Arteirices


Sérgio de Almeida Correia,

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“Aquilo que digo é aquilo que sempre disse – e que tive oportunidade de dizer na comissão de inquérito ao BES (Banco Espírito Santo): que os contribuintes não serão chamados a cobrir qualquer prejuízo com este processo. Isso cabe ao Fundo de Resolução.“

 

“É verdade que há um banco público (CGD – Caixa Geral de Depósitos), que faz parte dos bancos do sistema, mas isso decorre da existência de um banco público, que é um banco igual aos outros em termos de direitos e obrigações para esta matéria. Em todas as outras questões, os contribuintes não serão chamados. E no caso da CGD é uma via indire[c]ta, que decorre do facto de o banco ser público.” – Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças

 

A senhora ministra também pode dizer de dedo espetado que os alunos das universidades portuguesas não pagam propinas, que não têm que se preocupar com o seu valor porque quem paga não são eles, são os seus pais. Qualquer aluno, por muito cábula que seja, mesmo um jotinha, sabe que isso não é verdade. E se perder o ano, sendo um aluno e filho minimamente responsável, ficará envergonhado perante os pais. Porque sabe que o dinheiro dos seus pais, se não tiver sido roubado nem caído do céu, lhes custou a ganhar, saiu-lhes do pêlo para que as propinas fossem pagas e ele pudesse frequentar a universidade. E sabe que esperavam que ele também tivesse correspondido ao esforço que fizeram.

Por isso, declarações como as transcritas só são boas para serem aplaudidas nos comícios da Universidade de Verão. Lá é que a senhora ministra pode fazer dos outros parvos, ser aplaudida em cada frase que profere, dar a volta à praça e sair em ombros.

Na vida real não é assim. Directa ou indirectamente, o dinheiro vai sair do bolso de sempre. Umas vezes é pescado pela mão direita do contribuinte, de outras pela sua mão esquerda. Depende das legislaturas. Mas às vezes o dinheiro é-lhe retirado antes de entrar na conta bancária, antes de lhe chegar ao bolso, sem que lhe tenha sido perguntado se está disposto a pagar. E, às vezes, até depois do primeiro-ministro lhe ter dito que podia ficar tranquilo. É este o caso.

0 comentários em “Arteirices”

  1. E não é só, nem principalmente, através da CGD que os contribuintes vão pagar. Os bancos privados também vão ser prejudicados, terão menos lucros e, por isso, pagarão menos IRC. E, para compensarem os prejuízos, esses bancos aumentarão os spreads e comissões que cobram aos seus clientes, os quais são virtualmente idênticos aos contribuintes.

    1. Na sua linha de raciocínio os contribuintes também PAGAM quando a minha empresa em vez de ganhar 10, ganha apenas 5… Uma coisa é o contribuinte ser chamado a pagar uma despesa diretamente assumida pelo estado, outra totalmente diferente é ser afetado indiretamente pelo impacto negativo que toda esta situação teve e tem na economia…. não sou laranja mas ainda consigo distinguir uma coisa da outra…

      1. ser afetado indiretamente pelo impacto negativo que toda esta situação teve

        1) Os cidadãos não vão ser “afetados negativamente”, eles vão PAGAR. “Afetado negativamente” é um eufemismo.

        2) Estamos aqui a falar do impacto negativo, não da falência do BES, mas sim da solução peculiar que foi encontrada para essa falência. Ou seja, não estamos a falar do impacto negativo de uma “situação” (outro eufemismo), mas sim do impacto negativo de uma decisão política (tomada pelo Banco de Portugal e/ou pelo Governo, isso não me interessa agora). O que eu estou a dizer é que a política seguida para resolver a falência do BES vai fazer com que eu pague mais comissões enquanto cliente de outro banco, pague spreads maiores enquanto cliente de outro banco, e pague mais impostos para compensar a baixa no IRC pago pelos outros bancos.

  2. Como hienas esfomeadas, muitos “comentadores e políticos, oram para que a venda do NB termine num fracasso…

    Como gostariam! Seria para eles um autentico “vigra” para a campanha eleitoral!

  3. Chego ao ponto de me perguntar qual ganharia o concurso das “arteirices”, só sei que estou farto e cansado de me virem ao bolso e, uma última notícia que li até me agonia… com o dinheiro, dos outros, é tudo muito simples… porque mais tarde, se faltar, podem sempre vir “sugar” mais:

    Diário Económico – Há 1 hora :
    “Câmara de Lisboa cria fundo de 2ME para apoiar refugiados que venham para a cidade
    “Este é o momento de responder à crise humanitária e este é o momento de agir”, vincou Fernando Medina, presidente da autarquia.”

    Não votei neste senhor mas, estupidamente e futilmente, no outro que foi tratar da vida dele e cá ficam os tolos para pagar, tudo o que lhes passar pela cabeça… e, se eu não conseguir pagar mais IMI, ainda acabo na rua e, ainda arranjam maneira de usar as casas despejadas para abrigar (gratuitamente) refugiados.
    Países europeus que vejo estarem cada vez mais esquecidos dos seus próprios cidadãos.
    A minha empatia subiu para com os carneiros… cortam-lhes o pelo, comem-lhes a carne e rapam-lhes os ossos.

  4. Assoma-me, assim ao pensamento e num primeiro momento, movido pela indignação e perante o ‘ror de dinheiro em causa – logo com o cérebro a operar naquele modo que Kahneman descreve como systema 1- uma alarvidade de “boys” socráticos:
    ” E isso, aliás, vale muitos votos! Essa m… em subsídios de desemprego…”

    (A boa noticia é que um desses “boys” é o número 4 por LX, e predestinado a cadeira de topo em ministério em caso de “vitória!” – assim se assegura que a Republica não se queda sem émulos de Relvas ou do Big MAC, ou de Lellos e Varas)

    Passando para o systema 2, falha o concatenar da coisa – MLA refere que “os contribuintes não serão chamados a cobrir qualquer prejuízo “
    Depois refere-se analogicamente que é o mesmo que fazer crer a alunos que afinal não pagam propinas – são os paizinhos, ou padrinhos, os patronos, etc que pagam (“saiu-lhes do pêlo”) esperando retorno na forma de bons desempenhos como alunos. Nunca tal ouvi, mas provavelmente é curta a minha capacidade de entendimento da plausibilidade da coisa analogica…

    Criticas a “substâncias” ditas em comicios, em Universidades de Verão, em Summer Camps, ou em sessões de respostas de internautas com directos no “You Tube”, são facilmente partilhadas. Mas neste caso, MLA repetiu o que disse desde o Verão Passado, inclusive na comissão de inquérito ao caso BES – não me parece que seja uma erupção comicieira em busca de aplauso – sei lá, do tipo “usar portagens para financiar a Segurança Social”.

    O últmo paragrafo é enfim o culminar da catacrese com convergência para (pobre) metáfora a ver se pega para o malho no PM por algo que não ocorreu – os depositantes BES viram, ao longo deste processo, sempre salvaguardados os seus depósitos.
    O resto, como jurista, e com profundo respeito com situações de alguns ‘lesados’ ou mesmo, no caso de imigrantes, podendo antecipar abuso de confiança na alocação de depósitos, é algo do dominio da regulação, e mais provavelmente de tribunais e mesmo policia.

  5. São luxos de quem gosta de ter um banco publico que tem sido um sorvedouro do dinheiro dos contribuintes. Em todo o caso eu esperaria pelo fim do processo para tirar as devidas conclusões.
    O desejo que tanta gente exibe nos media de que este processo acabe com prejuízos para o estado, porque assim atingem o governo e o governador do Banco de Portugal, é doentio, para não lhe chamar estúpido.
    Esquecem-se de um pequeno pormenor: tanto o governo como o governador do BdeP estão de passagem, mas os prejuízos ficam. Para nós todos pagarmos.
    E esquecem-se de outra coisa: a resolução do BES, processo inédito na zona euro, foi imposta pelo BCE. Se calhar o BCE irá apoiar o Fundo de Resolução com o dinheiro que faltar usando um daqueles empréstimos a perder de vista e com uma taxa de juro de amigos, porque o BCE não pode permitir que todo um sistema bancário se afunde para salvar um banco que também acabará por ir ao fundo com os outros.

  6. É estranho ver pessoas chateadas com o que vão pagar pela CGD quando nunca ficaram chateadas por aumentos de capital da CGD no passado…

    Nunca protestaram ser accionistas forçados.
    Agora ficam irritados, mas tiram conclusões sobre o poder que um Estado tem ao ter um Banco? E o que isso diz da sua ideologia?
    Não, mais uma vez querem comer a fatia do bolo e continuar a ter o bolo.

  7. Se Maria Luís entende que os contribuintes não serão chamados a cobrir prejuízos, recomendo-lhe que faça um exercício linear sobre a afectação de todos esses montantes no PIB e na consequente carga fiscal que se origina pela retracção de consumo mais a despesa que implica pelos efeitos da retracção e depois nos informe sobre os números que alcançou.
    Depois, diga-nos também quais foram os montantes provisionados pelos bancos para perdas futuras e o impacto que terá na matéria colectável.
    Se entender que a perda em matéria colectável também não é prejuízo público, então recomendo que adicione tais perdas à (não) amortização do serviço da dívida e da dívida e bata tudo como claras em castela e diga-nos em que estado fica o bolo.

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