BARCO NEGRO (Os Amantes do Tejo, 1955)
Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir
Pois tudo em meu redor
Me diz que estás sempre comigo.
Há canções no cinema capazes de nos tocar a tal ponto que relegam o enredo do filme para segundo plano. Aconteceu-me algumas vezes enquanto espectador. Mas talvez não tenha acontecido com tanta intensidade como num filme francês, rodado por Henri Verneuil (1920-2002) em Lisboa. Esta longa-metragem de 1955 é hoje lembrada não pelos seus méritos cinematográficos, que são escassos, mas por ter impulsionado a ascensão internacional de Amália Rodrigues. Bastaria isso para que eu, amaliano militante, a incluísse na minha galeria de títulos estimáveis da Sétima Arte.
Amália tem um papel relativamente importante no filme, interpretando-se a si própria. Surge aliás em quinto lugar na ficha artística, logo após Daniel Gélin (que no ano seguinte filmaria O Homem que Sabia Demais, com Alfred Hitchcok), Françoise Arnoul, Trevor Howard e Marcel Dalio. E a sua presença vocal manifesta-se desde o instante inicial: enquanto decorre o genérico, sobre panorâmicas de Lisboa, é a voz dela que escutamos. Cantando Foi Deus, um dos mais belos temas do seu riquíssimo reportório.
Os Amantes do Tejo – baseado na obra homónima do escritor Joseph Kessel, publicada um ano antes – conta-nos a história de Pierre, ex-membro da resistência francesa refugiado em Lisboa, onde trabalha como taxista, após ter cumprido pena de prisão no país natal por ter assassinado o amante da mulher in flagrante delicto. Um dia transporta Kathleen, turista por quem se apaixona, não resistindo a confessar-lhe o seu segredo. Mas também ela é perseguida por uma sombra do passado. O romance está condenado a terminar mal.
O que importa aqui, no entanto, é a presença magnética de Amália. O filme subsiste como objecto de culto por causa dela, só por causa dela. E nunca foi tão etérea e tão carnal em simultâneo como nos minutos em que canta – com a voz da alma – o arrepiante Barco Negro, original brasileiro a que David Mourão-Ferreira (1927-1996) emprestou o seu talento poético.
“De manhã, temendo que me achasses feia, / Acordei tremendo deitada na areia. / Mas logo os teus olhos disseram que não / E o sol penetrou no meu coração. / Vi depois, numa rocha, uma cruz / E o teu barco negro dançava na luz. / Vi teu braço acenando entre as velas já soltas. / Dizem as velhas na praia que não voltas: / São loucas! / São loucas!”
Amália canta numa casa de fados, acompanhada por Jaime Santos, Domingos Camarinha e Santos Moreira, seus guitarristas à época. Às tantas, um miúdo pergunta a Kathleen se está a gostar. “Muito. Só tenho pena de não saber português”, responde ela. “É sobre a mulher de um pescador que morreu no mar. Todas as noites ela desce à praia e fala-lhe como se ele não tivesse morrido”, esclarece o garoto. Pierre/Gélin traduz depois para francês o poema de Mourão-Ferreira. Como se tivesse sido escrito para Kathleen: “Tu es toujours là, toujours là, toujours là…”
Barco Negro nasceu de um acto de censura. No original brasileiro, de 1943, intitulava-se Mãe Preta e tinha o seguinte estribilho: “Enquanto a chibata batia no seu amor / Mãe preta embalava o filho branco do sinhô.”
Proibida pelo regime salazarista, a canção composta por Caco Velho (Matheus Nunes, 1920-1971) e Piratini (Antônio Amábile, 1906-1953) era uma denúncia óbvia do racismo que na adaptação fadista derivou para a tragédia de um pescador engolido pelo mar.
Amália já trabalhara antes no cinema – enquanto protagonista de Capas Negras (Armando de Miranda, 1947), Fado (Perdigão Queiroga, 1948) e Vendaval Maravilhoso (Leitão de Barros, 1949). E já tinha prestígio internacional. Na década de 40 mantivera-se durante quatro meses no cartaz do luxuoso Copacabana Palace, onde estreou Ai Mouraria. Em 1953 actuara ao longo de 14 semanas no nightclub La Vie en Rose, em Nova Iorque, e no ano seguinte foi atracção no Mocambo, em Hollywood. Privara com Danny Kaye e Eddie Fisher, cantara com Lena Horne e Nat King Cole. Mas para ela as portas de França só se abriram com a enorme repercussão deste filme, onde também interpreta – sob o título Solidão – a célebre Canção do Mar, com música de Ferrer Trindade, aqui igualmente com versos de Mourão-Ferreira.
Os franceses renderam-se à rainha do fado. Em 1956, Amália cantou pela primeira vez no Olympia de Paris: a partir daí o mundo francófono não deixaria de lhe prestar tributo.
Além de tudo isto, é evidente o interesse documental do filme de Verneuil pelos seus numerosos exteriores rodados em Lisboa.
Um espectador português do século XXI não deixará de acompanhar com interesse as imagens da nossa capital desse tempo em que ainda havia sinaleiros a regular o trânsito, as carroças eram frequentes, os pregões das varinas e dos ardinas ecoavam em qualquer canto da cidade, as fragatas sulcavam o rio e os eléctricos integravam o quotidiano dos Restauradores.
Paisagens que se mantiveram incólumes (o castelo, o miradouro de Santa Catarina, São Pedro de Alcântara, o cais da Rocha de Conde Óbidos) em contraste com edifícios que o camartelo alfacinha para sempre sepultou (como o luxuoso Hotel Aviz, situado onde hoje se encontra o Sheraton e onde então se hospedava em permanência o multimilionário Calouste Gulbenkian).
Para mim tem um interesse adicional: 1955 foi o ano em que os meus pais se casaram. Gosto da longa-metragem de Verneuil também nessa perspectiva: permite-me conhecer com algum pormenor a Lisboa desse tempo, vários anos antes de eu nascer.
O meu pai, à época trabalhador-estudante, era funcionário da Direcção-Geral de Saúde, com entrada numa das arcadas do Terreiro do Paço. É o primeiro local onde avistamos Amália e Pierre/Gélin.
Nunca deixarei de ver o filme sem espreitar com redobrada atenção aquela cena. E aproveito para confessar também um segredo: ainda não perdi a esperança de um dia lá descobrir o meu pai.


Obrigada. Acho que nunca tinha visto a cena do filme. Um dia destes hei-de vê-lo todo. 1955 é o ano em que nasci 🙂
Vale a pena vê-lo, Isabel. Nem que seja pelo carácter documental do filme – que nos mostra muito dessa Lisboa de 1955. E, claro, pela presença de Amália. Pela voz de Amália. Pelo carisma único de Amália.
Um dia destes encontrewi por acaso no youtube um filme policial do (e com) o Brum do Canto com a Amália que, estupidamente, nunca mais consegui voltar a encontrar. Começava em Belém, acho eu, e depois continuava lá para os lados do Areeiro. Foi como rever a minha infância.
Gosto muito da faceta documental desses filmes portugueses antigos. Quando vi a ‘Maria Papoila’, de Leitão de Barros (1937), as imagens que mais retive dessa longa-metragem foram a da alameda do casino no Estoril, já muito parecida com o cenário actual, e do jardim do Campo Grande (lago incluído), também muito semelhante ao panorama que todos conhecemos nos nossos dias.
E o que eu adorei a Maria Papoila: “Despedi-me das ovelhas, do meu cão, das casas velhas…”.
Fartei-me de cantarolar esta música.
🙂 Antonieta
Também poderá vir a figurar nesta série. Mas antes há outras já em fila de espera.
Deste filme lembro-me assim assim, principalmente porque sempre que a Amália cantava , havia um silêncio tácito de respeito e admiração lá em casa. Antigamente os filmes franceses e italianos passavam muito na TV e lembro-me bastante bem de alguns que vi, felizmente. Os Amantes do Tejo passou seguramente há um ror de anos na RTP, mas recordo como se fosse hoje o meu Pai fazer schhhh , o queria dizer que a Amália ia cantar.
O meu Pai era tendencioso, porque fazia parte daquele núcleo duro que pensava que a voz da Amália fez mais por Portugal no mundo, do que todos os políticos que tivemos… O poema é belíssimo, e a Amália interpreta-o como ninguém.
Boa escolha, excelente texto.
Bom fim de semana
É, sem dúvida, um belo poema de David Mourão-Ferreira, autor que tem andado tão esquecido. Os portugueses têm uma memória colectiva muito curta. Isso nota-se no silêncio que rodeia a obra de tantos dos nossos melhores poetas.
Amália, felizmente, cantou vários deles quando ainda estavam em plena actividade criativa. Foi mérito dela – um entre tantos outros.
Bom fim de semana, Dulce.
O seu Pai era capaz de ter muita razão!
Não tenho a menor dúvida, Helena. Faço minhas as tuas palavras.
Uma pequena correcção (ou acrescento):
A Canção do Mar é interpretada no filme com título diferente e com letra diferente, também da autoria de Mourão-Ferreira.
Desta feita, a “censura” terá partido do próprio realizador da película.
Agradeço-lhe o reparo, Sampy.
Outro pormenor: Pierre refugia-se em Lisboa após cumprir pena (uma pena simbólica, jogando como atenuante o seu passado na resistência) pela morte do amante da sua mulher, apanhados em flagrante.
Duplamente agradecido.
E ainda mais uma achega: Mãe Preta foi composta na década de trinta. A gravação mais antiga que se conhece é que é de 1943 (Conjunto Tocatins).
Eu não diria tanto “uma denúncia óbvia do racismo”, mas uma evocação do tempo esclavagista, ainda bem marcado na cultura brasileira à época.
A canção foi trazida para Portugal em 1952 pela fadista Maria da Conceição e tornou-se um êxito instantâneo. A censura interveio obrigando à alteração do primeiro verso do estribilho e, mais tarde, proibindo a sua difusão na rádio. Mas a fadista gravou-o em 1958 com a letra original.
Vi muitos filmes da Amália na tv mas penso que eram todos falados em português, não me recordo de ter visto este.
E tenho pena, vou tentar encontrá-lo.
Foi a Amália que me fez voltar à Lírica do Camões com a sua magnífica interpretação da Lianor, que descalça ia para a fonte…
Gosto imenso do David Mourão-Ferreira e para mim ele não está esquecido: tenho vários livros dele, um CD de poesia e também a Colóquio Letras nr. 145/146, que é uma autêntica preciosidade.
Nota máxima, Pedro, e espero sinceramente que encontre o seu pai.
🙂 Antonieta
É espantoso como a Amália foi tão pouco aproveitada no cinema. E nem todos os filmes em que entrou foram de qualidade (não por culpa dela mas dos cineastas e dos produtores). Esta longa-metragem mostra-a no auge das capacidades vocais dela. Não é obra-prima mas é francamente superior a filmes portugueses em que entrou anos depois, como ‘Sangue Toureiro’, ‘Fado Corrido’ e ‘Via Macau’.
Agradeço-lhe muito essas palavras finais, Antonieta. Continuarei à procura.