Aonde é que pára a polícia?


Luís Menezes Leitão,

Nenhum regime consegue subsistir se não assegurar que tem o monopólio da violência. Precisamente por isso é que é suicida provocar sentimentos de revolta em forças armadas ou policiais, mesmo que se trate de questões mais prosaicas como o seu estatuto e remuneração. A revolta militar que conduziu ao 25 de Abril foi desencadeada precisamente em virtude da insatisfação causada pelo Decreto-Lei 353/73, de 13 de Julho, que colocou militares do quadro permanente em risco de ser ultrapassados por oficiais mais novos. Quando o governo de Marcello Caetano recuou já era tarde, pois a revolução estava em marcha. O ataque ao estatuto profissional dos militares foi assim o rastilho que desencadeou a revolução.

 

 

Em 1989 tivemos uma contestação policial, com a célebre história dos secos e molhados. Nessa altura o Governo de Cavaco Silva, pela mão de um Ministro da Administração Interna até então completamente desconhecido do público, Silveira Godinho, resolveu atirar a polícia de choque contra os polícias que se manifestaram em defesa do direito a constituir associações sindicais. Apesar da repercussão internacional das imagens de polícias a controlar polícias, a verdade é que a autoridade do Governo saiu reforçada do episódio, demonstrando que continuava a ter o controlo das forças policiais, que não hesitavam em actuar sobre os seus colegas recalcitrantes. Mais tarde, no entanto, viria a ser dada razão aos manifestantes, uma vez que a polícia já dispõe de associações sindicais.

 

 

É por isso que não tem comparação o que se passou na quinta-feira passada. A imagem que passou para a opinião pública foi a de que a polícia que guardava o parlamento não estava disposta a reprimir o protesto de colegas seus, tanto assim que os deixou sem qualquer problema levantar a barreira e chegar às portas do edifício.

 

 

A partir daí os manifestantes só não entraram no parlamento porque não quiseram. Ao mesmo tempo, e de forma quase profética, Mário Soares na Aula Magna avisava para os riscos de a violência chegar ao país. Efectivamente, e por muito bem comportados que os portugueses sejam, se o Governo deixar de ter autoridade sobre a polícia, não consegue impedir uma escalada de violência. Nesta altura, já se fala em a polícia fazer uma greve às multas, completamente ilegal, e que abre um perigoso precedente. É que a seguir à greve às multas, pode seguir-se uma greve à perseguição dos criminosos.

 

O Governo sentiu-se por isso posto em xeque e percebeu que tinha de mostrar a sua autoridade. Segundo se refere aqui, Miguel Macedo exigiu ao Director da PSP, Paulo Valente Gomes, que fizesse rolar cabeças dentro da polícia e, como ele se recusou a fazê-lo, tal determinou a sua demissão. Com esta atitude, o Director demitido vai ser considerado um herói pelos polícias, sendo o seu substituto visto apenas como um homem de mão do Ministro. Trata-se de uma estratégia absolutamente suicida, a fazer lembrar Marcello Caetano, quando demitiu Spínola e Costa Gomes por não irem à cerimónia da brigada do reumático. A haver demissão, parece-me que a mesma deveria ser do próprio Miguel Macedo, que deveria ter assumido perante o país a responsabilidade pelo que se passou no parlamento.

 

Muita gente tem desvalorizado os avisos de Mário Soares. Mas a verdade é que, apesar dos seus quase 90 anos, o homem continua perfeitamente lúcido e já viu muita coisa. Esta revolta policial é um sinal claro de que as coisas se estão a tornar muito complicadas para o Governo. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

21 comentários em “Aonde é que pára a polícia?”

  1. O que se passou não pode ter constituído um ensaio geral para a violência que Mário Soares e os que ajoelham a seus pés tanto reclamam? Se tiver que haver violência não pode ser o governo a ser chamado a pagar intenções desordeiras que borbulham á vista na cabeça e na boca de outros que enxovalham vergonhosamente altos cargos que ocuparam á conta dos quais continuam a sugar-nos gananciosamente o orçamento. Curiosamente enquanto o antigo presidente da república dava a sua missa na Aula Magna apontando o perigo de uma nova ditadura, alguns canais de TV davam grandes planos de figurantes que apoiam e mesmo ajudaram a criar e sustentar regimes totalitários.

  2. concordo com a opinião do Luís.

    o rastilho foi aceso. vamos ver se ainda é possível apagá-lo.

    mas quando este primeiro ministro não demite a ministra das finanças e ministro dos negócios estrangeiros, não seria agora que demitiria o ministro da administração interna…

    vamos ver os próximos episódios…

  3. Lúcido é este seu texto assim como muitas das reflexões que tem produzido aqui no DO.

    Sim, é verdade, não obstante algumas gaffes, o que Mário Soares tem produzido e contra o que se tem insurgido. Também é verdade que é necessário mostrar a esta rapaziada que, não obstante a idade, algo deve ser feito para contrariar a estupidez e as criminosas políticas que têm vindo a ser impostas e tão amavelmente seguidas por estes finos e sábios gestores.

    Também eu fiquei especado com o discurso de Miguel Macedo. E este discurso nada mais revelou, com aquela afirmação “e eu aceitei de imediato” (referindo-se à aceitação da demissão), que uma falsa mensagem sobre o que é (não) ter poder para gerir uma situação de insatisfação que é grave e que começa a ser visível também naqueles que possuem, juntamente com toda a sociedade, a incumbência de manter a ordem.

    Aqui chegados, é necessário reflectir sobre a causa desta desordem. A causa dela está quer no PR quer no executivo.
    Depois de uma entrada que fez lembrar o estilo de rufiões em que insultavam um país e que demonstravam andar por aqui sem medo de ninguém, por se entenderem donos de uma verdade transcendente que não era capaz de ser apreendida por “anormaizinhos” que vivem neste jardim de doutos eleitos, segue-se um discurso de apelo a um consenso que se traduz em manter o que já deu provas de não poder continuar.

    Depois de semearem a miséria e a devastação, menorizando-se e revelando a sua verdadeira dimensão, desculpam-se publicamente na casa dita da democracia afirmando que essas medidas que estão a implementar tem como autor o anterior governo.
    Esta menorização de si mesmos reflecte não só incapacidade de gerarem ideias consentâneas com a necessidade do país como também a total ausência de discernimento para encontrar o pedal que breca a “viatura”.
    Adicionalmente, querendo fazer passar uma mensagem de desculpabilização sobre si mesmos, dão a entender falsamente que a sua verdadeira política tinha como objectivo correr com a troika em Junho de 2014.

    Depois de tudo isto, também pretendendo fazer passar uma mensagem de falsa autoridade, e perante um episódio tão caricato quanto rídiculo, querem fazer crer que o sentido da ordem é fazer respeitar a merda de uns 100 metros (com) barreiras, quando eles já ultrapassaram todos os limites da ordem, do bom senso e da má governança.

    Infelizmente este país caiu nas mãos de um PR e de um executivo que mais não fazem que atemorizar “criancinhas” com o papão mercado, levando-as a papar uma intragável e absurda refeição cozinhada pela sua própria inépcia.

  4. pode seguir-se uma greve à perseguição dos criminosos

    A Polícia Judiciária já está, dentro de certos limites, a fazer tal greve, ao recusar-se a trabalhar para além das seis da tarde.

  5. O Marocas que vá fazer avisos ao seu amigo Hollande que, nas sondagens mais recentes, reveladas esta semana, tem apenas 15% (índice YouGov) a 20% (índice IFOP) de cidadãos da terra dele que lhe são favoráveis.

    França essa onde madame le Pen vai com 5 pontos de vantagem sobre os socialistas e se prepara para ganhar as eleições europeias de Maio próximo.

  6. cumprimento com admiração a ponderada decisão de manter a serenidade tanto dos revoltosos como dos autoritarios . fizeram bem e deus os proteja para tenham sempre na vida essa postura serena e cordata. Deram sem querer uma chapada de luva branca a velhos senis que teimam em borrar agora o bom nome que amealharam na praça politica. os amigos deviam chama-los a razao pois é triste o espetaculo de quem nos habituou a admirar a sabedoria politica.

  7. pois é, aquela subida das escadas lembra as imagens épicas da tomada da bastilha e de iwo jima.
    e por isso apagam as afirmações, em directo para as televisões, de um dirigente de uma associação de polícia defendendo a atitude dos polícias de serviço, que permitiram a subida da escadaria, com o facto de alguns dos manifestantes estarem armados e nem todos se encontravam na posse total das suas faculdades…
    declarações que os honoráveis comentadores e opinadores preferem ignorar, convenientemente.

  8. Como sempre, quem tem armas quer ser excepção!
    Como sempre as oposições de esquerda esperam que quem tem armas as tire da indigência de ideias e iniciativas em que vegetam e delas façam a alternativa possível.

    E desde que as aproximem do pote logo lhe chamarão uma vitória democrática.

  9. Com todo o respeito, e se assim o entender não publique este comentário, mas há muito tempo que não lia um post tão imbecil. LMLeitão pensa mesmo que se aproveita alguma coisa das declarações que Soares titubeou na Aula Magna? O que ele e os outros todos que também intervieram disseram não são mais do umas patetices assim a puxar para o gajoporreirismo tão do agrado da esquerda burguesa que vive do OGE. A intervenção do fadista, o célebre “capachinho vermelho”, fica nos anais da lusa-estupidez.
    Na próxima 2ª feira, já ninguém fala naquilo.

  10. Ainda que correcta , a razão que apresenta para o desencadear do 25 de Abril é demasiado redutora .

    O golpe de Estado (a revolução só chegou mais tarde) estava em marcha por um conjunto muito grande de razões , só pelo Decreto-Lei que menciona não teria passado do golpe de Estado , se lá tivesse chegado .

    Ou acha que se não houvesse dezenas de milhar de oficiais , furriéis e de soldados “à força” e com 2 anos “no mato” como perspectiva de vida (alguns altamente politizados) , que não tinham nada a perder – muito pelo contrário ! – as coisas teriam sido o que foram ?

    Ou se a nossa imagem no mundo ocidental não fôsse a que era à altura , com
    um apoio “disfarçado” da Europa e dos EUA como o 25 de Abril acabou por ter ?

    Quando as forças militares e para-militares estão totalmente profissionalizadas já não há revoltas “fáceis” , a “derrota” é o desemprego e um cadastro ingrato …

    1. Redutora ou não, essa foi a razão. E não vale a pena reescrever a história – haverá sempre quem a escreva correctamente.

      1. Não percebi se a 2ª parte do seu comentário era genérico ou dirigido a algo específico que eu tenha escrito .
        Seja uma coisa ou outra tem razão porque o que diz seria é óbvio .

        O post parte desse facto que eu comentei e depois avança para outros factos que , na minha opinião , pouco têm a ver com aquele , quanto mais não seja porque um é irrepetível (o passado é um país diferente) e estes podem não o ser .
        Foi só e apenas nesse contexto que eu classifiquei de “redutora” pois pareceu-me que poderia ser útil acrescentar alguns dados sobre o contexto da época .
        Não estou a contrariar o autor (teria mais por onde no post) nem a procurar discutir o assunto mas apenas a apresentar alguns dados adicionais .

        Acontece que alguns de nós estávamos , à época , mais crescidos ou menos crescidos , mais conscientes ou menos conscientes e outros nem uma coisa nem outra porque ainda não tinham nascido .

        O meu é apenas o ponto de vista de um oficial miliciano (já licenciado e portanto com um percurso universitário numa época conturbada) e colocado à época num quartel específico .

        Uma boa noite para si

        1. Reli o seu comentário anterior e reconheço que o que escreveu estava certo.
          Reagi porque, com frequência, escondem a razão – meramente corporativa – que despoletou o 25 de Abril. Mas tem razão quando diz que a revolução teve êxito por que encontrou caldo de cultura apropriado, tanto em militares politizados, como em apoios disfarçados de outros Estados, para além do apoio de grupos de civis, alguns razoavelmente organizados, todos alinhados politicamente à esquerda.
          Boa semana para si.

          1. Muito agradeço o seu comentário .
            Costumo lê-lo e gosto de o fazer , independentemente de estar ou não de acordo com aquela sua opinião concreta , são coisas diferentes mas demasiadas vezes confundidas por aí .
            Como ainda há dias tive oportunidade de debater com outro comentador que também leio com prazer (concorde ou não com ele na altura) é raro as pessoas voltarem a aparecer e mais raro ainda fazerem-no com espírito construtivo apesar das divergências que tenham .
            A realidade é que na blogosfera , onde não se vêem caras nem entoações , onde cada um é um número , só da discussão útil se pode partir para o respeito (ou então ficar logo por ali na indiferença) .
            De comentários de pasquim , de quem não sabe do que fala (nem quer saber) estamos todos fartos .

            Também reli o meu comentário inicial à luz deste seu último comentário e verifico que talvez me tenha explicado mal .
            A questão , para mim , é que os movimentos corporativos de hoje são “outra coisa noutro sítio” , se a insatisfação e o descontentamento são grandes e com boas razões para isso também o ambiente geral é outro , já não há “vagas de fundo revolucionárias” numa Europa envelhecida e , em muitos casos , bastante acomodada .
            Pode é haver (e já começam a desenhar-se) outro tipo de “vagas de fundo” , tanto políticas como sociais (a fronteira é difícil de ver) , mais silenciosas e preocupantes .

            Não vou repetir o que o “Tiro ao Alvo” tão bem sintetizou do meu comentário mas também eu não tenho qualquer dúvida da origem corporativa do movimento , não só assisti a muita coisa como tenho quase tudo o que foi publicado desde então sobre o 25 de Abril , sou um interessado nestas coisas da História contemporânea (apesar de – ou talvez por – ter uma formação de base puramente técnica).
            O “Maio de 68” também começou por ser um movimento com muito de corporativo ao nível universitário .

            De resto hoje , passados 40 anos , já seria possível escrever a História desses tempos com alguma isenção devido ao distanciamento existente , mas isso ainda não aconteceu por várias razões , há demasiados intervenientes de todos os quadrantes ainda “no activo”.

            40 anos é muito tempo , para mais num mundo que evoluíu muito mais (para o bem ou para o mal) nos últimos 20 a 30 anos que nos 100 a 150 anteriores (pelo menos!).
            Há 40 anos eu andava preocupado que o meu filho mais velho não caísse nas escadas ou se magoasse com um garfo , agora estou preocupado que ele não tenha um AVC e com as namoradas que o neto mais velho vai arranjando …

            Mas por vezes penso que muita gente não o percebe ou não o quer perceber : é nos novos que eu deposito esperança como outros depositaram em mim quando eu era novo , há tanta gente muito válida como havia há 40 ou 50 anos , ainda que os “velhos” nem sempre apreciem encarar essa ideia .
            E com vários filhos e netos que tenho (mais os dos amigos todos) , leio muitos comentários e verifico que há um grande desconhecimento do que são e pensam as novas gerações (que são o futuro , não eu que já sou técnicamente idoso) , talvez porque a net esteja habitada por quem não os tenha ou viva demasiado virada para si e para o seu próprio passado .

            PS – Resta-me agradecer ao Luís Menezes Leitão o espaço e aos eventuais leitores a paciência disponibilizados .

          2. Rmg, agradeço o seu comentário e identifico-me com tudo o que escreveu, inclusive com as preocupações que hoje o atormentam. Temo é que eu não esteja apenas “tecnicamente idoso” e que não tenha tempo para ver “isto” endireitar – também eu acredito no futuro, que estes espaços de liberdade preparam, com a ajuda deste e de outros “Menezes”, não obstante os abusos que todos os dias testemunhamos.
            Haja saúde!

          3. Obrigado pela sua resposta .

            Continuaremos assim a estar presentes nesta tertúlia diária e permanente que é o DO e a trocar ideias , todos os dias aprendemos uns com os outros pois todos nós somos ignorantes ainda que sobre diferentes assuntos .

            Uma boa semana para si também

  11. Avisos que se confundem com ameaças não são avisos.

    Nada do que aconteceu foi por acaso.
    Os ideólogos da violência querem-na controlada para só assustarem os “ricos” até certo ponto.
    O ponto certo é os “ricos” não terem tento medo que fujam mas que tenham medo o suficiente para pagarem.

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