Arrumar a biblioteca (VI)


Pedro Correia,

 

Ripley, Obama e Cole Porter

 

Já estava à espera disto.

À medida que os livros surgem à superfície, vou encontrando vários títulos repetidos. Esta é uma consequência directa de não manter a biblioteca organizada: a partir de certa altura, vai-se comprando sem a noção exacta daquilo que já se tem.

 

Só isto justifica que depare agora com diversos romances e novelas em dose dupla. Desde logo, O Principezinho, de Saint-Exupéry. Mas também Teresa Desqueyroux, de François Mauriac. E Os Nomes, de Don DeLillo. E O Outono em Pequim, de Boris Vian. E Maigret e o Negociante de Vinhos, de Simenon. E O Honorável Espião, de John Le Carré.

É maior ainda a minha surpresa ao encontrar dois exemplares da obra-prima de Patricia Highsmith: O Talentoso Mr. Ripley. A mesma edição, com duas capas diferentes, da Europa-América — uma anterior ao filme homónimo do malogrado Anthony Minghella, com Matt Damon, outra posterior — e ambas pavorosas. A surpresa deve-se ao facto de ter comprado o segundo exemplar já depois de ter lido duas vezes este romance, conforme comprovo vendo as anotações que fiz no volume mais antigo: 27 de Agosto de 1993 e 26 de Fevereiro de 2000.

Esta é outra das minhas manias: anotar desde sempre a data — e por vezes o local — em que termino a leitura de cada obra. Todos temos as nossas excentricidades relacionadas com livros. Eu tenho várias. Falarei de outras a seu tempo.

 

É frequente isto acontecer-me com obras literárias, mas seria impossível suceder com discos. Tenho centenas, nem sei bem quantos, mas jamais esqueço um só deles mesmo quando estou anos sem o tocar. Um dos que já escutei mais vezes — arriscaria até elegê-lo campeão das audições cá em casa — é The Cole Porter Songbook, o duplo disco que uma Ella Fitzgerald em estado de graça gravou em Fevereiro e Março de 1956, nos estúdios da Capitol, em Los Angeles. Assim nasceu um tesouro da música de todos os tempos — mil vezes imitado, mil vezes saído vitorioso de todas as comparações que alguém possa fazer com algum trabalho do mesmo género, de que foi ilustre precursor.

Sei todas estas canções de cor — You do Something to Me, You’re the Top, So in Love, I’ve got you under my skin.  Haverá melhor banda sonora para esta tarefa de arrumação e catalogação de livros que pus em marcha?

 

É no entanto já ao som dos Creedence Clearwater Revival — Susie Q, I put a spell on you, Proud Mary, Bad Moon Rising, Lodi — que decido enfim não autonomizar os autores brasileiros e espanhóis nas prateleiras, como ontem cheguei a equacionar, acabando afinal por englobá-los no vasto lote dos autores de expressão universal.

Só os portugueses ficam à parte.

Ao fazer isto, sinto-me quase um editor a preparar o alinhamento de um telediário. Mas ao contrário, porque na minha biblioteca a prosa estrangeira suplanta largamente a portuguesa. Já o Telejornal permaneceu ontem quase alheado das chamadas “notícias do mundo”, empurradas para o minuto 53 do principal serviço informativo do canal público: foi só então que apareceu o Presidente Barack Obama, Nobel da Paz, falando sobre cenários de guerra na Síria.

Os canais concorrentes não fizeram o noticiário internacional esperar tanto tempo. A Síria foi também a primeira notícia do mundo a ir para o ar no Jornal da Noite da SIC, quando iam decorridos apenas 19 minutos. Enquanto o Jornal das 8, da TVI, aguardou exactamente meia hora para espreitar o que se passa para lá de Vigo e Badajoz.

Este é um dos maiores defeitos do jornalismo português. Continua sem transpor fronteiras. Num planeta em que, graças aos prodígios da tecnologia, as distâncias são cada vez mais curtas.

 

Nos livros, viajamos sempre. E na música também. Podemos ir agora, por exemplo, a Cabo Verde. Escutar Lua, na fabulosa interpretação de Mayra Andrade e Princezito.

“Luâ fika ku mi más um kusinha”.

Até amanhã.

 

16 comentários em “Arrumar a biblioteca (VI)”

  1. Engraçado, eu comprei O Talentoso Mr. Ripley na segunda-feira, mas não gosto nada da cor da capa…
    Já está na zona “Livros/Filmes” ao lado do dvd do Plein Soleil.
    :)Antonieta

      1. Eu também gostei do filme do Minghella, só que o dvd está esgotado.
        Este Plein Soleil que eu tenho nem está legendado, mas dá para ver, eu sou do tempo em que se aprendia francês…
        Antonieta

        1. O segredo do sucesso da personagem está precisamente na sua ambiguidade. Uma ambiguidade que vai para além da sua óbvia duplicidade. Algo quase assustador, por reunir o melhor e o muito pior da natureza humana.

  2. Interessante essa ideia de anotar a data da conclusão da leitura de um livro, por norma tenho marcado na memória o local onde o li ou conclui, mas perco-me no tempo, mais recentemente comecei a sublinhar frases ou ideias interessantes.
    Raramente tenho livros repetidos (quando acidental, aproveito para oferecer a quem puder interessar) isto porque até ter a minha vida profissionalmente estabilizada lia, sobretudo, obras emprestadas pela biblioteca da Gulbenkian, instituição a que devo o meu viajar pela literatura infantil e juvenil, a maior lacuna da minha biblioteca atual, bem pequena se comparada com a do Pedro. Depois comecei a adquirir obras por recomendação de conhecidos, crítica literárias ou troca de opiniões, o que me leva a menos compras por impulso nas livrarias
    O talentoso Mr Ripley por cá existe numa capa que penso ser da Visão, capa dura, mesmo assim menos infeliz que essas duas.

    1. Conheço essa colecção da ‘Visão’, que possibilitou bons títulos (‘A Sangue Frio, do Truman Capote, e até o ‘Livro do Desassossego’) a preços muito reduzidos.
      Já dei vários livros a bibliotecas, nomeadamente quando desmanchei uma casa e mudei de país (e de continente). Eventualmente voltará a acontecer num prazo curto.
      As datas são importantes para assinalar o contexto de época (e, portanto, a idade) em que fui lendo cada livro. Intuí isso muito cedo e tem-me sido muito útil cada vez que revisito essas obras. Além de confirmar quantas vezes já as li. Mais recentemente comecei a inscrever também o local em que as fui lendo, o que tem propiciado “reencontros” interessantes.

  3. Os livros que tinha em duplicado já dei. Não quererá presentear-me com esse? O que li dela foi delicioso.

  4. Livros repetidos acho que todos temos : poucos mas bons , ai de nós se fôssemos recomprar livros maus , a coisa estaria a ficar preta !

    As capas dos livros sempre me interessaram pelas piores razões , são demasiadas vezes más demais para ser verdade .

    Sendo a capa um boa parte do caminho andado para que alguém pegue nele , o folheie e eventualmente o compre , custa a perceber as opções em causa .
    No entanto é cada vez mais frequente as editoras recorrerem a “designers” (chamemos-lhe assim …) que vão aos bancos de imagens gratuitos que existem aos montes pela net e adicionam “um pouco” de photoshop , algumas vezes com resultados anacrónicos de bradar aos céus .

    Ella Fitzgerald gravou muitos discos de “songbooks” , uns triplos , outros duplos e alguns simples , só não tenho os dois últimos :

    http://en.wikipedia.org/wiki/The_Complete_Ella_Fitzgerald_Song_Books

    Pessoalmente vou pelos irmãos Gershwin e o Cole Porter é segundo para mim mas reconheço que há dias que é “second to none” (o Duke Ellington songbook é um conjunto àparte por razões óbvias , a base das canções é diferente) .

    Mas é , como muito bem diz , um ilustre precursor para a própria e para os outros todos , pois “songbooks” até aí só instrumentais na 1ª série que Oscar Peterson e o seu trio lhes dedicaram entre 1951 e 1955 (haviam de reincidir parcialmente em 1959) .

    Dos telejornais não posso falar , não os vejo há cerca de 20 anos , desde que a internet está aí a toda a hora com as notícias todas do mundo , dadas pelos jornais todos do mundo .
    É tempo ganho à vida e à morte .

    Excelente série de posts esta em que se meteu .
    Não temo que acabe pois quanto mais arrumar mais vai ter que rearrumar …

    1. Tenho todos os ‘songbooks’ de Ella Fitzgerald: Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Ellington, Johnny Mercer, Jerome Kern, Harold Arlen, Rodgers & Hart… Música do melhor que há.

      Os livros continuam a dar-me que fazer. Somem-se de um lado mas parece que se multiplicam do outro.

  5. A importância que o Telejornal dá às notícias estrangeiras é confrangedora. Às vezes, nem sequer há tempo para elas… Comparando com um noticiário televisivo alemão, a diferença é astronómica.

    1. Nas televisões portuguesas quase só há notícias internacionais quando ocorrem grandes catástrofes (terramotos, incêndios, inundações) ou massacres ou, eventualmente, uma guerra a partir das cem mil vítimas mortais, como já aconteceu na Síria. O mundo visto do buraco da fechadura da TV portuguesa é um mundo catastrófico. Como se houvesse a intenção de passar a mensagem subliminar que apesar de tudo no nosso Portugalzinho é que se está bem.

      1. «no nosso Portugalzinho é que se está bem» – uma teoria interessante, levada aos píncaros da perfeição, no Estado Novo, e da qual ainda não nos livrámos. Talvez já existisse antes do Estado Novo, isso poderia explicar porque nos custa tanto rejeitá-la. Foi algo que me começou a incomodar logo na adolescência, quando comecei a tomar consciência dessa tentativa de pôr o nosso jardim plantado onde toda a gente já sabe numa espécie de estado de graça, protegido, pela devoção religiosa, de desgraças e poucas-vergonhas.

        1. É-nos atávica, essa característica. Transcende épocas e regimes. Conheci pessoas a 16 mil km de distância que continuavam a dizer e a sentir dessa forma. “No nosso Portugalzinho é que se está bem.”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *