Saint-Exupéry, Naipaul e Lampedusa
Dizia alguém que toda a literatura de excelência se resume a uma grande viagem. Desde a Odisseia, de Homero. Embora essa viagem possa ser feita à volta de um quarto. E pode até expandir-se para além do nosso planeta, como antecipou Verne. Ou em vez de ser no espaço, como nos ensinou Proust, pode ocorrer no tempo.
Os livros de viagens ocupam uma parte considerável da minha biblioteca. Desde logo, os guias e roteiros — com os da American Express e da Lonely Planet em maior número. E obras que nos fazem amar uma cidade ainda antes de a conhecermos, de que é exemplo esse fabuloso livrinho de Ruy Castro intitulado Rio de Janeiro — Carnaval no Fogo.
Como sempre gostei de mapas, antigos e modernos, tenho vários atlas. Conservo até o primeiro que me ofereceram, ainda em miúdo: o Grande Atlas Universal da Verbo.
Aliás o maior livro cá de casa é um atlas — Comprehensive Atlas of the World, editado pelo Times, de Londres. Maior não pelo número de páginas, apenas 220, mas pela altura: 46 centímetros, o que me obriga a mantê-lo deitado. Posição cómoda para ele mas incómoda para quem gostaria de não o guardar num lugar à parte.
Logo a seguir são os álbuns de viagens, pela sua dimensão, a ocupar maior espaço, exigindo figurar nas prateleiras mais altas. Trago sempre álbuns de todos os países e cidades além-fronteiras por onde tenho passado. Porque as viagens bem sucedidas ampliam-se invariavelmente através dos livros.
Tenho também o hábito de trazer álbuns dos museus que visito no estrangeiro. O Prado, o Louvre, a National Gallery de Londres, o MoMA de Nova Iorque, o Musée d’Orsey, de Paris, o Kunsthistorisches Museum de Viena, o Museu Nacional de Estocolmo…
Mas as melhores viagens literárias ocorrem sempre nas páginas dos grandes autores. De avião, em Voo Nocturno, de Saint-Exupéry. De barco, em Tufão, de Conrad. De comboio, com Jack London, em Vagabundos Cruzando a Noite. À boleia, com Jack Kerouac, em Pela Estrada Fora. Ou até de balão, com Júlio Verne.
Verne foi talvez o autor com quem mais viajei. Pelo menos nos seguintes livros, que tenho já devidamente arrumados e catalogados:
– A Carteira do Repórter
– A Estrela do Sul
– A Ilha Misteriosa
– A Mulher do Capitão Branican
– A Volta ao Mundo em 80 Dias
– As Aventuras de Três Russos e Três Ingleses
– As Índias Negras
– Aventuras do Capitão Hateras
– Cinco Semanas em Balão
– Clovis Dardentor
– Da Terra à Lua
– Em Frente da Bandeira
– Miguel Strogoff
– O Bilhete de Lotaria nº 9672
– O Castelo dos Cárpatos
– O Farol do Cabo do Mundo
– O Náufrago do Cynthia
– O Tio Robinson
– O Vulcão de Ouro
– Os Filhos do Capitão Grant
– Os 500 Milhões da Begum
– Um Herói de 15 Anos
– Uma Cidade Flutuante
– Viagem ao Centro da Terra
– Vinte Mil Léguas Submarinas
Vou a Tânger com Paul Bowles (O Céu que nos Protege), a Amesterdão com John Irving (A Porta no Chão), a Lima com Vargas Llosa (Conversa n’ A Catedral), a Barcelona com Vásquez Montalbán (Os Mares do Sul), a Cuba com Hemingway (O Velho e o Mar), a Dominica com Jean Rhys (Vasto Mar de Sargaços), ao Haiti com Greene (Os Comediantes), ao Congo com Naipaul (A Curva do Rio), à África do Sul com Coetzee (Desgraça), à Riviera francesa com Fitzgerald (Terna é a Noite), à Sicília com Lampedusa (O Leopardo), à floresta amazónica com Ferreira de Castro (A Selva), ao sul dos Estados Unidos com Harper Lee (Por Favor não Matem a Cotovia) e Carson McCullers (Coração, Solitário Caçador).
Atlas, roteiros de viagens, guias de cidades, álbuns de museus: de tudo isto também se faz uma biblioteca.
E agora viajo convosco musicalmente até ao Japão. Ao encontro do inimitável Ryuichi Sakamoto.
Sayonara. Até amanhã.




Na “Viagem a Portugal” (na sua estante e também na minha) Saramago diz:
«A Felicidade tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles».
Ultimamente tenho viajado mais através dos livros.
Voltei à Madeira através dos olhos do Paul Bowles no seu livro “Viagens”. Eu que só o conhecia do “The Sheltering Sky”, que deu um magnífico e esquecido filme do Bertolucci, com o Malkovich e a Debra Winger.
No “Viagens e Outras Viagens” do Tabucchi
voltei ao Cabo Sounion na companhia da Sophia.
E ainda ontem andei pelo Prado e depois por Lisboa, também com o Tabucchi no “Jogo do Reverso”
Um luxo, e sem sair de casa!
Antonieta
Acho excepcional essa frase de Saramago. Em poucas palavras diz tudo quanto há a dizer de essencial sobre este tema. Algo que só é possível num grande escritor. ‘Viagem a Portugal’ é um dos mais preciosos livros da minha biblioteca (eis outra série, para tempos futuros).
É como diz, Antonieta: quando os escritores são bons, viajar com eles é sempre um prazer. Porque cada viagem dessas tem um carácter iniciático, único, insubstituível.
Caro Pedro Correia
Apresento os meus mais sinceros parabéns pelas XVI lições de como arrumar uma biblioteca.
Penso “de que” está para acabar o arrumário…O que me permito, com a devida vénia, solicitar-lhe grande favor de iniciar um novo “curso”: Como arrumar uma Adega… Seria, para mim, uma ajuda preciosa… não calcula o caos em se encontra a minha Vinhoteca:— Cabornetes Sauvignons, Bordeeauxes, Chardonnays, misturados com Joses Marias da Fonseca; Cartaxos com Riojas e Tavolas… Taças de tremoços misturadas com enxidos do Alentejo… Uma autentica babilónia!!!
Ajuda-me?
( Não leve a mal a brincadeira) !
Cumprimentos,
AM
Parabéns pelo sentido de humor, meu caro. Nessa matéria, confesso, não poderia dar-lhe grande ajuda. Embora aprecie vinho, sempre fui incapaz de constituir uma vinoteca caseira digna desse nome. Desde logo porque o vinho só pode e deve ser guardado muito tempo em condições muito especiais, nomeadamente em termos de temperatura.
Obrigado pelas suas palavras. Esta série acaba no número XX. Já falta pouco.
O Ryuichi Sakamoto é um fabuloso músico e também um excelente actor.
Lembra-se dele ao lado do David Bowie no “Merry Christmas, Mr. Lawrence”, do Nagisa Oshima?
🙂
Antonieta
Lembro-me muito bem desse filme, que vi em estreia. E julgo até que escrevi sobre ele para um jornal (houve uma altura em que fui uma espécie de crítico de cinema). Não diria que é um dos filmes da minha vida, Antonieta, mas a banda sonora é excepcional. Fiquei rendido desde então ao talento de Sakamoto.
Não tenho a certeza do porquê de tanta gente gostar de livros de viagem, talvez a perspectiva de fuga ou a ideia de demanda, a possibilidade de encontrarmos o que não somos capazes de achar junto de nós. Daí que todo o livro seja sempre uma viagem, embora alguns se dediquem exclusivamente a narrá-las.
Sou um fã de literatura de viagens. Para além dos guias (sobretudo American Express), vou um leitor e colecionador das obras de Bill Briyon, Paul Theroux, Bruce Chatwin, Luis Sepúlveda, Gonçalo Cadilhe ou Tiago Salazar. Ao mesmo tempo tenho acompanhado a coleção da Tinta da China organizada pelo Carlos Vaz Marques e que nos tem dado o privilégio de contactar com autores da qualidade de Saul Bellow ou Agatha Christie.
Falta-me, apesar da quantidade de livros de viagem que tenho lido nos últimos anos, contactar com muitos outros escritores cuja obra desconheço por completo: Michael Palin, Paul Bowles, António Tabucchi, Joaquim Magalhães de Castro ou Fernão Mendes Pinto.
Infelizmente, com a literatura de viagens, acontece muito o que também acontece com outros livros, a dificuldade em encontrar nas livrarias de massas qualquer coisa que não tenha saído do prelo à relativamente pouco tempo. Esta voracidade consumista que preside às escolhas dos “livreiros” na composição dos escaparates faz-nos perder (sobretudo quem não tem disponibilidade para comprar todas as novidades logo quando saem) livros de potencial fantástico.
Uma última nota para a referência aos mapas. Sou um apaixonado e infelizmente ainda não consegui desenvolver esta minha paixão o suficiente. Tenho, no entanto, cortesia da minha irmã, um mapa mundo no escritório/biblioteca resultado da construção de um puzzle. Ela ficou com o prazer de fazer o puzzle e eu com a alegria de poder olhar para o mapa.
PS: Acho que este seu texto, dentro da categoria da sua biblioteca, é que melhor conseguido está, particularmente bem escrito. Obrigado!
Agradeço muito estas palavras, meu caro Filipe. Acontece algo semelhante comigo: consumo tudo quanto se relaciona com literatura de viagens. Essa colecção da Tinta da China, dirigida pelo Carlos Vaz Marques, merece um elogio rasgado pois é do melhor que já se publicou no género até hoje em Portugal. Conheço os livros do Gonçalo Cadilhe, que tem a melhor profissão do mundo: não só viaja mas tem um gosto inato em narrar o que vai descobrindo ao longo desssa viagens. As obras do meu amigo Joaquim Magalhães de Castro também são muito recomendáveis: poucos portugueses conhecem tão bem o Oriente, e a China em particular, como ele.
Há, felizmente, cada vez mais portugueses a viajar para destinos cada vez mais inesperados. Nem todos, como seria de esperar, estão vocacionados para algum dia virem a ser escritores. Mas quando se conjuga a paixão pelas viagens com a paixão pela escrita é de esperar algo muito bom.
Pois é: já somos dois com essa pancada pelos mapas. Aprendemos sempre alguma coisa ao olharmos um mapa com atenção.
Um abraço… e saudações leoninas!
A propósito das tuas arrumações vais falando de livros sob as mais diversas perspectivas e nessas deambulações lá vou eu atrás de ti recordando títulos, identificando gostos comuns, comparando as tuas colecções com as minhas. Se esta tua série não é também literatura de viagens, vou ali (à minha biblioteca) e já venho. Esta é uma das melhores séries de sempre do Delito.
E afinal tudo aconteceu apenas como motivação adicional para arrumar os livros – projecto que vinha adiando há anos. Obrigado pelas tuas palavras tão simpáticas, Teresa. Espero que gostes também dos quatro que faltam.
Caro Pedro Correia, não acompanhei estas crónicas desde o princípio espero que faça uma compilação, quem sabe editar um livro?
Caro Campus, agradeço-lhe a sugestão. Mas já viu que se isto passasse para livro eu ficaria ainda com menos espaço para livros cá em casa?
Se quiser ler a série completa, clique na etiqueta “a minha biblioteca”, que vem no fim do texto.
Um abraço.
Caro Amigo
Agradeço as suas amáveis palavras… lamento que não me possa ajudar na arrumação da minha “Vinhoteca”.”Pacencia!” Vou bebendo à sorte!
Contudo,para a acabar com os tremoços:
Tenho o prazer de lhe propor a troca de uma pequena colecção de livros de José Regio…por 3 garrafinhas lá do Fundão…
O amigo lê e eu bebo. À nossa!
Estou a falar a sério!
Aceito. O Fundão tem excelentes vinhos, que recomendo vivamente a qualquer apreciador.