As canções das vidas deles


Pedro Correia,

 

O El País  pediu a cem músicos hispano-americanos que escolhessem as cem canções que mudaram a vida de cada um. Lá vieram publicadas este domingo, na revista El País Semanal. Deste júri faziam parte nomes bem conhecidos, como Alejandro Sanz, Ana Belén, Buika, Joaquin Sabina, La Oreja de Van Gogh, Raphael e Víctor Manuel. Faltaram portugueses e brasileiros, o que não espanta num jornal madrileno, para o qual o conceito de ‘hispano-americano’, pelos vistos, se esgota nos falantes de castelhano. E ainda há quem garanta que a Espanha já não padece de macrocefalia…

Mas voltemos às escolhas. Entre os dez mais, curiosamente, apenas três temas em espanhol. O primeiro lugar cabe a uma canção eterna, cantada em francês por um belga que era cidadão do mundo: Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel. Seguem-se God Only Knows, dos Beach Boys, Help, dos Beatles, Como El Agua, de Camarón de la Isla, e Mediterráneo, de Joan Manuel Serrat. Os Beatles voltam a ser mencionados, nas posições nº 6, 8 e 9 – com A Hard Day’s Night, A Day in a Life e Strawberry Fields Forever, respectivamente.

O top ten fica completo com There is a Light That Never Goes Out, dos Smith, e La Leyenda del Tiempo, do repetente Camarón de la Isla.

As décadas de 60 e 70 são as principais fornecedoras de canções nesta lista de sucessos memoráveis. Com temas que marcaram esses anos em que se gritava “Amor e Paz”: California Dreamin’ (Mammas & Papas), Bridge Over Troubled Water (Simon & Garfunkel) e Fortunate Son (Creedence Clearwater Revival). Bob Dylan, outro nome fundamental dessa época, surge bem representado, com Like a Rolling Stone, Blowin’ in the Wind, Don’t Think Twice, It’s Alright e Knocking on Heaven’s Door. Mas a fatia de leão cabe mesmo aos Beatles: além dos já mencionados, a selecção inclui Twist and Shout, In My Life, Rain, Yesterday, Helker Skelter e I Saw Her Standing There – acrescidos de dois temas de John Lennon, Imagine e (Just Like) Starting Over.

 

Não há Pink Floyd, nem Genesis – nem sequer os Rolling Stones. Bruce Springsteen surge apenas com Thunder Road. Madonna é ignorada. Muito pior: Frank Sinatra só tem direito a um tema solitário – Strangers in the Night. Elvis Presley é mencionado, mas Rock Around the Clock, o hino fundacional do rock n’roll, está ausente, tal como In the Mood, o mais emblemático som do swing. E se apesar de tudo surpreende a menção a Carlos Gardel (com Volver, 15º lugar) e Edith Piaf (com La Foule, 30º), a maior das críticas que há a fazer a esta escolha do El País é a omissão quase total do jazz. Com excepção de Round Midnight, do grande Theolonius Monk (55ª posição), nada mais surge. Alejandro Sanz e tutti quanti nunca terão ouvido falar em Ella Fitzgerald e Billie Holiday?

 

Amália? Carlos do Carmo? José Afonso? Paredes? Mariza? Camané? Madredeus? Inútil prosseguir: espantosamente, não há um só português nesta ambiciosas lista assim apresentada na capa da revista de domingo do El País: "Cien músicos hispano americanos eligen las 100 canciones que cambiaran  su vida." Mas os brasileiros têm quase tanta razão de queixa: estão apenas representados por Eu Quero ter um Milhão de Amigos, de Roberto Carlos (70º lugar). Alguém percebe a exclusão de Caetano, Chico Buarque, Vinicius, Tom Jobim, João Gilberto, Elis, Milton, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Maria Montes? Estão ao nível de Julio Iglesias: ninguém os mencionou.

Se músicos como Glenn Miller, Benny Goodman, Miles Davis, Bill Evans ou Charlie Parker ficaram de fora, e todo o fantástico reportório do musical norte-americano também (Over the Rainbow, Singin’ in the Rain…), alguns temas instrumentais acabam por figurar nesta selecção das cem melhores canções divulgada pelo El País, o que não deixa de ser surpreendente. Temas como Almoraina, de Paco de Lucía (27º lugar), ou Atlantis, dos Shadows (75º). Raras fugas ao previsível numa lista muito decepcionante.

10 comentários em “As canções das vidas deles”

  1. Ficaste espantado por o ‘hispano-americano’ ser só castelhano? Não sei se ainda apanhaste um programa diário na Rádio Macau, do Johnny Reis, que durou vários anos e se chamava «Música Latino-Americana». Este título fez-me sempre espécie: tirando a música chinesa, praticamente tudo o mais é latino-americano…

    1. Eheh. Fizeste-me recuar uns bons anos com esse comentário, João. Lembro-me ainda desse programa do Johnny Reis na Rádio Macau, e dele num conjunto (era assim que se chamava) que actuava ao vivo nos bailes macaenses do Hotel Lisboa, nas noites de sábado. Frequentei vários desses bailes, que eram autênticos filmes… ao vivo.

        1. Restaurante Portas do Sol. Entrávamos lá e viajávamos no tempo, recuávamos à década de 50, à era das ‘big bands’. O Stanley Ho passava por lá as vezes para um pé de dança.

  2. A vida de uma pessoa ser mudada por um Twist and Shout? Custa mesmo a acreditar que se trate de alguém que regule bem da cabeça.

  3. Sempre pensei que hispano-americano se referia aos falantes de castelhano, assim como luso-americano se refere aos falantes de português. Ibero-americano refere-se a todos.

    1. O seu esclarecimento foi precioso. Fiquei assim a saber porque é que o ‘hispano-americano’ Roberto Carlos figura nesta lista e os ‘luso-americanos’ Caetano, Chico, Milton, Jobim, Vinicius, Dick Farney, João Gilberto, Milton, Elis, Bethânia, Gismonti, etc, ficaram esquecidos.

      1. Pedro, não é um esclarecimento, é uma observação.Nunca me lembrei de incluir músicos portugueses ou brasileiros no conceito hispano-americano. Latino-americano (ou ibero-americano) sim e sempre me irritou que os espanhóis usassem o latino-americano para se referirem apenas aos falantes de castelhano.

        Não li o El País Semanal, fui pelo que o Pedro escreveu, que no tal júri hispano-americano faltaram portugueses e brasileiros.

        Whatever…

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