António Victorino d’ Almeida: «Não canto em parte alguma, desafino a cantar»


Pedro Correia,

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«As regras existem para poderem ser transgredidas. Mas é bom que existam. Caso contrário, não se transgredia nada.»

 

Conversar com o maestro António Victorino d’ Almeida é garantia de que, minutos volvidos, estaremos a soltar umas saudáveis gargalhadas. Ele é naturalmente bem disposto e sem ponta de presunção intelectual. Nesta ocasião – como noutras – a conversa fluiu entre divertidos à-partes e a promessa (que viria a concretizar-se) de um bife com ovo a cavalo. Só a Sharon Stone faltou à chamada.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Aconteceu quando um amigo meu (ex-amigo, melhor dizendo) fugiu com todo o dinheiro de um trabalho que estávamos a fazer em conjunto.

Com amigos desses não precisa de inimigos…

Pois não.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Mas gosto de passar umas temporadas num hotel. Já em relação ao turismo de habitação sinto uma verdadeira alergia.

A sua bebida preferida?

Água.

Que número calça?

Não sei.

Que livro anda a ler?

Infelizmente, não estou a ler nenhum. Ando a rever provas de um livro meu, a História da Música Ocidental.

A sua personagem de ficção preferida?

Talvez seja o Ulisses.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Em termos automobilísticos, não tenho alternativa. Não sei conduzir.

É bom transgredir os limites?

Os limites, não. Não devemos confundir os limites com regras.

É bom transgredir as regras?

As regras, sim. Só existem para poderem ser transgredidas. Mas é bom que existam. Caso contrário, não se transgredia nada.

Qual é o seu prato preferido?

Um clássico: bife com batatas fritas e um ovo a cavalo.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Desconheço quais são os pecados. Mas não devem ser mortais, porque ainda estou vivo. A palavra mortal está mal escolhida.

A sua cor preferida?

Sou daltónico. Mas é o azul.

Costuma cantar no duche?

Nunca. Nem no duche nem em parte alguma. Desafino a cantar. É uma coisa horrível! A desafinação, na maior parte das vezes, não tem a ver com o ouvido mas com a incapacidade de chegar aos sons em termos de técnica vocal.

E a música da sua vida?

Não tenho. Para mim esse conceito não existe.

Sugere algum alteração ao hino nacional?

O hino é muito dificilmente cantável, tem uma extensão enorme. Mas se fosse alterado deixava de ser o que é. É óbvio que a letra é muito feia. Mas a da Marselhesa é ainda pior. A gente habitua-se àquilo. O melhor é não mexer em nada.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Não iria optar por nenhum político se pudesse jantar com a Sharon Stone.

As aparências iludem?

Concordo com a frase do Oscar Wilde, que dizia: «Só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências.»

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As meias. Enquanto não calço meias sinto-me muito desprotegido. 

Qual o seu maior sonho?

O meu maior sonho (que temo nunca passe disso) é que as autoridades responsáveis portuguesas aprendessem um mínimo de cultura musical.

E o maior pesadelo?

Que as autoridades responsáveis portuguesas nunca aprendam um mínimo de cultura musical.

O que o irrita profundamente?

A arrogância.

O que faria se fosse milionário?

Não sei que alterações morfológicas isso iria desencadear em mim. Presumo que fizesse uma série de coisas boas. Mas talvez me transformasse num safado. Nunca se sabe.

Casamentos gay: de acordo?

Eu não levo nada a sério os casamentos.

Uma mulher bonita na política?

Era a Benazir Bhutto.

Acredita no paraíso?

Espero que exista.

Tem um lema?

Fazer o melhor possível.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (2 de Fevereiro de 2008)

5 comentários em “António Victorino d’ Almeida: «Não canto em parte alguma, desafino a cantar»”

  1. Deveras uma “singularidade”.
    Apenas fiquei triste com a pouca força da transgressão.
    Transgredir, sem desejar que se quebrem os limites — apenas uma bricolage de permutações e combinatórias dentro do aquário de um Limite (regras) — será uma verdadeira transgressão?

  2. Treze anos passados, a Sharon Stone continua bonita e os políticos não têm qualquerr cultura, seja ela qual for; tocam música de ouvido para embalar os papalvos que neles votam.
    E as pessoas tornaram-muito mais superficiais, Maestro.
    Gostei de ler. Next!

  3. Um dia gostava de lhe explicar muito bem o que é um certo grau de transgressão transbordada dos limites, completamente – chama-se rotura e pode chamar-se afundamento …

  4. Gosto do maestro e das suas transgressões algumas das quais conhecidas e outras nem tanto. Partilho a noção de diferença entre limite e regra, um pessoal e íntimo e a outra imposta do exterior.

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