As canções da minha vida (7)


Pedro Correia,

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THE SOUND OF SILENCE

1964

 

Para os melómanos, 19 de Setembro de 1981 tornou-se uma data com lugar garantido na história. Nessa noite, meio milhão de pessoas acorreu ao Central Park, em Nova Iorque, para assistir à reunião de duas figuras cimeiras da música folk-rock norte-americana, ícones da década de 60 enfim reunidos após anos de uma zanga que parecia insuperável: Paul Simon e Art Garfunkel.

O enorme sucesso do espectáculo – retransmitido por canais de televisão em vários continentes, incluindo a RTP – prolongou-se no disco Concert in Central Park e apresentou a uma nova camada de adolescentes, então a despontar para a música, este duo que naquela década dera ao mundo diversos temas tornados hinos de uma geração: Mrs. Robinson, Homeward Bound, Scarborough Fair, Late in the Evening, The Boxer, Old Friends, America, Bridge Over Troubled Water.

 

Acompanhei o concerto enquanto telespectador. E logo me rendi ao fascínio das canções entoadas por aqueles dois antigos colegas do ensino secundário com jeito para a música que começaram por formar um duo chamado Tom & Jerry. E em 1957 tiveram até um fugaz êxito discográfico, intitulado Hey Schoolgirl.

Simon e Garfunkel, ambos hoje com 75 anos, fizeram apenas seis álbuns com temas originais, entre 1964 e 1970. Mas foi quanto bastou para marcarem a música popular norte-americana e inscreverem os nomes na galeria dos imortais. Paul Simon é, na justa opinião do parceiro, “um dos maiores escritores de canções de todos os tempos”. Enquanto Art Garfunkel se destacou sempre pela sua magnífica voz.

 

A sexta cantiga que Simon escreveu chamava-se originalmente The Sounds of Silence e foi gravada em Nova Iorque, a 10 de Março de 1964 – três meses após o assassínio do presidente John Kennedy, com a América ainda mergulhada num pesado luto. Reza a lenda que Simon gostava de compor na banheira, de luzes apagadas, com a casa de banho a funcionar como câmara de eco. Ali lhe terão surgido os dois primeiros versos: «Hello darkness, my old friend, / I’ve come to talk with you again.»

Mal imaginava que em menos de dois anos, graças ao decisivo impulso dos programas radiofónicos, aquele tema andaria nas bocas de milhões de jovens. Mas isto só aconteceu à segunda tentativa, quando já se chamava The Sound of Silence. Com o som no singular.

A primeira – ainda com o título original e acompanhada apenas por duas guitarras acústicas – foi um fracasso, ao ser inserida no álbum de estreia do duo, Wednesday Morning, 3 AM. Lançado em Outubro de 1964, o disco só vendeu duas mil cópias e o single dele extraído também não atraiu ninguém.

No ano seguinte, tudo mudou. Melhorou o título e melhorou o acompanhamento, quando o produtor discográfico Tom Wilson – à revelia de Simon e Garfunkel, entretanto regressados à universidade – convocou para o estúdio os músicos que tinham acompanhado Bob Dylan na gravação de Like a Rolling Stone, introduzindo bateria e guitarras eléctricas no novo registo sonoro do tema, com três minutos e cinco segundos de duração, misturando-o com a prévia gravação das vozes.

 

The Sound of Silence despedia-se do acústico original. 

O público aplaudiu: o single relançado em Setembro de 1965 disparou nas vendas. Em Janeiro de 1966 ascendeu enfim ao top norte-americano, disputando-o ao longo desse mês numa renhida luta com We Can Work It Out, dos Beatles.

Dois anos depois, a canção registava nova vaga de sucesso ao figurar em destaque na banda sonora do filme The Graduate [A Primeira Noite], galardoado com o Globo de Ouro para melhor filme de 1968 e com o Óscar para melhor realização (atribuído ao cineasta Mike Nichols). O álbum, que abre e encerra com The Sound of Silence, liderou a lista das vendas discográficas nos EUA entre 6 de Abril e 25 de Maio de 1968, e novamente de 15 a 28 de Junho.

 

Ainda hoje custa a crer que um jovem com 21 anos criasse um tema com a qualidade musical e a complexidade poética desta bela trova, tão actual hoje como há meio século – magoado grito de revolta contra um mundo cada vez mais povoado de gente incapaz de comunicar.

«And in the naked light I saw / Ten thousand people, maybe more / People talking without speaking / People hearing without listening / People writing songs that voices never share / And no one dared / Disturb the sound of silence.»

 

0 comentários em “As canções da minha vida (7)”

  1. “Ainda hoje custa a crer que um jovem com 21 anos criasse um tema com a qualidade musical e a complexidade poética desta bela trova”

    Não vai lá com a Escola Pública não, isso é garantido.

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