As canções no cinema (13)


Pedro Correia,

 

MINHA CASINHA (O Costa do Castelo, 1943)

 

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta como eu.
Como é bom, meu Deus, morar
assim num primeiro andar
a contar vindo do céu.

O meu quarto lembra um ninho
e o seu tecto é tão baixinho
que eu, ao ir para me deitar,
abro a porta em tom discreto,
digo sempre: “Senhor tecto,
por favor deixe-me entrar.”

 

Todos os países têm as suas estrelas, as suas divas. E cuidam delas, valorizam-nas, veneram-nas. Nós, pelo contrário, fazemos uma certa gala em desprezá-las pelo esquecimento. Aconteceu com várias das nossas meteóricas divas no cinema – Laura Alves, Leonor Maia, Maria Dulce, Isabel de Castro, Maria Cabral. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos, neste país, de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

Aconteceu isso também à maior de todas as nossas estrelas do celulóide, aquela que nasceu mesmo no cinema, sem vir de outras áreas do entretenimento – embora depois tenha alcançado também sucesso no teatro e na canção (popularizou o célebre tema Lisboa à Noite). Refiro-me a Maria de Lurdes de Almeida Lemos (1926-2008). A popularíssima Milu, a esquecidíssima Milu. Quantos hoje, entre os mais jovens, saberão que existiu?

E no entanto houve um tempo em que bastava surgir aquele nome de quatro letras na fachada de uma sala de espectáculos para atrair público. Por um instante fugaz ela foi, à nossa escala, o que noutros países europeus foram uma Claudia Cardinale, uma Leslie Caron, uma Julie Christie, uma Ingrid Bergman, uma Melina Mercouri, uma Sara Montiel. Seduziu produtores cinematográficos estrangeiros – desde logo espanhóis, mas também de Hollywood: da Universal Pictures chegou-lhe um convite para trabalhar na Meca do Cinema. Nunca antes tinha sucedido algo semelhante a uma actriz portuguesa.

Como tantas vezes acontece com as nossas divas, de Amália a Simone (Madalena Iglésias, que partiu para não voltar, foi a excepção), ela foi ficando: agradava-lhe o sol português, manteve-se fiel às raízes familiares e faltava-lhe espírito de aventura. Eram tempos muito diferentes dos actuais, em que uma Maria de Medeiros, uma Maria João Bastos ou uma Daniela Ruah singram no estrangeiro e por lá se demoram o tempo necessário para desenvolverem carreiras longe do pacato reduto lusitano. Fazem bem: neste país minúsculo e corroído por invejas várias, o reconhecimento público costuma ser rápido mas ilusório. E o consequente esquecimento é quase fatal.

 

Milu tinha apenas 16 anos quando protagonizou o seu primeiro filme, no papel da bonita mas humilde Luisinha. Ela não adivinhava, mas seria um dos mais perduráveis alvos de estimação do cinema português: O Costa do Castelo. Com um notável elenco onde sobressaíam António Silva, Maria Matos, Maria Olguim, Teresa Casal, Hermínia Silva e Fernando Curado Ribeiro – o galã de turno com quem ela faria par na tela.

Era uma comédia de enganos, inspirada no teatro burlesco e transposta para a Lisboa popular da época. Como vários outros títulos do cinema português daquele período tão fértil em fitas memoráveis: A Canção de Lisboa (1933), O Pai Tirano (1941), O Pátio das Cantigas (1942), A Menina da Rádio (1944), O Leão da Estrela (1947), O Grande Elias (1950), O Costa de África (1954). E actores da estirpe de Vasco Santana, António Silva, Beatriz Costa, Ribeirinho, Manuel Santos Carvalho – quase todos oriundos do teatro de revista, o que explica em grande parte o estilo de representação.

O-COSTA-DO-CASTELO-ESTREIA-A-15-DE-MARCO-DE-1943-N

 

O Costa do Castelo – que estreou no São Luiz a 15 de Março de 1943 – foi a primeira comédia e a melhor longa-metragem de Arthur Duarte (1895-1982), o mais prolífico dos cineastas portugueses daquela época.

Uma inequívoca prova da qualidade do filme tem sido dada pela sua recepção ao longo dos tempos: sucessivas gerações de espectadores vibram e riem e comovem-se perante aquele enredo desenrolado numa Lisboa com atmosfera de aldeia onde ainda eram visíveis as marcas rurais. A Lisboa salazarista, da penúria do tempo da II Guerra Mundial, de onde ressaltavam frases destinadas a driblar a censura, como “a fome é protectora da elegância”.

A Lisboa dos pobres, como a órfã Luisinha, alojada numa humilde pensão onde um casal idoso lhe dava o acolhimento dispensado a pessoas de família. A Lisboa dos remediados, como o loquaz e vivaço Simplício Costa (António Silva), autor de trocadilhos e brocardos que deixaram rasto no cinema português, incluindo este: “Como é diferente o amor em Portugal!” A Lisboa dos ricos, como a empertigada tia Mafalda (Maria Matos) ou o indolente primo Simão (Santos Carvalho), entrincheirados num ocioso palacete.

A essa Lisboa que parecia parada no tempo bastava a entrada em cena de um aparelho de rádio (a telefonia, como se dizia à época) para alterar hábitos. É num desses serões, à volta da telefonia, que Luisinha/Milu canta um tema que se perpetuou de geração em geração. Composto pelo maestro António Melo (mais conhecido por ser o pianista do programa Museu do Cinema, com público fiel na RTP durante a década de 60) e pelo poeta e dramaturgo João Silva Tavares (1894-1964), autor de letras para fados de Amália e Marceneiro, entre outros.

 

A Minha Casinha tornou-se uma peça icónica da música popular portuguesa, transmitida de pais para filhos, de avós para netos. A minha mãe cantou-ma quando eu era miúdo e já tinha visto o filme na TV. Eu cantei-a à minha filha, tantas vezes a pedido dela, à hora em que se deitava. Talvez ela um dia venha a cantá-la aos filhos que tiver. Como fez a avó do Tim: graças a ela, o vocalista dos Xutos & Pontapés transformou em 1988 aquela canção de embalar numa batida rock, com letra ligeiramente alterada e reduzida à primeira sextilha, dando uma segunda vida à Minha Casinha perante novos palcos e novos públicos.

Foi a melhor homenagem que Milu recebeu nos seus anos crepusculares.

 

A nossa diva começou cedo, retirou-se cedo. Trabalhou em Espanha, viveu oito anos longe do cinema no Brasil, recusou novos convites de Hollywood. Por cá, protagonizou três filmes ao longo da década de 40 (incluindo O Leão da Estrela, outro título inesquecível de Arthur Duarte), cinco na de 50 e apenas um no final dos anos 60.

Continuou a cantar em vários desses filmes, com a sua voz quente e bem colocada, de que nos ficaram vários testemunhos: Quero e Não Quero, Triste e Cru, Sexy, Desperta Lisboa.

Fez bastante, mas podia ter feito muito mais. Eis um enigma que nunca desvendarei: como é que os realizadores portugueses das décadas posteriores à chamada “idade de ouro” do nosso cinema não aproveitaram a sofisticada beleza e a prodigiosa fotogenia desta actriz?

 

Milu voltaria às telas em 1981, pela mão de José Fonseca e Costa, num papel secundário em Kilas, o Mau da Fita que era uma homenagem já quase póstuma à sua carreira, curta mas fulgurante.

Seguiu-se um quarto de século com aparições esporádicas na televisão até o pano cair em definitivo. As notícias da sua morte, em Novembro de 2008, eram breves e lacunares. Infelizmente somos demasiadas vezes assim: ofuscados por lantejoulas, tornamo-nos indiferentes ao brilho que emana das estrelas verdadeiras.

0 comentários em “As canções no cinema (13)”

  1. Vi e revi todos estes filmes, sempre na televisão, e ainda hoje são memórias de tempos bem divertidos.
    Mas ainda melhor do que recordá-los é ler estas evocações que o Pedro aqui faz só para nós, leitores do Delito.
    Muito obrigada, Pedro, e que venha o próximo.
    🙂 Antonieta

    Ah, já me esquecia, adoro esta canção.

    1. Foi uma das primeiras canções que aprendi, Antonieta. Estes textos são também, para mim, uma viagem a alguns dos melhores momentos de tempos passados.
      O próximo tem sotaque brasileiro…

  2. Este seu post fala-me ao coração, Pedro.
    devo o meu nome ao arrebatamento que a Maria Dulce provocou nos meus pais que se apaixonaram pela sua interpretação em Frei Luis de Sousa. Tive oportunidade de conhecer a minha homónima, o que muito me honrou.
    Os filmes portugueses mais antigos, comédias de costumes como o Costa do Castelo nunca irão passar de moda e serão vistos e revistos por geração vindouras. Contam-nos tanto de nós…
    A Minha Casinha, é uma canção adorável em qualquer versão . Prendeu-me logo, desde a voz da inesquecível Milu, até aos Xutos e por aí.
    … Será sempre a Contar vindo do Ceu 🙂 🙂 🙂

    Beijinhos

    1. Pois, Dulce, “A contar vindo do céu” (título do seu blogue) é um verso desta bela canção composta pelo maestro António Melo, hoje tão esquecido. É dele também a autoria musical da excelente ‘Cantiga da Rua’, que encerra este filme, igualmente com interpretação da Milu.
      Tenciono trazer outras canções portuguesas a esta série. É importante variarmos os idiomas.
      Ainda bem que gostou. Um beijinho.

      1. Pensando em retrospectiva, posso considerar- me muito privilegiada . Fui apresentada à magia do cinema pelo meu pai, que sempre me incentivou a ver filmes e programas que deles tratavam. O Museu do Cinema, com o António Lopes Ribeiro e o referido António Melo, prendeu-me muitas horas aos filmes de Max Sennett, Ao Safety Last do Harold Lloyd, naquele mundo encantado a preto e branco onde reinavam as teclas de cores sem cor, cujos tons agudos e graves criavam uma emoção difícil de resistir.

        Nunca conheci a Milu. Gostava de ter conhecido.
        A nossa Amália foi casada em primeiras núpcias com um primo do meu avô. Era uma querida.
        Tenho tido a honra de cumprimentar muito ” famoso” de dentro e de fora fronteiras.
        Tenho muito orgulho em ter conhecido o Manoel de Oliveira e o António Vilar.
        E é um privilégio indescritível poder conversar aqui no Delito convosco, com todos, principalmente consigo, Pedro , com quem me identifico em muitos aspectos. Bem hajam.

  3. Pedro
    Talvez a vida sentimental de Milú também tenha contado nesse Portugal salazarento. E, talvez também, o nascimento de uma filha vítima dessa droga que foi a Talidomida, que lhe causou uma deficiência grave.
    Conheci a actriz e a mulher. Era uma pessoa encantadora!

  4. O resto da canção:

    Tudo podem ter os nobres
    ou os ricos de algum dia,
    mas quase sempre o lar dos pobres
    tem mais alegria.

    De manhã salto da cama
    e ao som dos pregões de Alfama
    trato de me levantar,
    porque o Sol meu namorado
    rompe as frestas do telhado
    e a sorrir vem me acordar.

    Corro então toda ladina
    minha casa pequenina
    bem dizendo o solo cristão;
    “Deitar cedo e cedo erguer
    Dá saúde e faz crescer”
    diz o povo e tem razão

    Tudo podem ter os nobres…

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