As canções da minha vida (2)


Pedro Correia,

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SUMMERTIME

1935

 

Já não me recordo qual foi a primeira vez que a ouvi. Mas sei bem que me prendeu para sempre. Com aquela toada dolente e melancólica – cantiga de embalar inspirada em espirituais negros, memória musical de uma América sulista ainda com ecos da escravatura.

É impossível ficar indiferente ao sortilégio desta canção composta pelo inigualável George Gershwin (1898-1937), talvez inspirado nas melopeias eslavas que a mãe Rosa, imigrante russa transplantada para Brooklyn, lhe entoava no berço.

Summertime é o mais inesquecível trecho da ópera Porgy and Bess que Gershwin, no auge da sua fama como compositor, estreou em Outubro de 1935 na Broadway. E a partir daí ganhou asas, adquirindo expressão própria: tornou-se um inconfundível standard de jazz, interpretado em mais de 25 mil versões oficialmente registadas ao longo de oito décadas de história da música norte-americana em múltiplas vozes – de Billie Holiday a Norah Jones, passando por Janis Joplin. Sem esquecer a notável versão dos Sheiks em Portugal (1965).

 

Stephen Sondheim elegeu-a como a mais bela canção de sempre – não apenas pela hipnótica partitura do judeu novaiorquino mas também pelos versos de DuBose Heyward (1885-1940), autor do romance Porgy (1925), no qual a ópera se inspirou, e do libretto de Porgy and Bess, em parceria com Ira Gershwin (1896-1983), irmão de George. Poema e pauta combinam na perfeição, sugerindo a languidez estival a que alude a palavra inicial. Precisamente a que dá origem ao título.

Holiday foi a primeira a gravá-la com sucesso, em Setembro de 1936. Mas ninguém a interpretou de forma tão calorosa e envolvente como Ella Fitzgerald, num dos melhores álbuns que a história discográfica já registou: Porgy and Bess, em dueto com Louis Armstrong, que também canta além de nos propiciar o luxurioso som do seu trompete.

Escuto uma vez e outra o CD – e é sempre como se fosse a primeira vez. São 4 minutos e 58 segundos de pura arte musical, gravados em Agosto de 1957. No ano seguinte Porgy and Bess saltaria enfim do teatro musicado e do disco para o cinema, com o filme homónimo de Otto Preminger interpretado por Sidney Poitier, Dorothy Dandridge, Sammy Davis Jr, Pearl Bailey e Diahann Carroll. Um elenco só negro, por imposição de Ira Gershwin, detentor dos direitos da obra. Anos antes recusara a ridícula sugestão de Harry Cohn, patrão da Columbia Pictures, de rodar o filme com Fred Astaire e Rita Hayworth maquilhados de afro-americanos.

 

Dou por mim inúmeras vezes a trautear Summertime. Seja para celebrar os dias estivais, seja para antecipá-los. Crente como Ruy Belo que “é triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”.

Conheço-me bem: é sempre bom sinal.

 

«Summertime / And the livin’ is easy / Fish are jumpin’ / And the cotton is high // Your daddy’s rich / And your mamma’s good lookin’ / So hush little baby / Don’t you cry // One of these mornings / You’re going to rise up singing / Then you’ll spread your wings / And you’ll fly to the sky.»

 

0 comentários em “As canções da minha vida (2)”

  1. Boa tarde.
    Existem três ou quatro músicas, para mim excepcionais, que me recordam sempre a fase linda da vida em que estava a muito pouca distância temporal de começar a trabalhar, a vida activa. A que o Pedro magistralmente recorda, é uma. Outra, a mais famosa do desaparecido “Procoll Harum”, A Whiter Shade of Pale. Outras, logo a seguir em 70, que ouvi quase diariamente durante a comissão de serviço na Guiné em 71, as maravilhosas (para mim) canções da Carole King.
    António Cabral

    1. Cruzar canções com memórias pessoais é precisamente o objectivo desta série, caro António Cabral.
      Vou deixá-la prosseguir ao sabor da minha inspiração momentânea e das músicas que me forem “visitando”. Algumas delas talvez sejam as que menciona.

  2. E tudo isto é irrelevante, absolutamente irrelevante, para as gerações que há que “educar” nos “Got Talent”, cheios de maneirismos, histerias e espontaneidades programadas (e suponho que o programa em causa seja, afinal, do melhorzinho que se arranja), de boné com a pala para trás, calças descaídas e vocabulário residual.

    De modo que reduza-se a carga horária do que (não) é essencial: raciocinar, saber ler e falar, saber apresentar uma ideia na justa medida em que se pretenda fazê-lo, saber ter e saber passar uma ideia. Ter vontade de a ter, enfim.

    Coisas perigosas.

    Costa

  3. “Holiday foi a primeira a gravá-la”.

    A primeira gravação data de 19 de Julho de 1935, em ensaios, com Abbie Mitchell.

    Há outra gravação em Outubro de 1935, alguns dias depois da ópera estrear, com Helen Jepson.

    Holiday foi a primeira a pôr a música nos tops.

  4. “São 4 minutos e 58 segundos de pura arte musical, gravados em Agosto de 1958”.

    Gravados em 1957 (18 de Agosto).

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