerando a marcha e levantando os calcanhares do chão naquela tarde inundada de sol que imaginei plena de chuva copiosa e redentora. E lá segui, passeio dos Restauradores adiante, andando como se dançasse, com aquela toada inicial a reverberar-me na memória: “Doo-dloo-doo-doo-doo / Doo-dloo-doo-doo-doo / Doo-dloo-doo-doo-doo / Doo-dloo-doo-doo-doo…”

0 comentários em “As canções no cinema (2)”

  1. Caro Pedro,
    utilizando um verbo que “nossos irmãos” do outro lado do Atlântico usam – nós por cá, felizmente não -, parabenizo-o por este texto sobre uma música e um filme, que a mim, não significa muito.
    Permita que sublinhe: «E lá segui, passeio dos Restauradores adiante, andando como se dançasse, com aquela toada inicial a reverberar-me na memória: “Doo-dloo-doo-doo-doo / Doo-dloo-doo-doo-doo / Doo-dloo-doo-doo-doo / Doo-dloo-doo-doo-doo…”» para recordar a criança que cada um de nós foi e a ilusões que acalentámos!

    1. Obrigado pelas suas palavras, António. De facto também escrevemos para avivar memórias. Que muitas vezes são partilháveis pois correspondem a tempos e experiências que muitos outros viveram também.

  2. Se houvesse um Hall of Fame, dos melhores momentos de filmes musicais, este filme e esta canção mereciam lugar de destaque.
    Eu adoro musicais, antigos, modernos… Rocky Horror Show, Hair, Godspell, todos os do Andrew Lloyd Webber ( fui ver Cats as 3 vezes que esteve em Lisboa, vi o JCSuperstar em Londres)…
    Há uma rua no Walt Disney Studios na Disneyland Paris, onde está um candeeiro com um guarda chuva agarrado, onde também “chove” e toca ” Singing in the Rain” e toca toda a gente também, miúdos, graúdos… Todos saem de lá a trautear 🙂 🙂

  3. Ao contrário do Pedro eu nunca consegui ver este filme em écran gigante.
    Vi-o sempre na televisão, aliás creio que a primeira vez até foi a preto e branco.
    Mas tenho óptimas recordações de outros musicais que vi, por exemplo, no Monumental, Império, S.Jorge ou Tivoli:
    – My Fair Lady
    – Um Violino no Telhado
    – The Way we Were
    – Hello Dolly
    – All that Jazz
    – Cabaret
    – New York, New York
    – Les Parapluies de Cherbourg
    e o incontornável ‘The Sound of Music’.
    E esta fabulosa canção, magistralmente interpretada pelo Gene Kelly, é realmente uma das mais optimistas de sempre e consegue pôr qualquer ‘pé de chumbo’ a dançar.
    Doo-dloo-doo-doo-doo…
    🙂 Antonieta

    1. Eu tive, de facto, a sorte de vê-lo da primeira vez no local adequado – em tela grande, na sala escura de cinema. E a cores. Nem concebo este filme, que vive tanto da cor, a preto e branco.
      Gosto muito desses filmes que enumera, Antonieta. Les Parapluies de Cherbourg; New York, New York; The Way You Were; Cabaret; o genial My Fair Lady.
      E junto alguns outros: Eles e Elas (Guys and Dolls), A Roda da Fortuna (The Band Wagon), Não Há Como a Nossa Casa (Meet me in St Louis), Um Dia em Nova Iorque, Mary Poppins…

  4. O cinema, esse filme: sem dúvida o território de eleição de Singin’ in the Rain. Único e irrepetível. Mas, permita-me a presunção, recordo uma noite no Palace Theatre de Londres: prometia-se à entrada “an evening of pure joy”. E foi absoluta e inesquecivelmente cumprida!

    Com generoso banho garantido nas primeiras filas da plateia (essa sorte não a tive…).

    Costa

    1. São sempre inesquecíveis, as histórias do cinema entrelaçadas com as nossas histórias de vida, amigo Costa. Todas juntas também dariam belos filmes.
      Isto ajuda a explicar a magia da Sétima Arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *