As canções no cinema (1)


Pedro Correia,

 

AS TIME GOES BY (Casablanca, 1942)

 

You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.

And when two lovers woo
They still say “I love you.”
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by.

 

Há filmes que nos ficam gravados para sempre. Mudamos tudo nas nossas vidas: de círculos de amigos, de elos familiares, de trabalho, de profissão, de país, às vezes até de continente. Mas eles acompanham-nos para onde formos e com quem formos. E ressurgem nos momentos mais inesperados: são pequenas luzes que se acendem no interruptor da memória e nos transmitem sinais orientadores. Como se no destino humano também existissem guiões, à semelhança do que sucede no cinema.

Casablanca é um desses filmes. Vi-o pela primeira vez com apenas dez anos, na antiga RTP de um Portugal ainda a preto e branco. E jamais esquecerei o impacto que senti quando o ecrã se iluminou com o rosto radioso de Ingrid Bergman no apogeu da sua singular beleza, desafiando os cânones femininos fabricados em série nos estúdios de Hollywood.

 

É a história de um amor tornado impossível pelas encruzilhadas do destino num mundo mergulhado em guerra. Como qualquer marco angular do cinema, permite múltiplas leituras: há quem o celebre como uma admirável saga de resistência cívica ao totalitarismo, há quem sublinhe as mensagens políticas que ressaltam de tantas entrelinhas, há quem o encare como um tributo ao heroísmo solitário onde nunca se apaga a chama da rebelião.

Eu sempre o valorizei pela sua dimensão mais óbvia: estamos perante uma obra-prima do melodrama – o mais banal e mais inatingível dos géneros cinematográficos, que fez afundar tantas carreiras na Sétima Arte. Obra-prima desde logo pelo fulgor da aparição da belíssima actriz sueca que interpreta o papel de Ilsa Lund, a mulher por quem Rick Blaine (Humphrey Bogart) se prendeu e se perdeu.

Ficou-lhes a memória de Paris, que será deles até à eternidade. E uma canção, que passou a ser também nossa: nunca nos separaremos dela. As Time Goes By.

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Herman Hupfeld (1894-1951), um compositor de segunda linha do teatro de revista norte-americano, jamais sonhou que este seu tema musical – para o qual também escreveu a letra – atingiria tal dimensão icónica, tornando-se uma das maiores senhas melódicas do século XX.

Como tantas vezes sucede, este êxito resultou de um golpe do acaso: muito antes de Michael Curtiz ter realizado Casablanca para a Warner Brothers em 1942, a canção estreou-se numa peça intitulada Everybody’s Welcome que permaneceu em cena na Broadway entre 31 de Outubro de 1931 e 13 de Fevereiro de 1932. Era o único tema da autoria de Hupfeld neste musical, que tinha partitura do jovem Sammy Fain, mais tarde celebrizado por canções para filmes das produções Walt Disney.

No palco, As Time Goes By foi interpretada por Frances Williams. Viria a ser gravada em disco logo em 1932, por Rudy Vallee, um dos mais populares cançonetistas da época, mas não deixou grande rasto até ressurgir uma década mais tarde no cinema, novamente enxertada em partitura alheia – desta vez a cargo de Max Steiner, um dos mestres das pautas da Warner.

 

Na película de Curtiz, era uma canção interdita: Rick proibira o pianista do seu bar de tocar aquele tema que lhe evocava as insuportáveis memórias de um lugar e de um tempo em que se sentira absurdamente apaixonado. A proibição só se quebrou quando Ilsa entrou em cena, rogando a Dooley Wilson que a cantasse. E ele cantou-a enquanto fingia tocar piano no filme (na realidade, quem toca em Casablanca é Elliot Carpenter). Mas é dos lábios da própria Ilsa que escutamos pela primeira vez um trecho deste tema musical que percorre toda a longa-metragem, galardoada com três Óscares em 1943.

“It’s still the same old story / A fight for love and glory / A case of do or die. / The world will always welcome lovers / As time goes by.”

Canção de um fugaz tempo feliz. Canção que nos fala do tempo a escoar-se. Canção que nos ajuda a perceber tudo quanto há de precário no que é eterno e tudo quanto há de eterno no que é precário.

0 comentários em “As canções no cinema (1)”

  1. Vi-o pela primeira vez com apenas dez anos. E jamais esquecerei o impacto que senti quando o ecrã se iluminou com o rosto radioso de Ingrid Bergman.

    O Pedro era um rapazinho extraordinariamente precoce, pois já aos dez anos de idade era sensível à beleza das mulheres.

    1. Engraçado, eu também era uma rapariguinha extraordinariamente precoce pois com menos de 10 anos consegui ‘apaixonar-me perdidamente’ pelo Cliff Richard, pelo Paul McCartney, pelo Little Joe do Bonanza e sei lá por quem mais: era uma criança muito leviana.
      Isso não aconteceu consigo? Estranho…
      Antonieta

    2. A pequenez humana fica bem expressa em certos “comentários”. Nada mais ocorre a certa gente que escrever isto…

  2. Magnífico, Pedro!
    Isto é que eu chamo abrir com chave de ouro.
    Já estou a pensar qual será a próxima, supondo que são só canções ou os temas instrumentais também contam?
    🙂 Antonieta

    1. Obrigado, Antonieta. Espero manter um ritmo regular, mas tudo depende da disponibilidade que tiver.
      Serão apenas canções, com este figurino: cena do filme e uns versos da canção a abrir. Mas canções de filmes que me tivessem impressionado por algum motivo e tivessem contribuído para eu gostar ainda mais desses filmes. Tentando misturá-las sempre com alguma memória pessoal.
      Se incluísse temas instrumentais, talvez tivesse aberto com o ‘Zorba, o Grego’ para condizer com a época. Ou – noutra perspectiva – com o magnífico ‘Verdes Anos’, de Carlos Paredes para o filme homónimo do Paulo Rocha.

  3. Caro Pedro,
    permita-me um correcção ao seu, brilhante – desculpe de assim o catalogar, texto:

    Herman Hupfeld (1894-1951), um compositor de segunda linha do teatro de revista norte-americano, jamais sonhou que este seu tema musical – para o qual também escreveu a letra – se tornasse imortal.

    Porque de facto o é!
    Imortal e associada a duas ideias fortes: o amor impossível entre duas pessoas, e a perseguição pela liberdade!
    Sobre esta última, não deixa de ser caricato que, por via da autonomia dos aviões da época, seja, no filme, personificada em Lisboa – a capital de um país, que à época não a tinha!
    Essas mesmas duas cidades, Casablanca e Lisboa, iriam estar igualmente ligadas por um outro acontecimento aéreo – o primeiro, presumo eu, desvio, hoje seria designado por atentado terrorista, de um avião comercial, em 1961. E qual era o terrorismo que se iria fazer? Lançar-se sobre Lisboa panfletos sobre… a liberdade. Este acto, protagonizado pelo Fernão Mendes Pinto do século XX, Hermínio da Palma Inácio, teve outros corajosos portugueses: entre os quais Camilo Mortágua, pai da deputada Mariana Mortágua – uma possível «Belle toujours» se o Pedro assim o entender!

    Aproveitando a sugestão dos dois primeiros comentários, permita que me associe a eles e alargue o brinde… à liberdade!

    1. A anti-fascismo “, real ou meticulosamente cultivado como panegírico (e cumpre saber se houve de facto “fascismo”, tal como histórica e cientificamente definido, no regime inquestionavelmente autoritário e rapidamente anacrónico denominado Estado Novo), não será por si só – não deveria ser, quarenta anos depois de Abril de 1974 – um selo de inquestionável probidade.

      Alguma prudência seria talvez interessante antes de beatificar (canonizar?) politicamente pessoas cuja vida afinal talvez não seja, ou não tenha sido, um inatacável repositório de abnegação, virtudes e sacrifícios.

      Quanto ao mais, sim, a liberdade merece todo o louvor, toda a luta para sua garantia. Até para professar a admiração por pessoas que, tivessem podido (ou venham a poder) chamar a si o poder, da liberdade teriam uma muito peculiar concepção. Da liberdade dos outros, claro.

      E onde evidentemente – e como é próprio desses regimes pastoreados por “vanguardas revolucionárias” e estruturas afins – não faltaria, entre pais da revolução e seus dilectos filhos, uma elite próspera, culta, viajada, bem vestida, bem maquilhada, enfim: cosmopolita, belle toujours (ou toujours belle ). Uma elite bem fechada, considerando-se inquestionável na sua existência e seus fundamentos, e vicejando à conta da vasta massa de formiguinhas operárias implacável e laboriosamente mantidas nessa condição.

      Costa

      1. “A liberdade merece todo o louvor”, eis o essencial. Quanto ao resto, nem só de política vive o homem. Por isso mesmo eu quis escrever este texto. Porque há mais vida para além da política.

        1. Há mais vida para além da política, seguramente, e ainda bem. Aliás a política deveria ser, creio, um instrumento para garantir a melhor qualidade a essa vida que está além, antes e depois, dela. E onde sempre deverá pontificar a liberdade. Infelizmente não é isso o que a nossa geração tem podido testemunhar, antes testemunhando o exercício da política largamente como um fim em si mesmo.

          A simples evolução – mais a reboque, temo-o, do que por mérito próprio, de uma Europa onde nos integrámos – melhorou muitíssimo por cá, nas últimas décadas, os indicadores pelos quais se afere a qualidade de vida de uma sociedade. Por via desse reboque, diria, quase como uma inevitabilidade, bem mais do que por obra dos políticos e da política deixada nas suas mãos.

          Esses e essa sabemos o que fizeram: continuou-se metodicamente o desígnio nacional de despovoamento do interior, fomentou-se o caos urbano, destruíram-se obedientemente recursos e actividades económicas, acarinharam-se empresas de regime (verdadeiras incubadoras e confortáveis centros de repouso, conforme a circunstância, da clientela do regime) e seus regimes de favor iníquos, criou-se um vasto grupo flutuando em descarado bem-estar, de menos claro alicerce e onde o mérito de pais ou senadores da democracia se confunde com a venalidade de seus insaciáveis parasitas. Arruinou-se o país a benefício dos bolsos clientelares. Impunemente.

          Mas sim, a democracia, o regime da liberdade, mesmo que arrastando o lastro desta política, continuará a ser o pior regime, à excepção de todos os outros.

          O Pedro Correia saberá que não foi o seu excelente texto, inaugurando o que espero venha a ser uma longa série por aqui, que me motivou a escrever o que acima deixei. Antes o breve mas inflamado panegírico que vi ser feito a figuras que no passado não terão sido tão impolutas como a historiografia ainda dominante insiste em nos apresentar e que no presente e no futuro, levando a delas avante, e por muito tentador que seja o seu discurso, nos encaminhariam para um admirável mundo novo fielmente seguidor da distopia que a literatura consagrou.

          Mas cá está: é próprio da democracia, da liberdade, dar voz também a essas manifestações deletérias.

          Costa

          1. Cá estou de novo, aplaudindo o mérito das pistas de reflexão que aqui nos traz e a concordar consigo no essencial. Incluindo na discordância com opiniões que nem por isso deixam de merecer idêntico acolhimento neste blogue sempre variado e sempre plural.
            Quanto à série, já lá está outro texto mais acima. Se depender apenas da minha vontade, terá vida longa. E espero que proveitosa para os leitores que me vão acompanhando.

  4. Um dos filmes que vi em pequena com o meu pai, que era louco pela Ingrid Bergman. Não tenho ideia de alguma vez o filme ter passado na TV antes e até depois do meu meu pai, que o filme não se reveja cá em casa. Cantávamos todos “As time goes by”, cantávamos todos a Marselhesa e lembro-me de que o meu pai vibrava tanto como os actores. No fim já sabíamos que vinha a costumeira palestra sobrea a guerra, o Salazar, Lisboa, Marrocos, o Cairo…
    Quando preciso de chorar, tenho um lote de filmes da minha escolha, que ajudam a lavar as mágoas e no fim nos deixam um sorriso de esperança. Este é um deles.
    Excelente começo para uma nova série que se prevê brilhante e melodiosa, Pedro. Agradeço estas memórias da minha vida.
    “here’s looking at you kid” 🙂

    1. É um filme cheio de frases imortais e personagens inesquecíveis:
      «Prendam os suspeitos do costume.»
      «Ele está a olhar para ti, miúda.»
      «Toca, Sam.»
      «Este é o princípio de uma bela amizade.»

  5. Já que, num comentário colocou a hipótese, poderia ter começado estas sessões clássicas com o «Mudar de Vida», a música desse príncipe chamado Carlos Paredes, um filme que Jorge Silva Melo evocou como «ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.»
    Não é que discorde de «As Tome Goes By», diga-se.
    Se entendeu começar os textos destas sessões clássicas, com alguns versos das canções escolhidas, existem versos para a música de Paredes: um poema de Pedro Tamém:

    O Poema Possível

    Era o amor
    que chegava e partia:
    estarmos os dois
    era um calor
    que arrefecia
    sem antes nem depois…
    Era um segredo
    sem ninguém para ouvir:
    eram enganos
    e era um medo,
    a morte a rir
    nos nossos verdes anos…

    Teus olhos não eram paz,
    não eram consolação.
    O amor que o tempo traz
    o tempo o leva na mão.

    Foi o tempo que secou
    a flor que ainda não era.
    Como o Outono chegou
    no lugar da Primavera!

    No nosso sangue corria
    um vento de sermos sós.
    Nascia a noite e era dia,
    e o dia acabava em nós…

    O que em nós mal começava
    não teve nome de vida:
    era um beijo que se dava
    numa boca já perdida.

    1. Ora viva. É um gosto vê-lo novamente por cá (e logo me lembro daquele romance de que tanto gostei, de Budd Schulberg, e sobre o qual ando há anos para escrever).
      Conheço bem o poema de Pedro Tamen, que casa de forma perfeita com a música de Paredes. E gosto imenso dessa magnífica crónica de Jorge Silva Melo, que ainda há dias reli em livro.
      Acontece que o poema surgiu após a música ser já conhecida. Ainda não surge no filme do Paulo Rocha, em que escutamos apenas a “voz” da guitarra de Paredes.
      ‘Verdes Anos’ terá, portanto, de vir numa série dedicada à relação entre o cinema e a música instrumental (com as partituras de Nino Rota para ‘La Dolce Vita’, de Anton Karas para ‘O Terceiro Homem’, de Mikis Theodorakis para ‘Zorba, o Grego’, de Francis Lai para ‘Um Homem e uma Mulher’, e um imenso etc…)
      Abraço.

      1. No imenso etc. eu destacaria estas:
        -Ry Cooder ‘Paris, Texas’
        -Michael Nyman ‘O Piano’
        -Maurice Jarre ‘Dr. Jivago’ e ‘Lawrence da Arábia’
        -John Barry ‘África Minha’
        -Gustav Mahler ‘Morte em Veneza’
        -G. Gershwin ‘Manhatten’
        -Leonard Bernstein ‘West Side Story’.
        Quanto às canções:
        -Somewhere over the Rainbow
        -If I were a Richman
        -New York, New York
        -Moon River
        -Cabaret
        -Raindrops keep falling on my Head
        e o Singin’in the Rain, que já vi que é o nr. 2 desta série e vou agora ler.
        🙂 Antonieta

        1. … E acaba de me dar ideia para o número 3, Antonieta.

          A alusão a Gershwin deu-me outra ideia: uma futura série com inclusão de trechos de música clássica em filmes célebres. Como o Concerto para Clarinete e Orquestra, de Mozart, no ‘À Bout de Souffle’, de Godard.
          Fica na agenda.

          1. Ou o Bolero de Ravel no ‘Les uns et les autres’; ou a Nona do Beethoven no ‘A Clockwork Orange’ (curiosamente na banda sonora deste filme também entra o ‘Singin’in the Rain’).
            Enfim, temos muito pano para mangas…
            🙂 Antonieta

          2. Sim, Antonieta: isso dá mesmo outra série, bem interessante.
            Com ‘Assim Falou Zaratustra’ e o ‘Danúbio Azul’, no ‘2001: Odisseia no Espaço’. E a ‘Sinfonia Fantástica’, de Berlioz, no filme ‘Dormindo com o Inimigo’, com a Julia Roberts. E ‘A Dança das Horas’, de Ponchielli, na fabulosa ‘Fantasia’, de Walt Disney (e lá estão também o ‘Quebra-Nozes’, de Tchaikovski, e um andamento da ‘Pastoral’, de Beethoven). E a ‘Tocata e Fuga’, de Bach, n’ ‘O Crepúsculo dos Deuses’. E o ‘adagietto’ da 5ª Sinfonia de Mahler na ‘Morte em Veneza’. E a Sinfonia nº 7 de Bruckner no ‘Senso’, também de Visconti…
            Enfim, esta série promete. Assim não me falte tempo para cultiva-la.

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