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Aplaudo esta crónica do professor e tradutor Marco Neves. Hoje esquecemo-nos de que Portugal, até meados do século XX, era um país de analfabetos. Não só por me interessar por História, como por andar a consultar livros paroquiais antigos, a fim de fazer a crónica da família, estou em constante contacto com o passado. E, quando reflicto sobre questões destas, gosto de ir procurar casos concretos, precisamente, na minha família, uma típica família portuguesa, que, salvo raras excepções, não pertencia à “elite” frequentadora da escola.
Apesar de ter tido a sorte de nascer num lar de professores primários e começado a juntar as primeiras letras com quatro anos, não preciso de ir muito longe, a fim de confirmar o analfabetismo que grassava no nosso país até meados dos anos 1980. Não tenho pejo em afirmar que, dos meus quatro avós, só o meu avô materno se sentou nos bancos escolares, concluindo o antigo quinto ano do liceu e tornando-se funcionário público.
O meu avô transmontano sabia ler e escrever por ser autodidacta. Começou a aprender durante a tropa e desenvolveu os conhecimentos ao longo da vida, tornando-se numa ajuda preciosa para os habitantes da sua aldeia. As minhas duas avós eram analfabetas, a materna pediu-me muitas vezes para lhe ler alto as legendas dos filmes (normalmente, era o meu avô que lhas lia). A minha avó transmontana nem sequer se habituou à televisão, apesar de os filhos lhe terem oferecido uma, tinha ela já quase setenta anos.
Se recuar ainda mais, até aos meus oito bisavós, penso que também só um deles estudou, era funcionário das Finanças, como o filho viria a ser. Casou com uma jovem de família conceituada da Mealhada, mas sinceramente não sei se essa minha bisavó sabia ler e escrever. Nascer num berço algo privilegiado, não era garante desse tipo de aprendizagem, para uma mulher. Todos os outros seis bisavós eram analfabetos.
Depois da Revolução de 1974, fez-se muito esforço para acabar com o analfabetismo. Sei isso igualmente por experiência pessoal: o meu pai preparou muitos adultos para o exame da 4ª classe. Por isso, tal como o professor e tradutor Marco Neves, eu pergunto: quando foi essa época em que escrevíamos muito melhor?
Este é aliás um erro comum, não só no que diz respeito à escrita. Como a memória não é perfeita, lembramo-nos mais facilmente daquilo de que gostámos do passado — e acabamos por idealizá-lo. A memória é uma peneira que, do passado, nos dá apenas os diamantes. A lama, essa, fica escondida na aridez dos números e de alguns livros de História.

Hmm.. Não haverá aqui uma confusão entre quantidade e qualidade?
Até se costuma dizer que a quantidade afecta a qualidade — e que por isso mesmo a democratização das coisas (das escolas, por exemplo) implica uma redução dos seus propósitos mais rigorosos.
Porque o que era desenhado para “elevar” e tornar algo melhor hoje é desenhado para “contar” (para a performance da estatística). O Acordo Ortográfico é o exemplo mais acabado dessa mentalidade.
Concordo plenamente com a sus visão do problema apesar de, por vezes, também ser tentado a dizer que “antigamente se escrevia melhor”. Penso que a maior diferença está em que, antigamente apenas quem escrevia bem tinha acesso a publicação; só líamos textos bem escritos, sem erros, com pontuação adequada, enquanto hoje em dia temos acesso ao que escreve qualquer pessoa. Por outro lado, basta ver como, passados uns anos, pessoas que até aprenderam a escrever com correcção estão a escrever… Outra novidade é esta: no tal antigamente, quem dava erros tinha vergonha nisso e procurava evitá-los; hoje quem dá erros até se orgulha disso e goza com quem escreve correctamene… Quem se atreveria, na escola, a escrever “à Saramago?”. Resumindo e concluindo: prefiro continuar a escrever com correcção ortográfica, pontuação adequada, linguagem fluente, riqueza e variedade vocabular… evitar cacofonias, hiatos e colisões e aliterações. E até, coisa que hoje vale pouco, ter uma “letra bonita”…
Bem, não sei se toda a gente que dava erros, antigamente, tinha vergonha disso. Talvez mais gente do que hoje, mas toda a gente? Recebi alguns bilhetinhos “de amor”, até cartas, cheios de erros (há coisa de 35-40 anos). Nunca me constou que os seus autores tivessem vergonha. Muitas vezes até me perguntava se tinham consciência dos erros que davam.
É capaz de ter razão Cristina; e então se formos a ver os “lenços de namorar”, aqueles erros são hoje propositados, mas também correspondem a uma forma de escrever que existia e existe na gente mais simples. Talvez a palavra “vergonha”, utilizada por mim, seja exagerada, mas tenho a certeza de que ninguém defenderia como correcta essa forma de escrever.
Concordo em absoluto, Cristina. E acrescento que mesmo no confronto com escritores do passado – salvaguardando nobres e honrosas excepções – a comparação está longe de ser favorável às gerações antigas.
Convém sublinhar que os escritores do passado cuja obra chegou aos nossos dias já vieram depurados pelo crivo crítico e analítico de algumas gerações.
A escrita padrão em 1850, em 1900 ou em 1950 não podia confundir-se com aquilo que quatro ou cinco (ou dez ou vinte) grandes escritores transmitiram à posteridade.
Refiro isto porque ando há dois anos a ler ou reler obras de ficção literária de autores portugueses do século XX, do primeiro ao último ano do século. Tenho encontrado obras-primas, felizmente várias. Mas tenho também tropeçado em muita escrita incompetente que ganhou galões nem faço ideia porquê. E que dificilmente resiste ao maior dos testes, que é o teste do tempo.
E já nem sequer encontro, porque desapareceram de circulação, as obras de padrão médio, médio-baixo ou baixíssimo dessas épocas.
Hoje lê-se mais e escreve-se muito mais. Por isso mesmo também se escreve muita porcaria. Daí a importância de seleccionarmos aquilo que realmente vale a pena. Aquilo que sobreviverá à nossa época.
Não mitifiquemos um passado que muitas vezes só existe ou existiu na imaginação de alguns e na saudade de muitos.
Provavelmente daqui a 100 anos dirão o mesmo dos dias de hoje, que éramos uns analfabetos…
Carla Santos
De facto, é importantíssimo ler com espírito crítico, Pedro, principalmente, nas redes sociais e neste mundo virtual. Mas também livros, sejam eles de autores consagrados/considerados, ou não.
As famílias que tinham acesso a escolaridade e a cultura no passado sem dúvida que tinham ou têm mais conhecimento em relação a escrita e a leitura de livros.
Hoje existe de facto uma generalização fácil de acesso ao conhecimento( pouco ou nenhum analfabetismo), mas será que somos um povo mais culto, educado e sensato? Penso que não! Hoje há muito menos valores morais, muita falta de educação e acima de tudo pouca sensatez.
Rui Santos
Julgo que quando se diz que antigamente se escrevia melhor, ninguém se refere a um passado tão distante, mas à geração anterior ou mesmo à de quem o afirma. E acredito que sim, que se escrevesse melhor. Por serem menos os que escreviam e por serem, em geral, de classes mais bem nascidas. Ser filho de um professor primário já era uma chance, bem me lembro como tratávamos os filhos, sobrinhos e demais família dos professores e até como os invejávamos, eram de um meio diferente, comiam alimentos diferentes e melhores, vestiam agasalhos e calçavam sapatos, tinham livros, coisa que nos não aparecia em casa nem em lado nenhum excepto na escola. A democratização do ensino trouxe toda a gente à escola e não apenas ao ensino básico. E esse facto que é do mais positivo que há, também trouxe os seus males e azares (que os há em tudo que seja humano); não são apenas alguns a aprenderem, mas todos. Há os que escrevem bem e muito bem; os que se desenrascam; e os que enchem de erros qualquer escrita que façam.
Ainda assim, por vários motivos que não vêm à colação, hoje escreve-se pior do que há dez ou quinze anos. É um facto. E não me refiro a escritores, os bons e muito bons continuarão a existir, são aqueles que viajam quase sozinhos, sem necessidade que os empurrem, são bons. Falo do aluno normal que frequenta as nossas escolas estatais.
Bem, na década entre 1985 e 1995, os professores já se queixavam muito dos erros dos seus alunos. O meu pai não deu só aulas na primária, licenciou-se, no início da década de 80, e deu aulas de Filosofia e Introdução à Política num Externato. Ao corrigir testes, mostrava-nos coisas de bradar aos céus. Mas, no meio de tanto erro, só me lembro de um aluno que, no acto de inscrição, ao nomear as disciplinas que desejava frequentar, indicou “bisual”. Não foi fácil chegar à conclusão de que ele se referia a “Educação Visual”.
Nessa época eu era professor do Magistério Primário; mais tarde voltei a trabalhar na formação de professores. Sempre disse que, na minha avaliação dos Testes, contariam os erros ortográficos; os alunos, afinal, iam ser professores. Era um pouco criticado por isso. Mas na Escola do Magistério, o professor de Português, um dos da “velha guarda”, era tão exigente que até avaliava o ângulo dos acentos… É que havia alunos que, não sabendo se acentuar com agudo ou grave, colocavam o acento na vertical…
Confesso que cheguei a usar igualmente esse truque, mas penso que foi mais na primária e nos primeiros anos do liceu.
Mas é indiscutível que, actualmente, muitos supostamente alfabetizados escrevem – e falam – muito mal: https://lishbuna.blogspot.com/2021/04/um-t exto-de-rui-cardoso-que-devera-ser.html
Se quisermos ser puristas, a frase correcta seria “antigamente, os poucos portugueses que sabiam escrever, escreviam melhor”.
E escrevia-se, nem que fosse cartas para amigos e namoradas. E tinha que se ter muito cuidado na elaboração das missivas, pois não podíamos correr o risco de ser mal interpretados, que não havia meio rápido de esclarecer enganos.
Mas noto, e não é de hoje, um total descuido com a escrita (na qual me incluo, nomeadamente nos IM), e pior, o assumir que erros, gralhas, calinadas em geral e pontapés na gramática em particular são insignificantes quando comparados com a mensagem, seja lá isso o que for. A discussão do conteúdo acima da forma.
Já tenho 4* anos, e já nos tempos universitários, estudantes de engenharia achavam irrelevante a boa escrita, enquanto que os de Letras e Direito se orgulhavam de não saber o que é uma fracção.
Também concordo em absoluto.
E é a primeira vez que posso dizer isto de um texto de Cristina Torrão.
As pessoas em geral iludem-se muito com o que recordam dos tempos antigos. Não é só com a escrita.
São duas situações distintas que convém separar, o escritor e o leitor.
Os critérios de publicação no passado eram muito mais rigorosos que no presente. Hoje qualquer um publica, o que quiser e como quiser.
Como antigamente o analfabetismo era elevado, os poucos leitores que existiam eram mais exigentes.
Hoje a oferta é muita, o meio de distribuição é variado, e o controle de qualidade é praticamente inexistente.
As novas tecnologias vieram proporcionar a distribuição do mesmo conteúdo numa diversidade de meios. O leitor, ao ser inundado com tanta informação, procura aquela que por qualquer motivo lhe chama a atenção.
Hoje pode-se dizer que o critério de qualidade baixou em relação ao passado, pois só isso explica a aprovação e entrada em vigor do AO90.
Também gosto de Marco Neves que leio sempre no Sapo e acho que ele está bastante acima do aproveitamento rasteiro que Cristina Torrão dele faz.
Têm todos razão, Marco, Cristina e Pedro quando constatam que a tendência para recordar o melhor e esquecer o pior é – graças a Deus! – comum a todos os que não sofrem de algum desiquilíbrio mental.
Já quanto ao analfabetismo, lembro dois factos e acrescento uma experiência pessoal.
– As campanhas de educação de adultos no Estado Novo datam dos anos 50 (Daniela Vilaverde e Silva – A Campanha Nacional de Educação de Adultos no Estado Novo: uma leitura dos debates parlamentares
História. Revista da FLUP. Porto, IV Série, vol. 6 – 2016, 71-87.
– Na Europa, a necessidade de educação de adultos – evidentemente com muito diferentes bases de partida – só é publicamente reconhecida a partir do célebre relatório Faure de 1972. A implementação na generalidade dos países europeus é na década de 80. (não tenho dados mas creio que na Europa de Leste, o panorama foi melhor).
– No final de 1966, estando no serviço militar na Guiné, aproveitei uma licença anual para visitar Cabo Verde. Nessa altura a taxa de literacia de Cabo Verde era superior à da Metrópole mas evidentemente o desenvolvimento económico não. Na cidade da Praia, utilizei os serviços de um engraxador e, estranhando a boa dicção e gramática, perguntei e fiquei a saber que tinha o 5º ano dos liceus. Visivelmente divertido com o meu ar de perplexidade, apontou um colega na outra ponta da praça e disse-me: aquele tem o 7º ano.
Pode-se (e deve-se) questionar as escolhas de Salazar mas, tendo em conta o país que os militares lhe entregaram 1928, a primeira década foi a resolver o mais imediato, a segunda a lidar com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra e só depois entendeu ser o tempo do desenvolvimento económico, de que a educação seria uma exigência.
Sou e sempre fui muito crítico de Salazar e as minhas prioridades seriam certamente outras mas há que reconhecer que ele tinha uma visão integrada do país. E mais consolido essa opinião com conhecimentos que tenho de casos de licenciados caixas de supermercados e de um caso extremo da filha de uma médica amiga da minha mulher que se licenciou, fez o mestrado, está à beira do doutoramento e continua a viver com a mãe porque nunca encontrou um emprego minimamente compatível.
“aproveitamento rasteiro”?
Tenho um post breve com a estatística do analfabetismo em Portugal no século XX: 7/evoluo-do-analfabetismo-em-portugal.ht ml
http://imagenscomtexto.blogspot.com/2008/0
e outro sobre a Tailândia: 7/preconceito.html
http://imagenscomtexto.blogspot.com/2008/0
A situação de Portugal foi excepcional na Europa, devido ao nosso imenso desprezo pela alfabetização da população em geral, pois achavam que bastava ter umas “élites” instruídas.
Obrigada pelas informações, muito interessante.
Quando havia ainda o serviço militar obrigatório, os rapazes de 18 anos tinham de ir à inspecção. O meu irmão fez a sua em meados dos anos 1980. Eram cento e poucos rapazes, nesse dia. Perguntaram-lhes quais deles tinham concluído o liceu e quais eram analfabetos (tinham de dar um passo em frente ou atrás, conforme a situação). O meu irmão ficou abismado, quando viu quase dez rapazes no grupo dos analfabetos. Afinal, a escolaridade obrigatória já existia há alguns anos.
Peço desculpa mas custa a acreditar. Não seria uma estratégia para não ir à tropa? Havia muitas estratégias do género.
Não penso que isso fosse razão para escapar à tropa, não me consta que os analfabetos que fizeram a inspecção com o meu irmão tivessem ficado livres. Além disso, seria algo fácil de confirmar, caso se tratasse de um truque comum. Os responsáveis ficariam desconfiados. Penso que se tratou apenas de uma primeira tiragem, a fim de os encaminhar para o serviço respectivo. O meu irmão, por exemplo, por frequentar o 12º ano, foi inscrito numa lista de candidatos a furriel miliciano. Além disso, quem já frequentasse a faculdade, tinha direito a adiamento.
Ao meu irmão também custou a acreditar. Mas ele viu com os próprios olhos e foi das primeiras coisas que contou, quando chegou a casa.
O local era a cidade do Porto. Nessa altura, nos arredores, havia ainda indústria de calçado que se servia do trabalho infantil. Muitas dessas crianças eram impedidas, pelos próprios pais, de irem à escola, a fim de ganharem dinheiro para a família. Essa podia ser uma das razões.
Errata: “uma primeira triagem”
Tem toda a razão. Mas podemos comparar o que é comparável. E podemos comparar os indivíduos com o sétimo ano dos liceus de há 40 anos com os licenciados de hoje. Um susto! Cheios de jactância, sabem dizer, e escrever, contratualizados e conseguem confundir ver com visualizar. E quando se esquecem do latim para pronunciarem “aitem” em vez de item, é de fugir! E se dúvidas houver, leiam os textos legislativos antigos e comparem-nos com os actuais.
Não estou a brincar!
Trabalhei 6 semanas num hospital( um dos maiores) e um dia aparece-me uma senhora com um papel de um médico que tinha em letras grandes “Bué Urgente”, não sei se é para chorar ou para rir, mas é verdade.
Ricardo
Até arrepia. Não é por nada, mas mesmo para o saber técnico é preciso ler. Será que entendem o que lêem?
Pois eu acho que nunca houveram tantos livros com tanto musgo como agora! Muito musgo, de propósito para as pessoas não perceberem metade do que lá está escrito, para não se atreverem a dizer, ou a julgar, se o livro é bom ou mau! Podem não dar erros, mas espalham uma misturada de palavras pelas páginas que quase sempre resultam numa espécie de arroz á valenciana , que não chegam a causar-nos prazer nenhum em ler e muito menos colocá-lo na mesinha de cabeceira como acontecia com a maioria de um romance dos antigos.
Portanto, é um ler analfabetizado, ou seja, ler ou não ler é “chover no molhado”!!
Desculpe minha Senhora, mas é assim que vejo muitos autores de agora…