Arrumar a biblioteca (XIX)


Pedro Correia,

 

 

Ava Gardner, Sinatra e Marlon Brando

 

Deixo o melhor para o fim.

São livros sobre uma paixão antiga: o cinema. Uma paixão que sempre relacionei com a literatura.

Livros que, em certos casos, me acompanham há quase 30 anos. Acontece, por exemplo, com The Illustrated Directory of Film Stars, de David Quinlan. Ou Quinlan’s Film Directors, do mesmo autor. 

 

Que houve — e há — estreitas relações entre a Sétima Arte e a literatura provam-no vários escritores que chegaram a ser críticos de cinema. Graham Greene foi um dos mais prolíficos e famosos, nas revistas The Spectator e Night and Day. Até que viu a carreira de crítico abruptamente interrompida quando a 20th Century Fox lhe moveu uma queixa-crime na sequência de um texto demolidor, na década de 30, sobre um filme de Shirley Temple.

Mas houve muitos outros, de Jorge Luis Borges (Do Cinema, Livros Horizonte) a Vinicius de Moraes (O Cinema de Meus Olhos, Companhia das Letras). O ofício foi também exercido em Portugal por escritores como Fernando Pessoa ou José Régio. E é notória a influência da arte cinematográfica na poesia de Ruy Belo e em romances como Bonecos de Luz, de Romeu Correia, ou O Que Diz Molero, de Dinis Machado.

 

Lembro-me aliás das fascinantes digressões deste último pelo mundo das “fitas”, como antigamente se dizia, no seu apartamento da Avenida Sacadura Cabral, em Lisboa. Conversas de que me ficou como recordação um exemplar autografado do Molero, que de vez em quando revisito como se fosse protagonista de um flashback destinado a conduzir-me novamente aos dias cinéfilos dos 80.

Nessa década conheci dois livros da minha vida: Pieces of Time (Nacos de Tempo, Livros Horizonte), colectânea de crónicas sobre cinema escritas por Peter Bogdanovich para a Esquire, e Hitchcock/Truffaut (Dom Quixote), o longo diálogo-entrevista entre dois génios da Sétima Arte logo tornado clássico.

Ambas as obras ensinam-nos a ver o cinema com outros olhos. São livros insubstituíveis na minha biblioteca, tal como os dois volumes que reúnem as inesquecíveis crónicas de João Bénard da Costa que tanto contribuíram para a cultura cinematográfica da geração a que pertenço ao serem inicialmente publicadas no cada vez mais saudoso semanário O Independente. Pensei que andassem perdidos, mas reencontrei-os há dias.

Escrevo estas linhas enquanto Rex Harrison canta como se dissesse (ou diz como se cantasse) I’ve grown accustomed to her face. Da banda sonora de My Fair Lady, filme muito cá de casa.

 

Reservo pelo menos três prateleiras em duas estantes para livros de cinema — incluindo uma das mais altas, pois são livros de grande formato. Alguns destes títulos acompanham-me também há longos anos e já fizeram uma longa viagem do Extremo Oriente para a ponta mais ocidental da Europa. Outros fizeram essa viagem a dobrar: de cá para lá, de lá para cá.

Títulos como estes:

– Life Goes to the Movies

– MGM, de Elizabeth Miles Montgomery

– MGM: When the Lion Roars, de Peter Hay

– The Columbia Story, de Clive Hirschhorn

– The Paramount Story, de John Douglas Eames

– Warner Bros., de Thomas G. Aylesworth

– Film Noir, de Alain Silver e Elizabeth Ward

– Oscar A to Z, de Charles Matthews

– Inside Oscar, de Mason Wiley e Damien Bona

– 500 Great Films, de Daniel e Susan Cohen

 

 

E tantos outros, que vou arrumando e enumerando, agora a escutar You Belong to Me, na voz de Jo Stafford. De outra película memorável, que bem gostaria de rever agora: The Last Picture Show, de Peter Bogdanovich (por coincidência falava dele há bocado, livros e filmes são matéria intermutável, inesgotável).

Eis à minha frente o livro-catálogo da Cinemateca, também redigido por Bénard da Costa, sob o lema Como o Cinema era Belo — deslumbrante lembrança de um dos melhores ciclos de clássicos da Sétima Arte a que assisti até hoje. Kiss Kiss Bang Bang, uma colectânea de Pauline Kael, talvez a mais polémica crítica de cinema de que há memória. 100 Best Films of the Century — a escolha de outro grande crítico, Barry Norman.

 

Um cineasta que sabe escolher música para os seus filmes é sem dúvida Woody Allen. Ouço a banda sonora de Radio Days, um dos melhores exemplos do que escrevi atrás. Cá está American Patrol, pela orquestra de Glenn Miller; Body & Soul, pelo quarteto de Benny Goodman; In the Mood, clássico entre os clássicos; e If you are but a dream, na voz de um novíssimo Frank Sinatra, quando ainda integrava a orquestra de Tommy Dorsey, onde aprendeu o essencial do seu inconfundível fraseado e da sua espantosa técnica de colocação de voz no diálogo constante com os instrumentos musicais. Ou numa gravação já histórica de With a Song in My Heart, também remontando aos dias áureos da rádio.

Junto os livros de música na sequência imediata dos títulos sobre cinema. Ópera, jazz, clássicos, as biografias de Sinatra, Ella Fitzgerald e Antonio Carlos Jobim. 100 Great Albums of the Sixties, de John Tobler. Noites Tropicais, longa crónica de Nelson Motta que se transformou em delicioso livro de “solos, improvisos e memórias musicais” do Brasil em clave de sol, pois as palavras são como as cerejas. E Chega de Saudade, com todas as histórias que sempre quisemos saber sobre os primórdios da bossa nova e Ruy Castro teve o bom senso e o bom gosto de nos narrar naquele estilo que torna imperdível cada livro seu.

 

 

Falta-me não só o espaço na biblioteca: já me falta também espaço aqui no blogue. Ficará para outra série a digressão pelos livros de música, de pintura e de banda desenhada a que reservo lugares especiais. Tintim e Lucky Luke, por exemplo, ombreiam com as melhores personagens da ficção literária.

 

Mas regresso ainda ao cinema. Para arrumar, já devidamente catalogadas, as biografias. De Marlon Brando, Bette Davis, Steve McQueen, Elizabeth Taylor, George Cukor, Robert Mitchum, Katharine Hepburn. E também as autobiografias. De Ingrid Bergman (My Story), Ava Gardner (A Minha História, da editora brasileira L&PM), Marlene Dietrich (Marlene D.), Brando (Canções que a Minha Mãe me Ensinou). E dois dos livros de memórias que mais me marcaram: A Life, de Elia Kazan, e O Nome Acima do Título, de Frank Capra (com excelente versão portuguesa, das Edições da Cinemateca).

São livros que recomendo a todos quantos mantêm o gosto de se sentar numa sala iluminada pelo ecrã destinado a projectar imagens que guardaremos para sempre.

“Quando se faz cinema não há regras, só pecados. E o pecado cardeal é o tédio.” Palavras de mestre Capra.

 

E fico-me com a banda sonora de outro filme da minha vida: Disponível para Amar, de Wong Kar-wai.

 

Até amanhã.

 

10 comentários em “Arrumar a biblioteca (XIX)”

  1. quando misturamos literatura, banda desenhada e cinema, não há como escapar a um fogo de artífico de recordações…
    como desta personnage de tintin, que se encontra na letra F:
    http://fr.wikipedia.org/wiki/Liste_des_personnages_des_Aventures_de_Tintin

    …como o facto do graham greene ter sido também o autor do livro que deu origem ao afamado third man, não se sabe já se mais famoso por causa da presença do orson welles ou do que ele diz sobre os relógios de cuco.

    1. É verdade, Carlos. Sabemos onde começamos, mas nunca onde terminaremos. E as viagens acabam também por misturar-se com as nossas memórias da BD e de livros e de filmes. Quando estive em Viena, por exemplo, rumei logo à roda gigante do Prater, onde se desenrola uma célebre cena d ‘O Terceiro Homem’. Com Orson Welles e Joseph Cotten, actores que por sua vez nos remetem para o ‘Citizen Kane’. E existem semelhanças entre Welles e o Capitão Haddock. E este fuma cachimbo, como o comissário Maigret. E Maigret foi criado por Simenon, belga como Hergé.
      Isto anda tudo ligado. Uma roda gigante, como a do Prater.

      1. …e a propósito de personagens das aventuras de tintin, posso até imaginar o jeito que o sr. oliveira da figueira (comerciante português inventado pelo hergé) daria agora à diplomacia económica portuguesa.
        só não sei em quem se terá então inspirado o hergé, para criar esse, afinal simpático, personagem.

  2. Ai que inveja, Pedro!
    Isso é um autêntico ‘Paraíso do Cinema’!
    Por acaso também tenho o Hitch/Truffaut, de 1987, mas da Cinemateca apenas tenho o Bergman.
    Tenho mais umas coisitas, para aí uma de livros sobre Woody Allen, óscares, etc,.
    Tinha toneladas de revistas de cinema mas tive de me desfazer delas pois não havia espaço para tanta tralha.
    Tinha muitos filmes em VHS que não consegui arranjar em DVD, o The Last Picture Show era um deles…
    E vou ficar por aqui.
    🙂
    Antonieta

    1. Não sou uma mulher de palavra, já aqui estou outra vez, eheheh!
      Onde está «para aí uma de livros» deveria estar «para aí uma dúzia de livros».
      🙁
      Antonieta

      1. ‘The Last Picture Show’ é um daqueles filmes a que chamo invisíveis, Antonieta. Foram realizados, foram estreados, foram premiados, tiveram sucesso, mas há anos que ninguém os vê. ‘Gente Vulgar’, de Robert Redford (Óscar para melhor filme e melhor realização em 1980), é um desses filmes. Tenho a obra-prima de Bogdanovich também em VHS, não em DVD. Gostava de encontrar uma edição em DVD, e do filme que se seguiu a este, vinte anos depois, com os mesmos actores: ‘Texasville’.
        Ter uma boa biblioteca sobre filmes é um complemento directo e natural do meu gosto pelo cinema.

  3. Claro que fui directo ao fim.
    Cliquei, aumentei o volume e minimizei.
    É que, apesar de ser a hora do chá, sabia que era um convite a que me aparecesse alguém no gabinete.
    Assim foi, mas obrigaram-me a partilhar tb as imagens, hoje foram 10 minutos de tea break em contemplativo silêncio.

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