
É muito provável que o cinema português não o saiba, já que o votou ao esquecimento prematuro, mas com a morte de António de Macedo perdeu um dos seus mais talentosos, mais ousados, e mais originais cineastas. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente antes de descobrir a sua obra – era presença assídua no Fórum Fantástico, tanto como convidado como na qualidade de espectador, e ouvi-lo era sempre um privilégio pela lucidez, pelo humor, pelas histórias mirabolantes que contava. Só mais tarde encontrei a literatura fantástica que escreveu e os filmes que realizou enquanto lhe foi possível. Há cerca de um mês vi na Cinemateca a sua primeira longa-metragem, Domingo à Tarde (1965), adaptada do romance de Fernando Namora; mas guardo especial memória de descobrir o assombroso O Princípio da Sabedoria (1975) há poucos anos, numa sessão memorável.
No ano passado, o DocLisboa encerrou com Nos Interstícios da Realidade, ou o Cinema de António de Macedo, um documentário realizado por João Monteiro, do Motelx, sobre o papel fundador de António de Macedo no “Cinema Novo” e sobre a forma como foi sendo afastado e esquecido. Deverá ser exibido dentro de pouco tempo em salas de cinema de todo o país, após a ante-estreia de ontem na Cinemateca, e não o poderia recomendar mais. Entre o documentário e as homenagens dos últimos anos, é possível que a obra de António de Macedo seja resgatada ao esquecimento e que ocupe o seu lugar merecido na história do cinema português. Já era tempo.
António de Macedo faleceu hoje, aos 86 anos.

Uma notícia muito triste, que estou agora a saber por ti, João. Há muito que admirava o António de Macedo – pelos filmes (‘Domingo à Tarde’ é um dos melhores filmes portugueses da década de 60, como tive ocasião de escrever aqui e de lhe dizer), pela sabedoria, pela firmeza na defesa das suas posições – contra o famigerado “desacordo” ortográfico, por exemplo.
Um verdadeiro intelectual que honrou esta palavra e esta responsabilidade. Ao contrário de tantos outros, que presumem sê-lo sem sequer chegarem lá perto.
E era, além disso, também um amigo do DELITO. Era, de algum modo, membro honorário do nosso blogue.
Senti a falta dele nas duas últimas edições do Fórum Fantástico – ouvi-lo a falar da plateia, interpelando os convidados e o público, foi sempre um privilégio. E mais ainda conversar com ele sobre os seus filmes – o humor era sempre desarmante, e as histórias que contou da produção de “O Princípio da Sabedoria”, das coreografias e acrobacias feitas em “Sete Balas para Selma” e da perseguição à estreia de “As Horas de Maria” eram fascinantes. Vai fazer-nos mesmo muita falta.
Já agora, o documentário do João Monteiro é muito bom, Pedro. Se tiveres a oportunidade de ver, não a deixes passar.
Há na verdade pessoas extraordinárias. Como seres humanos, como profissionais. Mas o mundo esquece-os. Empurra-os para o sem memória. Mas sempre me pergunto se as glórias do mundo e o seu reconhecimento – tanta vez fictício – lhes seriam necessários. Se, enquanto viveram, sequer pensaram nisso. E julgo que não. E acho-as ainda mais extraordinárias.
Que a morte seja como esperava Sócrates: uma noite longa e sem sonhos. Mas descanso de que não se acorda não sei se pode nomear-se descanso. Por mais que iludamos o facto, a morte é outra coisa.
A questão do reconhecimento não será tanto por necessidade mas por justiça – o cinema português não tem dimensão ou qualidade para que se possa dar ao luxo de ostracizar alguém com o talento e com a ousadia de António de Macedo. Enfim, nos últimos anos houve várias homenagens merecidas, mesmo que tardias – como se de repente alguém tivesse descoberto os filmes dele e, com surpresa, que ele ainda estava vivo.
E sim, a morte é outra coisa. O que será, ninguém sabe.