António Costa não é nenhum indiano


João Pedro Pimenta,

Para além de todas as críticas a António Costa (merecidas, em grande parte), há uma coisa que francamente não suporto: é quando lhe chamam “monhé”, “chamuças”, “indiano” ou até “preto”. Além de serem “argumentos” de tasco e declaradamente racistas – aqui não há qualquer dúvida – são próprios de gente que ou nunca saiu da terrinha ou não conhece o seu país e a cultura que deu ao Mundo.

António Costa não é indiano. É português, filho de um goês, tal como outros membros do seu governo, de governos anteriores, de outros partidos, como o Prof. Narana Coissoró, e de tantas outras áreas da sociedade. Só por aí se pode ver a importância de Goa e dos goeses nas elites portuguesas. Não é à toa que se fica mais de quatrocentos anos num território. Goa representa o que de melhor a presença portuguesa deixou no mundo: uma mistura de cultura lusa e indiana, traços sólidos de civilização e uma população preparada, instruída e trabalhadora. É o melhor exemplo do que a lusofilia e a portugalidade podem apresentar. E se poucos que lá moram falam a língua portuguesa, os nomes de família conservaram-se orgulhosamente.

Não tenho propriamente um grande fascínio pela Índia, mas gostava de conhecer Goa. Lá não existe a pobreza confrangedora que se avista noutras partes do subcontinente. Um dia perguntei a uma rapariga indiana, que me disse ser da costa oeste do país, se era goesa. Ela respondeu, com ar resignado, que não, mas que viver em Goa seria um sonho, tanto para ela como para qualquer indiano.

19 comentários em “António Costa não é nenhum indiano”

  1. viver em Goa seria um sonho, tanto para ela como para qualquer indiano

    É o Estado mais rico da Índia.

    Também afamado pela sua cultura hippy. Muitos europeus e americanos instalaram-se lá, usufruindo também das praias, que são das melhores da Índia.

    Panaji (Pangim em português), a capital, é absolutamente, como me disse a minha cicerone indiana quando lá estive, “absolutamente não-indiana” no aspeto. Parece uma cidade portuguesa de província dos anos 1950.

  2. Não é só Goa. Também temos muitos portugueses de raças “estranhas” vindos de Moçambique. Uma vez conheci uma rapariga de raça 100% chinesa, mas que era uma portuguesa filha de chineses que tinham emigrado para Moçambique. Houve muitos chineses que para lá foram, e de lá para cá.

  3. Não sei se “monhé” ou “chamuças” é pior do que “tuga” ou o permanente “portuguesinho” dos brasileiros. Contra esses insultos —contra o permanente rebaixamento dos portugueses feitos por toda a gente— nunca vi nada escrito.

    É particularmente grave quando os brasileiros tentam insultar outras nacionalidades. Como dizem os ingleses, “they have their heads too far up their own arse”

    1. A diferença é que “tuga” não é um insulto racial. Aliás, eu como português não vejo “tuga” como um insulto e se um brasileiro usasse isso comigo como insulto, eu apenas lhe diria que não foi o meu povo que elegeu Bolsonaro.

  4. S. Francisco Xavier era de Navarra – é importante frisar que não era castelhano – e teve a sua formação em Paris, sob orientação de um português.
    As festas de S. Francisco Xavier em Goa são – creio eu – a única ocorrência de convívio comum entre cristãs, hindus e muçulmanos. Isto é uma herança cultural portuguesa e de que sinto o maior dos orgulhos.
    Mas sinto a maior das tristezas quando sei que o governo indiano está a cuidar do património arquitectónico de Goa muito melhor do que os portuguese o teriam feito mas com igual eficácia, está a garantir que a herança cultural portuguesa não sobreviva à geração dos agora mais velhos. E revolto-me – inutilmente, eu sei – quando me lembro que Mário Soares, sem qualquer mandato para isso, entregou Goa de direito aos indianos – apesar do direito internacional decidido pelo Tribunal de Haia – como se fosse propriedade pessoal.
    Aliás seguindo as pisadas ou, se quiserem os métodos de Salazar quando transferiu Cabinda – com um tratado com Portugal desde 1885 e, de facto, com a Coroa Portuguesa, desde o ínicio do séc XV – para Angola, como distrito governado por Luanda; ou de Khruschev quando em 1954 transferiu a Crimeia – como gesto “simbólico”(sic) e sem qualquer discussão anterior – para a Ucrânia.

    1. Certo nacionalismo basco, que considera Navarra como parte do “Euskadi” (embora curiosamente o País Vasco propriamente dito nunca tenha sido independente, ao contrário de Navarra), passa a ideia de que a Companhia de Jesus é uma das grandes criações bascas.
      Muitas porções de território foram dada ao desbarato por questões políticas (também o Kosovo, retirado aos sérvios, ou Konigsberg/Kaliningrado, que nada tinha a ver com os russos).A Relíquia de S. Francisco Xavier lá continua em Goa.

  5. “Para além de todas as críticas a António Costa (merecidas, em grande parte), há uma coisa que francamente não suporto: é quando lhe chamam “monhé”, “chamuças”, “indiano” ou até “preto”.”
    Precisamente. é de pessoas mentalmente preguiçosas, facilitistas. O que está mais à mão da cabeça é a côr da pessoa e é o que sai.

    ” são próprios de gente que ou nunca saiu da terrinha ou não conhece o seu país e a cultura que deu ao Mundo.”
    Sobre esta parte discordo, há quem saia e ainda venha mais básico…

  6. A casta do castiço. “Filho de um goês, brâmane e …”
    António Costa visita Goa e homenageia o pai, Orlando da Costahttps://www.publico.pt › 2017/01/11 › politica › noticia
    11/01/2017 — Na capital da antiga Índia Portuguesa, o primeiro-ministro convive com a comunidade portuguesa e homenageia o seu pai, um goês, brâmane e …

  7. Reza a wikipedia: “descendente direto por varonia de Marada Poi, Brâmane Gaud Saraswat do século XVI)”.

  8. A propósito de quem nunca saiu da sua terra – não eu, que calcorreei o torrão à beira mar plantado – sou forçado a concordar com provérbio, recordado por Eduardo Lourenço: Quem a minha aldeia, vê a terra inteira”.
    Ora, quem ignora o preconceito, seja qual for, localizado e direcionado – nega que todos o têm.
    Vários e complexos, como mecanismos de sobrevivência humana, desde as origens tribais.

    1. Nunca se descobriu ser algum que não tivesse preconceitos, apesar de muitos garantirem que não os têm, e por vezes alguns preconceitos até nem estão errados. Mas em casos como este não é difícil ver que é um perfeito disparate.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *