Aproveitar a maré


Sérgio de Almeida Correia,

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(créditos: Jornal de Negócios/LUSA)

 

Ultimamente, o líder do PSD não tem dito coisas muito acertadas. O Verão está à porta, com ele a silly season, e Rui Rio está a ver se consegue corrigir a mira, desviando-a dos seus pés.

Não me pareceu por isso desajustada a sua sugestão de que, aproveitando-se o facto de se ir equacionar a retirada das condecorações ao figurão Berardo, se aproveitasse o momento para fazer uma pequena limpeza nas Ordens Honoríficas. Não me parecendo viável dar-lhes um banho à mangueirada com creolina, pois isso seria pouco consentâneo com os nossos princípios, poder-se-ia começar por aí.

Quem nas últimas décadas tem escrito o que escrevi sobre a matéria só pode congratular-se com a sugestão de Rio.

E podiam aproveitar a ocasião para também fazerem uma triagem às que foram atribuídas em Macau antes e depois de 1999 a agradecer favores de vária ordem. É que há para aí mais uns figurões – que nunca deviam ter sido condecorados e que só o foram porque os vapores da pataca eram mais fortes do que os do decência – a pedirem insistentemente que lhes retirem as ditas. Por causa do peso, não é por mais nada.

Se então o fizessem no Dez de Junho, em vez de atribuírem mais uns quantos brindes a tipos de duvidosa estirpe, podiam aproveitar para realizar uma sessão solene, com toda a pompa, a anunciar as que foram retiradas. 

Poderia ser que assim o povão aplaudisse a separação do trigo do joio, se reencontrasse com a Chancelaria e, quem sabe, lhe reconhecesse alguma utilidade prática.

0 comentários em “Aproveitar a maré”

  1. Sérgio é claro que o seu texto é pertinente, mas se não tivermos cuidado ficaremos sem medalhados. Por exemplo também em França se dão condecorações a torto e a direito (a facínoras) para pagar favores:

    https://www.google.com/amp/s/amp.theguardian.com/world/2016/mar/07/france-awards-legion-dhonneur-to-saudi-prince-for-terror-fight

    Francois Hollande faces sharp criticism for giving country’s top award to Mohammed bin Nayef despite human rights failures.

    Ou:

    Yasser Arafat, Prémio Nobel da Paz, ou mesmo Obama, ou Henry Kissinger, este último responsável pela Operação Phoenix, Condor….

    Felizmente não temos destes exemplos cá em Portugal.

  2. Retirar o que em determinado momento foi dado (e considerado merecido pelos critérios válidos nessa época) parece-me errado. No fundo é alterar o passado.
    E quem recebeu uma medalha e depois a perdeu pode sempre dizer, sem mentir, que em tantos do tal o Presidente da República condecorou-me com isto e aquilo.
    Se o Cristiano Ronaldo cair em desgraça, anular-lhe-ão os golos que ele meteu?
    Já vi coisas piores.

    1. Também a ponte que Salazar construiu e cujo nome lhe foi atribuído, por muito menos razões – quanto a mim, nenhumas, – foi-lhe retirado e passou a ponte 25 de Abril.

      1. “Também a ponte que Salazar construiu e cujo nome lhe foi atribuído”
        Para mim é um caso totalmente diferente, Salazar lembra Pide, Tortura, Censura, guerra colonial, pobreza. Concordo com a mudança de nome da ponte. Há coisas que podem mudar outras que não, não tenho nenhuma regra universal.

        1. Para si é, para mim não!
          Para si é à medida das suas conveniências, ou ideologias. Para mim é o passado, o legado da nossa história. Bom ou mau é imutável.
          Para apagar o nome ponte Salazar e dar-lhe outro que não tem nada ver com ela, então também teríamos de apagar o nome de Salazar da nossa história, e isso, o passado, como disse é imutável. É passado e nada, nenhuma força, nenhuma ideologia ou interesse, pode mudar.
          O passado é tão forte que até escapa ao poder de Deus. Ele, Deus, pode alterar o futuro mas não modificar o passado.
          Mas não vou discutir nem pretendo defender a política de Salazar, de quem não sou saudosista e muito pelo contrário fui vítima. Simplesmente não posso deixar sem referência o que argumenta sobre Salazar como justificação para a mudança do nome à ponte.
          Salazar, viveu pobre e morreu pobre.

          1. “Para si é à medida das suas conveniências, ou ideologias.” Obviamente. Ou preferia que fosse à medida das suas conveniências, ou ideologia?

          2. Há aqui um mal-entendido qualquer. No fundo não estamos ambos contra? “Retirar o que em determinado momento foi dado (e considerado merecido pelos critérios válidos nessa época) parece-me errado” Palavras suas.
            A mim também me parece errado, logo, não devia estar a discutir consigo. Acho que não o interpretei devidamente.
            Desculpe, lá estaria com o raciocínio todo virado para o jogo da Luz.

  3. As pessoas não têm que ser premiadas por isto ou aquilo. Todos temos que dar o nosso melhor no desempenho daquilo para que somos pagos .
    Premiar as pessoas faz com que haja injustiças.
    Quantas pessoas que são valorosas, que quase fazem milagres até para dar de comer aos filhos e o Estado nem sabe que elas existem, muito menos da luta delas. São pessoas anonimas, quase sempre as mais honradas.
    O Estado devia era fazer chegar ajudas a essa gente, procurar essa gente e gastar os valores com ela. “Ver mais de perto”…
    Deixar de encher a pança a gente rasca e mal acabada , só porque o nome é conhecido e tem meia dúzia de patacas, ás vezes roubadas, que se supõe que lhes dão brilho! Fora com as condecorações…

    1. “As pessoas não têm que ser premiadas por isto ou aquilo.” Discordo. Deveriam acabar todos os prémios, galardões e distinções? Deveria acabar o prémio Nobel, não se deveria distinguir os bons jogadores de futebol, não se deveria dar notas boas aos bons alunos, não se deveria elogiar quem faz algo de excepcional?
      “Premiar as pessoas faz com que haja injustiças.” Não é a existência de prémios a verdadeira fonte de injustiças.
      “Deixar de encher a pança a gente rasca e mal acabada” Cuidado com as tiradas moralistas. Pressupõem sempre que quem a diz é dos bons e os outros são os maus. Na minha humilde opinião a grande maioria das pessoas não é rasca nem mal acabada.
      Haverá sempre injustiças (injustiça por vezes é só na opinião de quem o diz pois outros pensam ao contrário). O mundo é diversificado, não temos todos a mesma opinião, a vida tem de ser feita com as pessoas como elas existem e não só com santinhos.
      Concordo que devemos lutar contra as injustiças mas (problema difícil) é saber quais as que merecem luta (é nisto que discordo de si).

  4. Por isso eu escrevi que “O Estado tem de ver mais de perto”… salvaguardando alguma injustiça.
    E talvez o Senhor não tenha ainda assistido a tantas injustiças como eu.
    Aguarde mais uns dias.

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