KISS (Niagara, 1953)
Kiss, kiss me
say you miss, miss me
kiss me love, with heavenly affection
hold, hold me close to you
hold me, see me through
with all your heart’s protection.
Pode uma canção apaixonar-nos de tal maneira que não exista nenhuma outra? Pode. Aprendemos isso com Marilyn Monroe no mais original film noir da história do cinema: Niagara, realizado por Henry Hathaway contra todas as regras do género. Os thrillers a que costumamos chamar negros decorrem em espaços claustrofóbicos, quase sempre citadinos, e são filmados num hipnótico preto-e-branco cheio de luzes indirectas destinadas a ampliar as sombras.
Em Niagara, rodado em 1952, o veterano Hathaway – que se especializara em westerns e filmes de espionagem – vira as convenções do avesso. Grande parte do filme é passado ao sol, fixado num deslumbrante technicolor que realça as cores primárias e sob o amplo cenário natural das cataratas do Niagara, em paisagens de perder o fôlego.
Marilyn – neste seu primeiro papel como protagonista, reconhecido nos créditos iniciais – é tão exuberante no fulgor dos seus 26 anos como as quedas de água que se tornaram ainda mais célebres após a estreia da longa-metragem, em Janeiro de 1953. “Um fenómeno da natureza, equivalente às cataratas do Niagara ou ao Grande Canyon”, classificou-a o argumentista e realizador Nunnally Johnson.
Poucas definições foram tão exactas.
Dos clássicos ingredientes do film noir, esta película de Hathaway conserva apenas a presença da mulher fatal. Ela mesmo, Marilyn – fatal a vários títulos. Niagara envolve-nos numa atmosfera ominosa mal as luzes se acendem no ecrã enquanto escutamos Joseph Cotten em voz off: “Porque me atraíram as cataratas para este mesmo local às cinco da manhã? Para me mostrarem até que ponto são enormes e até que ponto eu sou minúsculo?”
Pressente-se um estranho determinismo naquelas palavras pronunciadas em tom magoado por um dos gigantes de arte de representar – protagonista de Citizen Kane (Orson Welles, 1941), Mentira (Alfred Hitchcock, 1943) e Duelo ao Sol (King Vidor, 1946), entre outros marcos da Sétima Arte. Cotten representa aqui o papel de George Loomis, ex-combatente da Guerra da Coreia recém-saído de um hospital militar e afectado por aquilo a que hoje chamamos stress pós-traumático.
A guerra foi o menor dos problemas de George. O maior salta à vista de qualquer um e tem nome próprio: Rose, a mulher muito mais nova com quem está casado (na vida real havia uma diferença de 20 anos entre Cotten, nascido em 1905, e Marilyn, que viera ao mundo em 1925). Despontava aqui – tendo como cenário as cataratas, poderosa metáfora sexual – o mito de Marilyn como deusa suprema do erotismo, digna herdeira dos esplendores carnais das telas de Rubens e Botticelli nesse dias em que a palavra anorexia permanecia por inventar.
É ao som de um tema musical deste filme que decorre uma das cenas mais fascinantes que alguma vez vi no cinema.
Anoitece no resort turístico onde Rose e George estão instalados. Há ali uma pequena festa ao ar livre: alguns pares de jovens dançam, entrelaçados. Ela encaminha-se, solitária, ao encontro do improvisado baile e pede ao rapaz da aparelhagem sonora que ponha um disco a rodar.
O nome dessa música já diz muito: Kiss. E o modo como Rose – com um sucinto vestido da cor do nome – canta em cima da trilha sonora, omitindo algumas palavras num voluptuoso silêncio, diz-nos o que faltava saber sobre a personagem. E também sobre o extraordinário mérito desta actriz tão subvalorizada pela crítica bem-pensante. “Nunca conheci ninguém com tanto talento natural para representar”, confessaria Hathaway, que já tinha visto quase tudo e não se espantava com quase nada.
George, enlouquecido, emerge da escuridão do quarto e põe fim à festa, partindo o disco que evoca em linhas e entrelinhas a ligação de Rose a outro homem, muito mais jovem que ele. Havemos de conhecê-lo mais tarde, em circunstâncias trágicas. Mas o mais original nesta cena é a importância do tema musical como sucedâneo da paixão ausente.
Importância reforçada largos minutos adiante quando os acordes de Kiss soam em cadência orgástica nos imponentes carrilhões da Rainbow Tower – evidente símbolo fálico – situada no lado canadiano das cataratas. Aquele som, que funciona como senha de um amor clandestino, pode afinal prenunciar a morte.
Ninguém diria hoje que se tratava de uma típica produção de estúdio, concebida especialmente para este filme por dois dos mais destacados profissionais da 20th Century Fox: o maestro e compositor Lionel Newman (1916-1989) e o letrista Haven Gillespie (1888-1975). O primeiro – onze vezes nomeado para o Óscar e vencedor em 1969 com a partitura de Hello Dolly! – dirigiria o departamento musical da Fox entre 1963 e 1985. O segundo escreveu letras para canções tão célebres como That Lucky Old Sun e Santa Claus is Coming to Town.
Ao contrário do que faria supor o êxito de bilheteira de Niagara, a música passou quase despercebida. O original que podemos escutar no filme é interpretado pelos Starlighters, um grupo de baile que nunca atingiu a celebridade. Logo em 1953, Dean Martin e Toni Arden gravaram versões que mal entraram no ouvido. Kiss só viria a ser redescoberta nos anos 80, quando integrou um CD de recolhas de canções interpretadas por Marilyn em filmes como Os Homens Preferem as Loiras, Rio sem Regresso, Paragem de Autocarro e Vamo-nos Amar. Neste caso trata-se de uma gravação que permaneceu inédita durante cerca de três décadas nos arquivos da Fox.
Todos perceberam só então – tarde de mais – que ela também sabia cantar.
Como a perturbada e perturbante Marilyn que reinou naqueles anos tão fugazes entre os humanos, também Rose neste filme nada oculta. Quando um casal instalado no apartamento contíguo lhe pergunta por que motivo ela gosta tanto daquela canção, a resposta não pode ser mais desconcertante por ter tanto de malícia como de candura: “Não existe nenhuma outra.”
Também não houve outra Marilyn – só pobres imitadoras que sempre empalideceram face ao original. Nem houve outro filme como este, em que o sexo andasse de mão dada com a morte no cenário mais adequado para simbolizar a perpétua luta do ser humano contra as torrenciais pulsões da natureza.
“Take me, darling, don’t forsake me. / Kiss me / hold me tight, / love me, love me tonight.”
Escrevo estas linhas enquanto escuto pela enésima vez a voz de Rose acompanhando os Starlighters, sobrepondo-se a eles, conferindo-lhes um rasto de imortalidade. Nome de flor efémera emprestado a um actriz eterna.
E logo me lembro daquele magnífico verso de Ruy Belo: “Em vez de Marilyn dizer mulher.”

![niagara-movie-poster-1953-1010541293[1].jpg](http://5.fotos.web.sapo.io/i/B8b11c997/18720063_vO0il.jpeg)
Pedro, mais um texto fabuloso desta maravilhosa série, que me atreveria a dizer que é talvez aquela de que mais gosto. Porque conjuga três das minhas paixões: as palavras mais certeiras, os filmes de todos os tempos e as canções da nossa vida. E também porque com ela muito se aprende, relembra, evoca, encanta.
Não vi este filme. Mas fiquei com vontade de o fazer agora. E tenho esta curiosidade: revês os filmes antes de escreveres sobre eles, ou são tudo só memórias? (Só respondes se quiseres…)
Muitos parabéns por isto tudo. Obrigada por partilhá-lo e… venham mais canções do cinema!
Beijinho
Há anos que não vejo este filme, Isabel. Aliás não revi recentemente nenhum dos que tenho mencionado aqui. Isto faz parte das regras do jogo: esta série faz apelo aos mecanismos da nossa memória, sempre subjectivos e por vezes traiçoeiros – mas estimulantes também por isso.
Mas no caso de ‘Niagara’, claro, ajuda o facto de já ter visto o filme três vezes.
Agradeço-te estas palavras tão generosas. Gosto que os colegas de blogue apreciem esta série: no fundo, são vocês os primeiros destinatários de cada texto.
A Isabel fez precisamente a pergunta que já me tinha ocorrido mas não ‘ousei’ fazer (como diria o Woody Allen).
E confesso que pensava que o Pedro revia os filmes ou, pelo menos, parte deles.
E tem razão Isabel, é realmente uma série fabulosa.
🙂 Antonieta
De facto, procuro aqui – acima de tudo – jogar com as impressões e as recordações que os filmes me deixaram, partindo de uma canção como eixo central. ‘Kiss’ é uma canção de que gosto muito. Espanta-me que tenha conhecido tão poucas versões.
(Obrigado, Antonieta, uma vez mais)
” E também sobre o extraordinário mérito desta actriz tão subvalorizada pela crítica bem-pensante. “Nunca conheci ninguém com tanto talento natural para representar””
Estava a representar a ou a seduzir?
Parabéns, Lucky. Pela primeira vez leio um comentário seu que não menciona a palavra esquerda nem a palavra socialismo.
Que boa surpresa, Pedro.
Este é um dos meus filmes favoritos da Marilyn e só lamento nunca o ter visto num écran gigante, pois ter-me-ia sentido mesmo dentro das Niagara Falls.
Para além da Marilyn, sedutora e malévola q.b., da história, dos restantes actores, havia aquelas paisagens de cortar a respiração e que me deram oportunidade de conhecer um local sem nunca lá ter estado: foi uma autêntica visita guiada.
E a canção é fabulosa.
🙂 Antonieta
A sedução da paisagem faz parte integrante da trama, Antonieta. É outro dos motivos do perpétuo fascínio deste filme. Nunca fui a Niagara, nem sinto que precise de fazer esta viagem. Porque já lá estive três vezes: tantas quantas vi o filme. A magia do cinema também por passa por estas viagens que fazemos à boleia dele.
Não conhecia o poema ‘Na Morte de Marilyn’, do Ruy Belo, e fui procurá-lo. Já o li e até o ouvi na voz do Luís Miguel Cintra: um luxo!
Fico-lhe a dever mais uma, Pedro.
🙂 Antonieta
É sem dúvida um belíssimo poema, Antonieta. Ruy Belo era cinéfilo e fez vários poemas inspirado em filmes – ‘Esplendor na Relva’ e ‘No Way Out’, por exemplo.
Esplendor na Relva: um filme inesquecível com a Natalie Wood e o Warren Beatty e também ligado a um belo poema.
Warren Beatty do ‘Heaven Can Wait’, do ‘Reds’, do ‘Bonnie & Clide’ entre outros.
E para quem a Carly Simon escreveu a canção ‘You’re So Vain’ (não sei se já passou por aqui), do álbum ‘No Secrets’, que foi o primeiro LP que comprei com o meu próprio dinheiro.
‘You walked into the party like you were walking onto a yatch…’
Memories of the way I was.
(Aposto que esta canção da Barbra Streisand ainda vai aparecer nesta série).
🙂 Antonieta
‘You’re So Vain’ veio logo no início, Antonieta. Teria passagem obrigatória na fase inicial das Canções do Século. Eu gosto muito da Carly Simon, que também por cá passou com ‘Laura’, ‘Raining’, ‘My Romance’ e ‘Nobody Does It Better’.
A propósito: ‘Laura’ seria candidata a Canções no Cinema se a letra não tivesse surgido só cerca de um ano após a estreia do filme que divulgou a belíssima música homónima de David Raskin. Tal como, por exemplo, a letra de ‘Tempos Modernos’, surgida – com o título de ‘Smile’ – neste caso muito depois da exibição do filme de Chaplin (e a música também é dele, como aliás são as partituras de filmes como ‘Luzes da Cidade’ e ‘Luzes da Ribalta’).
Quanto à Barbra Streisand, também já por cá passou:
“Memories, / Light the corners of my mind / Misty water-colored memories / Of the way we were”
A natureza é deusa, é mulher, é a força , o cálice. Marilyn Era tudo isto é muito mais. A água é vida, a vida é mãe, é beleza e sensualidade, é mulher. Marlins era também isto tudo.
Bom filme , onde a luz é escuridão e música é um sol negro.
Gosto muito da canção.
Too bad, they can’t play it for you now, Rose.
Também gosto, Dulce.
A sequência dos carrilhões e da escadaria é fabulosa nos seus ângulos góticos, digna de um Hitchcock. Aliás há diversos pontos de contacto entre este filme e alguns de Hitchcock – nomeadamente ‘Vertigo’. Embora o realizador britânico preferisse (dizia ele) loiras mais frias do que a escaldante Marilyn.
E o mais engraçado é que algumas das mais famosas loiras do cinema afinal eram morenas: Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Catherine Deneuve (e até as lusas Florbela Queirós e Alexandra Lencastre, muito em voga nos anos 70 e 80).
🙂 Antonieta
Sim. Alguém lhes deve ter dito que os homens preferem as louras…
Em relação à Marilyn está tudo dito ( que grande aldrabice ! – será evocada e adjectivada até ao fim dos tempos…).
Mas quanto ao Cotten, creio que ficará na memória sobretudo por ” O Terceiro Homem – e pela Vali e pelo Anton Karas ( lá está, a música como factor primordial, ou quase…) , e por aquela Viena irrepetível.
Viena ( mas “outra” Viena ) onde, antes do amanhecer…
P.S. Não se ter o sentido do ridículo quanto à “adolescência retardada” dá nisto…
Cpmts e obrigado por estas incursões “down memory lane”
Tem toda a razão quanto ao ‘Terceiro Homem’: eu bem podia tê-lo mencionado, já que é um dos filmes da minha vida. A Viena do pós-guerra (sim, muito “antes do amanhecer”) magnificamente filmada por Carol Reed, magnificamente retratada no guião de Graham Greene, magnificamente relatada pela inconfundível voz do grande Orson Welles no papel de Harry Lime. E, sim, com um grande desempenho de Joseph Cotten no papel de Rollo Martins (sempre achei que, com este apelido, só podia ter ascendência portuguesa) e da bela Alida Valli.
A cena final entre ambos na estrada, no regresso do cemitério, é uma das melhores ‘últimas cenas’ da Sétima Arte. Precisamente ao som da cítara de Anton Karas.
Fica para outra série – de música instrumental no cinema.
Obrigado pela excelente recordação que aqui me trouxe.
Também me recordo dos seguintes filmes do Joseph Cotten:
‘Under Capricorn’ e ‘Shadow of a Doubt’, ambos do Hitchcock e
‘O Retrato de Jennie’ de William Dieterie.
Quanto à Jean Peters, a menina bem comportada do Niagara, não tenho ideia de a ter visto noutro filme.
🙂 Antonieta
A belíssima Jean Peters retirou-se cedo do cinema por ter casado com o milionário Howard Hughes (imposição do magnata, ao que parece). Mas entrou noutros filmes importantes. Destaco, desde logo, ‘Viva Zapata’ ao lado do Marlon Brando.
Pedro
Não me canso de dizer que esta tua série, só ela – a continuar assim -, mereceria figurar num livro sobre a história do cinema.
Como muito bem diz a Isabel, filmes, canções e actores, são peças que quando “encaixam” podem, nas mãos de um bom realizador, dar verdadeiras obras primas.
Este teu texto prova bem como as palavras, quando sábias e bem escolhidas, são capazes de nos fazer perceber melhor – diria sentir – essas mesmas obras primas!
Enquanto gostares prosseguirei a série, Helena. Fica prometido. Sem me cansar de agradecer as tuas generosas palavras de incentivo.