As 41 horas e o descrédito


André Couto,

O Primeiro-ministro falou 6.ª feira, às 19h30, e o Secretário-geral do PS demorou 41 horas a reagir. Pelo caminho todo o discurso de crítica foi feito e até o próprio “Pedro”, o carniceiro arrependido de não ter sido humano pelo menos na forma, teve tempo para temperar o tom do seu discurso.

 

Bacelar Gouveia, destacado militante do PSD, vaticinou “que o Governo pode vir a ser responsabilizado civil e criminalmente”. Bagão Felix, independente ligado ao CDS, afirmou “que o Governo deu machadada final no regime previdencial, por promover o aumento das contribuições dos trabalhadores para a Segurança Social quando há uma redução dos benefícios”. D. Januário, pela Igreja Católica, em nome de quem falou, como frisou, disse que este era um “ataque atroz aos trabalhadores”. Até Marcelo Rebelo de Sousa pareceu ser o líder da oposição.

António José Seguro só veio a terreiro no final da manhã de domingo, quando todo o discurso de oposição estava feito e já se recolhiam as trouxas na feira das reacções. Pior, aparece para declarar que o PS não será cúmplice, sem nunca sequer pronunciar as palavras “chumbar” ou “votar contra”.

 

O que está em causa não são amendoins, é insistência numa receita que generaliza o desespero e a pobreza, quando não a miséria. É o atropelo do Tribunal Constitucional e o marimbar na oposição e nos parceiros sociais. É a redução do salário mínimo, entre tantas outras reduções. Perante isto o PS não se pode limitar a dizer, 41 longas horas depois, que não será cúmplice.

 

Com estes obscenos factos e números, deveria ter sido anunciada uma moção de censura ao Governo. Se o cenário actual não o justifica, o que o justificará? O PS tem de liderar as intervenções e o debate, tem de sair para a rua e tem de dizer, aritmeticamente, o que faria de diferente, coisa que continua sem fazer, para seu descrédito. O PS tem de ser a imediata caixa de ressonância do sentimento e receio da população, tem de ser o rosto da oposição, a alternativa forte e credível instalada no terreno e no debate. Ao PS não pode bastar dizer que não será cúmplice, tem de afirmar o democrático punho esquerdo a lutar pelo Povo assustado. É o seu dever, um imperativo histórico e a única salvação que vislumbro para o País.

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27 comentários em “As 41 horas e o descrédito”

    1. jaa, tem de saber, não há outra opção. De qualquer forma há no PS quem saiba, tenho a certeza, isso tem transparecido em alguns debates na televisão. Um abraço!

  1. Sinto verdadeiramente que o PS abandonou politicamente o país, os seus trabalhadores. Não há, não pode haver, qualquer jogada política que faça o líder do PS, por “inerência” o líder da oposição, de abandonar desta forma os trabalhadores. Perante o ataque mais vil, mais desgraçado, a quem trabalha por conta de outrém, não pode AJS ficar calado todo um fim de semana. Se não quer entrar em confronto político com PPC, (será por serem amigos?) então nada está a fazer como secretário geral do PS. Aliás como se explica, seja que pasta for, seja que assunto for, que apenas no PS fale e muitas das vezes são declarações de circunstância, sem qualquer conteúdo, o líder parlamentar? Os únicos que ainda vejo a contestar de forma concreta este governo, são deputados ligados ao antigo governo e de certa forma proscritos por este sec. geral.
    Está António José Seguro de acordo com o empobrecimento forçado dos portugueses?
    Está António José Seguro de acordo com mais este brutal aumento de impostos?
    Qual a posição de António José Seguro sobre os novos escalões da tabela de IRS que se avizinham?
    Qual a posição de António José Seguro sobre o que este governo está a fazer à educação em Portugal?
    Qual é a posição de António José Seguro sobre as tão faladas e nunca concretizadas reformas da Justiça?
    E sobre a reforma autarquica?
    e sobre as diversas privatizações que aí vêm?
    Quais são as propostas alternativas que o PS tem para oferecer aos portugueses?
    Termino como comecei.
    Sinto verdadeiramente que o PS abandonou politicamente o país, os seus trabalhadores.

    1. “Qual é a posição de António José Seguro sobre as tão faladas e nunca concretizadas reformas da Justiça?”

      Não é possível reformar verdadeiramente a Justiça com a Constituição actual.

      1. JAA, faça-se então como disse o anterior patrão de PPC, Ilídio Pinho. Se algo está no caminho pois que se mude! Mais a sério, era óptimo que o problema da justiça se resolvesse com a alteração da constituição.
        Podiamos começar por exemplo por criar uma comissão de inquérito que avaliasse todos os contratos de assessoria firmados com os grandes escritórios de advogados… ahh mas espere é que muitos deputados fazem parte desses mesmos escritórios! Então mas espera aí… agora reparei então mas esses deputados intervieram directamente na produção legislativa que depois foi utilizada pelos escritórios aos quais pertenciam? Por vezes em acções contra o Estado?
        Não… devo estar enganado, isso numa democracia não ia acontecer.
        Mas JAA, não ligue que eu hoje estou como o outro, com uma raiva a nascer-me nos dentes, e aproveito aqui para desabafar.

        1. Nem mais, Tiago.
          A propósito partilho a minha experiência. Como sou Autarca não posso exercer porque, supostamente, há o perigo de angariação de clientes. Já os Deputados à Assembleia da República podem, parece que no caso deles não há esse perigo… Lol! Uma anedota. Um abraço.

      2. jaa, é possível reduzir prazos de decisão e obter ganhos de eficiência. Isso ficou provado com o Citius no tempo de Alberto Martins e João Tiago Silveira.
        Em última análise podem aumentar-se os recursos humanos. Claro que uma reforma de fundo é desejável, em alguns aspectos, mas não implica que não se actue desde já. Um abraço.

    2. Compreendo o sentimento, Tiago Cabral. Também o tenho, embora não tão exacerbado. Acho que há perguntas que fez às quais o Secretário-geral do PS já respondeu, embora a Comunicação Social não lhe tenha dado grande destaque. De qualquer forma, em grande medida, concordo consigo.
      Um abraço!

  2. O PS como uma espécie de salvação do país é muito bom. Eu por acaso acho que nunca deveria ter saído do governo. nesta altura estaríamos todos e o país muito mais a salvo. Aliás, prova mais visível de que o PS é a salvação está em Paris. Salvou-se bem salvo.

    1. Rui Miguel Galrinho,
      Duvido, sinceramente, que chegássemos a este ponto. Mais não seja porque o PS, mesmo quando teve de cortar, nunca o fez desta forma cega e sempre sobre os mesmos. Houve o cuidado de distribuir os sacrifícios e de lhes dar progressividade.
      Deixe-me que lhe diga que piadas sobre Paris no estado em que estamos são bastantes mais hilariantes no que diz respeito a quem as profere, do que propriamente no conteúdo. Estes é que estão a governar bem, não é? Lol!

  3. PS- Seguro- Zorroinho & Comp.

    Acreditar nas boas intenções e competência para a salvação da Pátria… É o mesmo que acreditar na reabilitação do mais habilidoso e latoso “burlista” saido da cadeia…

    É por isso, que não nos indicam caminhos… Têm vergonha dos 6 anos passados no país das maravilhas!

    1. Caro am,
      Eu acredito na “reabilitação do mais habilidoso e latoso burlista saído da cadeira”. Não acreditar nisso é descrer no sistema penal e em toda a humanidade.
      Vergonha é analisar com parcialidade e má fé os bons resultados daqueles 6 anos em inúmeros indicadores, não diminuindo os maus, ou sequer tentar comparar acções que foram justas e proporcionais socialmente, com esta chacina que se verifica hoje.

  4. Em geral concordo com o seu post. Apenas dois reparos: por um lado, o PS nunca assumiu as responsabilidades que lhe cabem, e são muitas, na situação que estamos a viver, e isso sim teria sido um imperativo histórico; por outro, não apresenta alternativas porque não as tem, para além de pedir mais tempo e mais dinheiro! O que é que se pode esperar da dupla Seguro/Zorrinho?

    1. Alexandre Carvalho da Silveira, obrigado pelo seu comentário. Discordo em dois pontos:
      (1) O PS assumiu essas responsabilidades que refere, tanto que viabilizou o Orçamento de Estado para 2012 e o Novo Código do Trabalho, ambos documentos que vão contra o seu património histórico e ideológico, para além de irem mais longe que o próprio Memorando e Entendimento.
      (2) Pessoalmente gosto de Carlos Zorrinho. Acho que, tendo em conta as circunstâncias internas e externas, tem feito um bom papel. Não se esqueça que teve de ser o rosto de sucessão a Sócrates/Assis, que teve de lidar com a responsabilidade que o PS tinha, com algumas dissonâncias internas, com a obrigação de ser oposição, com a crise, entre outras coisas. Não vislumbro que alguém pudesse gerir esta conjuntura melhor do que ele fez.
      Um abraço!

  5. O PS e a sua actuação como único caminho para a salvação do país?

    Essa gente, que – sem a culpa exclusiva, mas com uma culpa verdadeiramente decisiva, absoluta e proporcionalmente gigantesca: aquela que nos levou à irreversibilidade – nos “governou” da forma criminosa como o fez, quando todos os sinais indicavam à exaustão a evidência do que viria a seguir?

    Essa gente, cujos cabecilhas continuam a viver principescamente no estrangeiro, ou por cá a escarrar sobre nós barbaridades como se tivesse ontem chegado a este país, à sombra da impunidade parlamentar?

    E há gente capaz de escrever um texto com uma conclusão como a deste?

    Sendo que muito provavelmente o PS voltará a ser poder num futuro não muito distante. Porque o povo português sempre revelou uma sólida tendência para a estupidez, uma firme vontade de ignorar a realidade (veja-se a reeleição de Pinto de Sousa) e uma impenitente vontade de se submeter a quem lhe prometa o paraíso na Terra.

    Costa

    1. Costa,

      Tendo em conta os resultados e a censura moral que se pode aplicar a à actuação do actual Governo. Tendo em conta que o BE não parece ser, por agora, alternativa ao que quer que seja, uma vez que nem a sua casa mantém orientada. Tendo em conta que o PCP é o PCP e nunca aceitaria responsabilidades governativas. Qual, para além do PS, pode ser a salvação para o caminho que trilhamos?

      É estulto o discurso que faz recair apenas sobre o anterior Governo a culpa do Estado do País. Tenho para comigo que o anterior Governo teve uma acção bem mais meritória que os que o antecederam, mas teve um problema: a crise internacional.

      Quanto à reeleição de José Sócrates a única coisa que lamento é que o seu adversário não tivesse sido Passos Coelho. A haver um Governo de direita, qualquer candidato, até Manuela Ferreira Leite, seria melhor opção.

      1. Será então a verdade uma estultícia, meu caro. Os desgovernos de Pinto de Sousa não tiveram toda a culpa, mas tiveram-na muita e com absoluto descaramento. Tiveram desde logo a grande culpa de, chegada a situação ao extremo a que chegou, absolutamente óbvio, prosseguirem na linha em que prosseguiram: a festa absoluta, descarada, para os seus apaniguados e quem vier depois que se dane.

        De duas uma: ou houve pura e simples má-fé, dolo descarado na actuação, visando o enriquecimento farto e imediato, sabendo – e conformando-se com isso -, de que tal seria o golpe final no país; ou tratou-se de uma situação de delírio, de insanidade, de patologia, de recusa da realidade (porque estulta, a realidade, será?), de imposição de um mundo paralelo. Muito conveniente em dado período.

        Porque o PS e Pinto de Sousa – se não tiveram a culpa toda e até, di-lo você, foram melhores do que muitos (e foram-no, só que para si e para mim em campos diferentes; para mim tornaram o clientelismo e a venalidade do baronato e hostes menores do PSD em verdadeiros jogos florais…) – deveriam então ter tomado as medidas cruciais para corrigir os erros do passado. Eu sei que não daria votos, mas pelo seu raciocínio era o que deveriam ter feito. Ora o que fizeram foi apenas mudar os beneficiários de um estado sem pingo de vergonha e concebido para favorecer os que, no momento lá estão. Mudar os destinatários e aprofundar essa concepção deletéria do estado.

        Foi um festim da velha máxima: para os nossos amigos tudo, para os nossos inimigos nada, para os outros cumpra-se a lei.

        Quanto ao mais, tem razão: à esquerda do PS não há alternativa. Sabe-se disso há décadas, menos cá onde essa esquerda tem uma dimensão absurda num país do primeiro mundo (o que diz muito sobre este povo). Entregue-se então a solução ao PS? Ou seja recompense-se o criminoso devolvendo-lhe o poder?

        Isso é uma espécie de síndrome de Estocolmo, meu caro. Que aliás o PS tem vindo sabiamente a fomentar (eles são “profissionais” naquilo em que se metem, sim senhor).

        Mas não me serve. O meu masoquismo tem limites e o facto de não ter eu solução para o problema, não me impede de apontar a existência do problema. E que o rei (de momento um tal Seguro) vai absolutamente nu.

        Costa

  6. Acho piada as pessoas fazerem comentários como se o nosso país fosse muito rico e tivesse inúmeras alternativas para sair deste atoleiro. Meus caros, nós estamos falidos e tivémos que pedir esmola de rastos, sujeitando-nos sem condições. Ou isso, ou morríamos de fome.
    O PS faz o quê? Então não é um dos principais responsáveis pelo estado actual do nosso País? O que é que faria de diferente, se estivesse no Governo? Nada. AJS apenas tem ainda um pingo de vergonha e não vem a terreiro berrar contra tudo porque não se esqueceu que foi o próprio partido que negociou com os truca-truca-truca. Neste aspecto, denota seriedade e sentido de honra ao não entrar no campo da politiquice e da memória curta. Talvez não tenha ainda muito jeito para ser um verdadeiro político, porque lhe falta descaramento e ainda lhe vão sobrando alguns escrúpulos, o que, como toda a gente sabe, são pecados mortais num político de carreira.

    1. Mário Roque, o nosso País é muito rico, felizmente. Sol todo o ano, uma ZEE gigante, uma localização estratégica à entrada da Europa, com emigrantes espalhados pelo mundo, entre outras riquezas. A questão é a forma como a sua riqueza foi e é gerida. Esse é o cerne do problema.

      Se decisões danosas foram tomadas, que se encontrem os responsáveis. Quem foi? Não sei. Só sei que não foi a gente que recebe o salário mínimo, aquele que acabou de baixar na 6.ª feira. Continue sentado no sofá embrenhado na sua compreensão sobre o que se passa. Logo, logo, seremos um País melhor e entraremos nos eixos. Enfim…

      Um abraço!

    1. Sem dúvida, Leonor.
      Está mais que visto que eles irão tão mais longe quanto maior liberdade sentirem para isso. Com uma oposição frouxa ou centrada no PCP, que é o mesmo, e com o Povo assustado em casa, não há impedimento a que vilipendiem a Constituição, o Património do Estado e tudo o que lhes aprouver…

  7. Se bem me lembro o Seguro era o lider do PS que o PSD queria.
    Aliás Seguro é aliado do PSD desde muito antes de ser lider do partido.

    Portanto as “abstenções violentas” e as frases da treta são para continuar. Aliás, Seguro e Coelho são farinha do mesmo saco, não vale a pena mudar um pelo outro.

    Portanto, ou o PS se organiza (o que não parece possivel a breve prazo) ou a oposição será liderada por outros …talvez o BE.
    Quando chegarmos ai, é que vão ver o que significa ser “Grego”.

    Tanto guru que escreveu sobre as visrtudes da troika, do psd, do Coelho de tudo…desde que não fosse o Sócrates. E o resultado é este.
    Essa maralha que tantas responsabilidades quer imputar aos outros devia agora pedir desculpas publicas e abandonar os poleiros publicos de onde debitam postas de pescada durante..5 anos. Pelo menos.

    miguel

  8. Você tem jeito para política, só conversa da treta para explorar as emoções, então esta é de morrer a rir: “É o atropelo do Tribunal Constitucional” Quando foi para aumentar impostos durante estes anos todos nunca houve preocupação com igualdade, aliás nem há hoje, igualdade seria rotatividade dos funcionários publicos por todos os portugueses.

    O único sumo, a única de jeito: “tem de dizer, aritmeticamente, o que faria de diferente.”

    Não o fará, aliás é coisa que nem este Governo ou a Troika faz. Estão todos à espera do milagre do crescimento. Nenhum deles – e muito menos a esquerda- abandonou o desejo do crédito fácil.
    Por isso é que estão sempre falar de regressar aos mercados. Crédito e mais Crédito…

    Como dizem os ingleses: pipe dream…

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