Cristiano Ronaldo, Piazzolla e Beatles
Chegou o momento. Aproveito este período de inactividade forçada para concretizar um projecto há muito adiado: pôr em ordem a minha biblioteca. Primeira etapa: desocupar de tralha avulsa a divisão que reservei como escritório e acabou por funcionar como sala de (des)arrumações. Limpar, lavar, desobstruir. Remeter o que não interessa nem faz falta para sacos que terão como destino a reciclagem. Tanto papel inútil vai sendo acumulado ao longo de anos no domicílio de cada um: há que lhe dar sumiço com regularidade não apenas em nome da guerra aos ácaros mas sobretudo da preservação de um espaço vital de dimensão razoável nos metros quadrados que funcionam como nosso reduto íntimo.
Há depois que reunir todos os livros espalhados pela casa neste espaço, que ao fim de poucos dias ressurgirá como novo. Estou apostado nisso. Enquanto meto mãos à obra, com um entusiasmo que a mim próprio surpreende e um caudal de energia que me parece ilimitado, procuro somar o útil ao agradável (algo em que um nativo do signo Gémeos é perito por natureza e vocação), escutando alguns dos meus discos de que mais gosto. Artie Shaw e a sua orquestra na inconfundível interpretação de temas que a celebrizaram, como Begin the Beguine, Frenesi e Stardust. O Concierto para Bandoneón, de Astor Piazzolla propaga-se a seguir por cada recanto deste apartamento inundado do sol que teima em desmentir os negros augúrios dos meteorologistas da treta que há uns meses nos vaticinaram o pior Verão das últimas décadas. Nem de propósito: seguem-se os Animals, que saem das catacumbas dos anos 60 com a sempre rejuvenescida House of the Rising Sun.
A divisão começa a ficar com um aspecto decente, ao fim de horas de intenso labor doméstico, no momento em que John Lennon canta You’re going to lose that girl. Canção do álbum (e do filme) Help. Se bem recordo o alinhamento deste disco, que escutei tantas e tantas vezes, vai seguir-se Ticket to Ride.
Os livros amontoam-se, em pilhas sucessivas, em certos casos do chão quase até ao tecto. Não faço ideia quantos são neste momento – seguramente já ultrapassaram a barreira dos dois mil. E enquanto escrevo esta frase lembro-me de Cristiano Ronaldo, que ontem ultrapassou o recorde de golos de Eusébio ao serviço da selecção nacional de futebol com três petardos enfiados na baliza da Irlanda do Norte que fizeram calar aqueles pobres imbecis que no acanhado estádio de Belfast procuravam irritá-lo gritando pelo nome de Messi. Coitados: aprenderam da pior maneira que isso motiva ainda mais o campeão formado na academia do Sporting. “Ronaldo vale por três”, grita a manchete do diário O Jogo, que atirei para cima do sofá e ainda não abri.
É o que farei a partir deste momento, interrompendo por hoje a empreitada a que meti ombros. Escuto agora outro dos discos de que mais gosto: My Passion for the Piano, de Arturo Sandoval. Faço questão de partilhar convosco uma das minhas faixas preferidas deste álbum: Marianela says goodbye. O vídeo é fraquito, mas foi o melhor que se arranjou.
Até amanhã.


Brilhante!
E em menos 3 anos, como bem lembra o plumitivo do esverdeado pasquim.
Sem qualquer insídia, apesar de Eusébio o ter feito em menos 42 (quarenta e dois) jogos, como é óbvio.
Em termos absolutos, estas comparações são falíveis. O recorde devia ser estabelecido entre o número de golos marcados e o número de jogos disputados. E também não é possível comparar o actual estilo de treinos e de ritmo competitivo, muito mais exigentes, na alta roda do futebol profissional do que o existente no tempo do Eusébio.
Descontando isto, é evidente que CR é um futebolista de excepção – passam algumas gerações sem vermos um jogador assim. Um dia todos diremos que tivemos o privilégio de o ver jogar em directo, ao vivo e a cores.
De acordo.
E seria, para sua informação (ou talvez não, não sei!), pertença de Fernando Peyroteo, com 14 golos em 20 jogos pela Selecção de Portugal. Só falei por que o relato do ‘jornaleiro’ me pareceu pouco honesto, comparando anos e não comparando jogos.
Não há realmente comparação possível, tudo na Vida sofreu uma enorme evolução. O futebol não foi excepção.
Quanto ao futebolista CR não tiro uma vírgula ao que escreve e aplaudo de pé.
A ele e a si. Como homenzinho deixa muito a desejar.
Se não houvesse antecedentes bastaria comparar as suas declarações, com as de Klose que ontem, e de igual modo, ultrapassou o nº de golos do mítico Gerard Muller, na Selecção alemã.
Saudações Desportivas e Gloriosas
De facto, não pode haver comparações com base em dados que não são equitativos. O quase já mítico Fernando Peyroteo é, de longe, o “artilheiro” do futebol português com mais golos marcados ‘versus’ tempo jogado. Os cálculos deviam ser feitos nessa base.
Saudações Desportivas (esperando que a selecção rume ao Rio)
O Ronaldo pode ser o génio da bola e não lhe vou tirar o mérito, mas esquecemo-nos que ele faz os golos, com a bola que os colegas lhe dão… é que o futebol quer queiramos ou não é um jogo de equipa. Nos jogos de equipa todos jogam para o mesmo fim e que pode fazer um génio se à sua volta os outros nada fizerem? Deixa de ser génio, pois um jogador só, no futebol não vai a lado nenhum. É por esta razão que acho um pouco ingrato no futebol dizer-se este ou aquele é o melhor, pois nenhum «craque» faz nada sem os outros. O futebol é um jogo de equipa…
Tem razão, Inês: o futebol é um desporto colectivo e essa dimensão é demasiadas vezes esquecida nesta ânsia mediática permanente de eleger tronos para colocar ídolos e “heróis”, que muitas vezes têm pés de barro. Mas, mesmo num colectivo, há por vezes individualidades que fazem a diferença. Neste momento ninguém duvida que a selecção nacional a jogar com CR é muito superior àquilo que seria se ele não pudesse jogar, por castigo ou lesão.
No jogo contra a Irlanda do Norte, quando a certa altura a nossa equipa parecia totalmente baralhada e sem rumo, com um jogador a menos, foi o CR que puxou por ela e constituiu o suplemento de força anímica, resistência física e habilidade técnica que fez a diferença.
Por acaso neste jogo fez a diferença. Foi a primeira vez, pois sempre que tem jogado na selecção nada tem feito. Em tudo na vida é preciso sorte e ela viaja lado a lado com ele.
Eu próprio já o critiquei em vários textos, neste e noutros blogues, porque me parece quase sempre menos envolvido nos jogos da selecção do que ao nível dos clubes. Mas neste jogo concreto ele fez, de facto, toda a diferença. E no fim foi até aplaudido pelo público que gritava pelo nome do Messi.
Ahh, parabéns. A selecção musical é de primeira água!
Vou tentar acompanhar estes textos com “banda sonora”. É uma experiência.