As aspas. E as desaspas.


jpt,

Em 1994 trabalhei na África do Sul, aquando das primeiras eleições democráticas. Não chateio os visitantes do blog com as memórias de tão belo momento. Apenas refiro o quanto gostava (e se gostava) de Mandela, naquilo de ele apelar à “nação” “arco-íris”. Que se suplantasse as chagas do segregacionismo racial. Mas também que se obstasse ao “tribalismo”, aos perigos das divisões entre gentes com tantas diferenças como as existentes entre os “capetonians” (termo já de si tão ambivalente) e os do Cabo Oriental, ou de Venda ou Kwa-Zulu Natal ou o então Transvaal, depois Mpumalanga. O quase-infinito carisma de Mandela, a placidez pragmática de Mbeki, os recursos existentes, com toda a certeza, e alguma sorte alquímica, vieram dar continuidade à “nação”. Até hoje. 

Segui para Moçambique. Onde há rivalidades regionais, com recorrentes invectivas ao maior controle sulista dos recursos. Mas onde os discursos que pedem maior descentralização e até, por vezes, dinâmicas federativas, são desconfiados, com receios que erupções “tribalistas”, esse “obscurantismo” até letal sempre possível devido às tamanhas diferenças internas, religiosas, históricas, culturais, económicas, linguísticas.

Visitei Luanda, que não Angola, pois não se podia viajar, dada a guerra, falhado que havia sido o processo de paz. Uma guerra oriunda do processo de constituição do país mas muito alimentada pelas divisões “tribais” existentes no país. Nessa época um dos meus grandes amigos, colega também, seguira para o Ruanda, onde durante dois anos teve funções de grande responsabilidade. Quando nos cruzávamos em Lisboa, naqueles tempos pré–email, note-se, sem telemóveis nem facebuques, narrava, marcado como estava, a desgraça que encontrara, aquele morticínio genocida, o propalada fruto do “tribalismo” obscurantista. Demencial.

Segui à Bósnia-Herzegovina, logo após a guerra. Cujos efeitos eram tão marcantes. Espantando-me face ao quanto horror era possível entre gente indiscernível – o mesmo aspecto físico, as mesmas roupas, a mesma língua, a mesma laicidade, o mesmo pós-comunismo. Sim, diferentes igrejas, sim, raízes eslavas, sim, expansionismo germânico (e, antes, império austro-húngaro), sim, império otomano. Há uma maior historiografia? Então não há “tribalismo”, nem mesmo “etnicidade”. Passa a ser “nacionalismo”. E era o que se dizia. Coisa mais moral, menos obscurantista. Mais justa, pois justificável. Mesmo que tão sanguinária.

Por essa época Berlusconi chegara ao poder, de facto durante a minha estada na África do Sul, que bem lembro o desespero dos colegas italianos naqueles dias eleitorais italianos. E nesse período a vontade de fraccionar a Itália, aquela Liga do Norte, não  “tribalista” nem “nacionalista”, pois por ali não havia uma “nação” que verdadeiramente sedimentasse a vontade comum. Era dita um “regionalismo”. Pouco benquisto alhures, pois os seus arautos muito de extrema-direita, avessos a estrangeiros, nestes integrando os de outras áreas do país, menos desenvolvidas. De facto, mero artíficio para captar recursos e obstar às solidariedades internas ao país. 

Voltei para Moçambique. Quase duas décadas. Depois a família seguiu para o peculiar reino belga. Não havia governo, uma situação estranha. E onde há grande seccionismo, devido ao “nacionalismo” neerlandês, flamengo como gostamos de dizer. Também pouco benquisto, pois os neerlandeses são os mais-ricos do país, depois de terem sido os camponeses pobres dos valões, dizem os simplificadores da história. E agregam-se hoje em partidos de extrema-direita, no governo do país, finalmente arranjado, muito pouco atreitos à  chegada de (mais) estrangeiros. E ao uso de outras línguas. Em particular o “estrangeiro” francês. Mescla de xenofobia e de construção artificiosa para controlo de recursos. Ou seja, um “nacionalismo” algo imoral(izado). 

Agora aqui ao lado o “nacionalismo” catalão. Louvado. Porque natural, inscrito na história. Não é “tribalismo” pois, como sabemos, os brancos, mais evoluídos, não têm tribalismo, qu’isso é coisa de pretos. Não é “regionalismo” xenófobo e elitista, nem um “nacionalismo” artificioso, que o partido que o defende não se reclama de extrema-direita. É um nacionalismo sem aspas, verdadeiro. Essencial, pois corresponde à história dali, ao sentir visceral do povo dali. Entenda-se, de esquerda.

E um tipo aprende. Não sobre os processos sociais. Apenas, sempre apenas, sobre os locutores. E, francamente, a idade não traz apenas a mouquidão. Traz também, por tudo isto, o apreço pelo silêncio.

 

 

14 comentários em “As aspas. E as desaspas.”

  1. Como dizia o outro: “não acredito nem em racista, nem em xenófobo, nem em nacionalista, nem em tribalista, nem em esquerdista, nem em direitista, …”, mas que os há, lá isso há.
    Indetectáveis ao som dos violinos. Resurgem ao resoar dos canhões.

  2. o Barça teve de jogar sem público.
    o que faz de conta que existe são as sobras da Catalunha
    devem reivindicar o Rossilhão

  3. A vontade pela independência catalã é anterior ao dualismo esquerda/direita. É centenária.É uma questão nacionalista que levaram alemães e italianos a unir-se e portugueses a separar-se do Reino de Castela e Leão. Assim como parte dos irlandeses a separar-se dos ingleses….assim como todos os países que surgiram pósIGG com a dissolução de impérios despoticos multinacionais….com a independência das colonias….todo eles queriam mandar na sua casa e falar nela a sua língua. Ditar as suas leis e não que de fora lhas impusessem….

    Mas pronto lá vem a ladainha do comunismo…..

    1. Tem razões sobre a história catalã. Mas, como julgo que é compreensível no texto que alinhavei, não é sobre a Catalunha que escrevo.
      Quanto ao resto lembro-me, no meu parco conhecimento sobre XIX e acima XX, que o comunismo a que alude ser mais internacionalista do que nacionalista – mesmo com o rombo da I Guerra Mundial.
      Em registo de adenda, e nisso aludo também no texto, é muito complicado falar de maneira linear sobre os países pós-II Guerra Mundial. Mas, mais uma vez, o que me interessa é o que se diz, não o que aconteceu. Porque é, se me posso fazer explicar, a la carte. Como em quase tudo.

        1. Depende, e é essa a questão que me ocupa aqui, do ponto de tomada de vista: de facto para os dos países africanos estes foram criados a la cantina – comam do que há e calem-se. E acha-se muito bem e até louvável (desenvolvimentista e pacifista q.b., para seguir o Livro do Pantagruel adequado) que assim seja.

  4. Também não compreendo o apoio cego das esquerdas ao nacionalismo interesseiro que se vive na Catalunha.
    Não sei porquê, mas este empenhamento da extrema-esquerda, na “libertação”, pela independência, daquelas gentes do reino da Espanha, fez-me lembrar o tempo em que as nossas esquerdas defendiam, para Portugal, o regime então a vigorar na Albânia, sendo que alguns desses lunáticos perigosos ocupam hoje, no nosso País, lugares de destaque no meio político.

    1. Como disse em comentário acima é tudo a la carte. O problema é a disseminação da ideologia dos restaurantes, o malvado domínio do cardápio. A velha cantina deveria ser recuperada. Isto de chegar e comer o que há talvez mudasse algo das mentalidades.

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