Apocalypse now na Grécia.


Luís Menezes Leitão,

A princípio pensei que os sucessivos disparates que o governo grego ia fazendo resultavam pura e simplesmente de incompetência, que os gregos iriam pagar muito caro. Depois convenci-me que isto afinal era uma estratégia pensada desde o início para atirar a Grécia para fora do euro. Neste momento, a irracionalidade é de tal ordem que já nem sei o que pensar. Isto só me faz lembrar o diálogo entre o Coronel Kurt e o soldado que o persegue, no Apocalypse Now. O primeiro pergunta: “Are my methods unsound?“. Ao que o outro responde: “I don´t see any method at all“. E de facto não podemos encontrar qualquer método nisto, entendida a palavra no seu sentido epistemológico grego, methodos (μέθοδος), que significa literalmente “seguir um caminho”, de metá (μετά), “a seguir”, e hodós (οδός), “caminho”. Na verdade, não se compreende minimamente qual o fim que visa o governo da Grécia e qual o caminho que se propõe seguir. O que vemos constantemente são passos erráticos que não se percebe aonde visam conduzir o povo grego.

 

Num dia o governo grego negoceia um acordo no Eurogrupo. No outro dia, logo que recebe uma proposta deste, propõe um referendo sobre a mesma, o qual é votado numa semana, e dá uma esmagadora vitória ao não. Durante a campanha, o Ministro das Finanças Varoufakis, ao mesmo tempo que chama terroristas aos seus parceiros do Eurogrupo, garante que, se o não vencer, consegue um acordo com eles em 24 horas. No dia seguinte à vitória do não, o vencedor Tsipras oferece a cabeça de Varoufakis numa bandeja ao Eurogrupo, substituindo-o pelo mais moderado Tsakalotos, em ordem a conseguir um rápido acordo com os pretensamente derrotados no referendo. 24 horas depois a mensagem é de desespero: a Grécia pede mais 7.000 milhões de euros em 48 horas, sendo pedida uma reunião de emergência do Eurogrupo. Mas o tal Tsakalotos chega a Bruxelas sem uma única proposta concreta, limitando-se a levar umas notas manuscritas em papel de hotel. E para isto obrigou 18 ministros das Finanças europeus a uma reunião urgente em Bruxelas, tendo alguns, como por exemplo o de Portugal e o da Lituânia, tido que se deslocar do outro extremo do continente para nada, e sendo por isso obrigados a marcar outra reunião. A menos que Tsakalotos signifique em grego “saca a tolos”, não estou a ver como é que alguém pode esperar que lhe entreguem 7.000 milhões de euros desta maneira.

 

Há dias a saída da Grécia do euro era uma hipótese quase inverosímil. Hoje tornou-se uma probabilidade cada vez mais forte. Tsipras pode ter saído reforçado do referendo mas, como o Coronel Kurt do Apocalypse Now, pode passar a governar um país em cinzas. Porque se a Grécia sair do euro, numa bancarrota descontrolada, é esse o estado em que vai ficar.

0 comentários em “Apocalypse now na Grécia.”

  1. Não tarda nada, uma chusma de defensores dessa completa ausência de estratégia grega – e até da mais elementar civilidade – vão aparecer aqui, pretendendo defender o indefensável. Já sabemos.

  2. Aconselho-o a rever o filme Apocalypse Now , mas com muita atenção mesmo, até é uma boa analogia para a situação em questão.

    Os que defendem este estado comatoso do financeirismo mundial ainda hão-de de precipitar mais danos em TODOS NÓS em busca da protecção aos deuses do mercado.

    1. Sem düvida, uma perfeita analogia !!! Sobretudo quando neste mesmo diälogo, o coronel Kurtz se dirige ao capitäo Willard (despromovido a soldado, pelo Sr. Leitäo): “…you’re an Errand boy sent by grocery clerks to collect the bill…”

  3. Ninguém no seu perfeito juízo leva um papel com notas, manuscritas ou não, à vista de todos, principalmente quando sabe ser o foco das atenções. Só por grande incompetência ou… por estratégia! O que significa então aquele papel de hotel?

    1. Significa que tudo usam para deitar abaixo alguém. Não deve interessar a mim nem a ninguém, se leva papel, caneta, lápis, gravata, fato, mala ou casaco, interessa que usem o diálogo construtivo e que se olhem as pessoas como seres humanos e não como números. Isto não é uma UE, é uma desunião, onde estão tecnocratas que usam e abusam do ser humano e tratam o dinheiro, como algo, a quem todos se têm de vergar. Não presta esta UE. Amanhã quando o apocalipse estiver aqui, quero ver e ouvir, o que dizem aqueles que hoje zombam dum povo e que apoiam os números em vez das das pessoas.

      1. Não me parece que tenha zombado do Povo Grego, nem de ninguém. Espero sinceramente é que o governo grego não esteja a zombar do seu Povo e de todos nós.
        Um ministro meu ou um funcionário, que trouxesse à vista de todos um qualquer papel, sabendo que está a ser visto por tudo e todos, recebia severa reprimenda. Porque isso, sim, me pareceu zombaria.

        1. Nenhum de nós sabe se era papel ou não para apresentar. Todos disseram o que quiseram e muito bem lhes apeteceu: eram crianças, mal vestidos, andavam de moto… O interessante é que aqueles que os apelidaram de crianças, hoje, já dizem que a dívida grega tem de ser reestruturada. Como vê aqui temos de ver para crer porque o que hoje é, amanhã já não é.

  4. Ouço Tsipras em directo no Parlamento Europeu. Acaba de dizer que a economia grega “se encontra num beco sem saída”.
    Parece um líder da oposição que ainda não se convenceu verdadeiramente de que já é governo. Tarda em passar do diagnóstico à terapia. Para bem dos gregos, esta é capaz de ser a notícia menos má. Porque se a “terapia” da esquerda radical é chamar «assassinos» aos credores, rasgar compromissos estabelecidos no Conselho Europeu e convocar plebiscitos com pergunta incompreensíveis de seis em seis meses para sacudir a água do capote mais vale permanecer na fase do diagnóstico.

  5. Diz-se que alguns analistas acreditam que os gregos estão praticando a teoria dos jogos de Nash.
    Mas também diz-se que se a Grécia sai fora vai ser salva pelo BRICS. Fico a imaginar o que daí poderá vir e de saber que nada sei, só imagino o dólar a cair e um cenário caótico na economia mundial.

  6. A questão é… quanto foi pago aos credores até agora e quanto dinheiro entrou?
    E se tivesse havido Grexit, em Janeiro?

  7. Não sei se será só a Grécia que ficará em estado comatoso nesta guerra:

    https://www.youtube.com/watch?v=pHt8QguIQNA

    Foi a reunião entre Tsipras, Merkel, Juncker e Hollande que tornaram sem efeito essa reunião.

    Significa isto, uma vez mais, que os restantes ministros só estão ali para fingir músculo. Quem decide é a Alemanha e França.

  8. “E de facto não podemos encontrar qualquer método nisto.”

    É espantoso como depois de tantas décadas ainda há quem não conheça os Marxistas.

    Quem condena a pobreza austeritária de 20000$ per capita e elogia a pobreza revolucionária de 5000$ per capita tem algum método a não ser o do Poder pelo Poder?

    Meta a ala esquerda do PS(mais os marxistas do CDS e PSD), mais o BE e PCP com 40% dos votos e vai ver o que começa a acontecer.

    Um pais em ruínas é um custo aceitável para uma ideologia intolerante da diferença como os milhões de mortos na China, União Soviética, Combodja, e as centenas e dezenas de milhar pelos outros países atestam.

    O Método é ter o Poder. E quanto mais destruído e dependente o pais estiver mais fácil é tomá-lo.
    Na Grécia só não aconteceu um golpe porque os revolucionários hoje vêm da torre de marfim da Universidade, ao invés a cultura dos revolucionários do passado com contactos por toda a sociedade incluíndo militar.

  9. Uma situação que está a ficar muito semelhante ao do terrorismo religioso, rebentar, mas tentando, simultaneamente, atingir o maior número de vítimas possível e se, nesse caso, nós não conseguimos compreender as razões, nem o objectivo de tamanha loucura, quase me atreveria a dizer que estamos apenas a atravessar uma época bem recheada de todos os fundamentalismos… ou então, com tanta crise económica… em vez de tabaco, já andam a fumar arbustos 😉

    O meu maior receio é que seja uma grande cortina de fumo e que isto do fiat money não esteja, mesmo, a dar o seu último suspiro, por não aguentar tantos uns e zeros virtuais, e que tudo não passe de uma desculpa para uma implosão, para justificar o retorno do dinheiro, ao padrão ouro… acabando, de vez, com o papel que, agora, anda por aí a circular e que, nesse caso, nem iria servir para usar no WC… um rebentamento da tal “bolha” catastrófica de que muitos falam e outros esperam… o chamado tempo final de outro ciclo económico.

  10. Os alemães já falam em reestruturação e reescalonamento da dívida.
    No meio do caos por ele mesmo promovido Tsipras vai fazendo o seu caminho. Devagar, devagarinho.
    Porque o caminho faz-se caminhando.

    Os GR são grandes negociadores. Eu sei.

  11. Para quem fala tanto na soberania e liberdade, reestruturação nos moldes que se exige ao que se passa na Grécia é tudo menos amiga disso, é um atestado de incompetência e um sinal vermelho gigante a quem queira investir.

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