‘Artitectura’: os mal-amados (16)


jmmcc,

Palais Bulles, em Théoule-sur-Mer,

Cannes (Côte d’Azur, França)

O Palais Bulles é sobranceiro à baía de Cannes, em Théoule-sur-Mer, uma comuna francesa que pertence aos Alpes Marítimos, em plena região administrativa da Provença-Alpes-Côte d’Azur. Foi concebido pelo arquitecto finlandês Annti Lovag, pioneiro (nos anos 70) das chamadas casas-bolhas em ferrocimento, que permitem deixar de lado as divisórias verticais e respectivos ângulos e, supostamente, dão azo a um design de interiores mais flexível.

 

Trata-se de uma habitação com múltiplos corpos e desníveis que começou a ser erguida em 1975 para um industrial milionário, com 1200 metros quadrados de área de construção e 8500 metros quadrados de arvoredo, jardins e piscinas, tudo enquadrado pelas escarpas envolventes.

Porém, o industrial morreu antes da sua conclusão e a obra parou. Quem acabou por se chegar à frente, na década seguinte, foi o italiano naturalizado francês Pietro Cardin, mais conhecido como o estilista de alta-costura Pierre Cardin. Comprou a propriedade por 50 milhões de francos, em 1989, e ainda teve intervenção na adaptação do projecto e no evidente sublinhado da excentricidade a seu gosto.

Com o complexo terminado, Pierre Cardin passou a viver aí grande parte do ano e a receber muitos amigos, instalados principescamente nas amplas alas da casa. Começou também a aproveitar a propriedade para uma cintilante apresentação anual de novas colecções da sua cobiçada marca, na presença de muitas estrelas convidadas e não menos cobiçadas.

Há vários casos de habitações de idêntica concepção um pouco por todo o mundo e talvez outros exemplos ainda venham a esta série, como um que já aqui passou (v. Arquitectura: os mal-amados – 3), mas nada com a grandeza e extensão do Palácio Bolhas (é de supor que soe melhor em francês…) e a sua associação a Cannes, Cardin, Côte d’Azur, etc., nomes que deixam os olhos a brilhar e que geram naturais hesitações aos críticos.

É possível que isso justifique as palavras cautelosas dos poucos que se atrevem a tecer considerações “levemente” mais ousadas, do género “parece uma coisa de outro mundo” e “talvez não seja do mais bonito que há, mas ninguém recusaria passar lá uma temporada”. Claro que não, porque é enorme, possui todo o conforto e a praia e o mar estão logo ali, depois do imenso portão.

Como palácio pós-modernaço, está suficientemente bem implantado para que a vizinhança (afastada) pudesse chamar-lhe mal-amado — e os convidados ainda menos. Mas sofre de todos os inconvenientes das bolhas: àquela ideia peregrina sobre a flexibilidade do décor interior opõe-se a óbvia dificuldade (ou melhor: impossibilidade) de encaixar mobiliário, equipamento e adereços que acompanhem as paredes (imaginem só a colocação de uma cama, do frigorífico ou de um quadro).

Já quanto ao arquitecto Annti Lovag pode contrapor-se o nosso Mestre Afonso Domingues: uma bolha em ferrocimento (apoiada por uma quantidade de paredes internas, por muito arredondadas que sejam) deve ficar um bocadinho aquém de uma abóbada gigantesca há seis séculos.

Em suma: o projecto é mais difícil do que juntar uns quantos balões, mas convenhamos que parece mais simples do que erguer mosteiros abobadados. De resto, na bela costa sul francesa há mais algumas moradias do género e o próprio Lovag tem uma casa-bolha na região, só que está à venda há uns tempos…

 

 

29 comentários em “‘Artitectura’: os mal-amados (16)”

      1. Olá J.C. !…risos
        Tens razão é uma coisa absolutamente horrível, as casas bolha, mas existe aquela pessoa de quem falamos ontem que certamente iria adorá-las!!!!

  1. O Pedro Coimbra já disse. Devia estar com a bolha, o tal do arquitecto!

    No meio disto tudo nem são os arquitectos que mais me espantam: dão-lhes corda eles “inventam”. Espanta-me a eterna necessidade de certas pessoas darem nas vistas através do quanto mais bizarro melhor, numa acentuação da diferença pela superficialidade do que mostram.

    [Grande trabalheira que estes post lhe devem dar, digo eu…]

    :))))

  2. – Boa tarde. Este é o Palácio das Bolhas?
    – Sim, perfeitamente.
    – Tem quartos livres?
    – Quartos não, mas, sim, temos bolhas disponíveis.
    – Certo, mas o que eu procurava era mesmo um quarto…
    – Desculpe, mas podemos saber a razão dessa preferência de V. Exa.?
    – Sabe, é que eu já venho acompanhado da “bolha especulativa”…

  3. O finlandês devia ser fã dos igloo, mas estes estão um bocado fora de sítio. Apesar de tudo podia ser pior, não? Imagine as bolas num projecto do Arq. Taveira… 😉

    PS: Folgo com o regresso de uma das minhas séries favoritas! 🙂

    1. Nem vou permitir que a minha imaginação perca tempo com quaisquer bolas que possam estar relacionadas com o Taveira, por causa das coisas.

      (Em resposta ao seu simpático e irresistível apelo, saiba que este n.º 16 lhe é particularmente dedicado. O tom rosa geral dá um toque feminino demonstrativo de apreço. Como sabe, há o rosa velho, o rosa parolo, o rosa socialista, etc., mas este é especial: é o rosa geral. Eheh…)

  4. Pronto, cheguei. Fui comentando outros posts pelo caminho, mas cá estou nas tuas magníficas bolhas. Olha, esta bolha cor-de-rosa seria uma moradia muito adequada ao nosso primeiro ministro, que já vive numa da mesma cor, mas com pior vista.

    (gosto muito desta tua série, vê lá se me dedicas também uma bolha um dia destes…)

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