Ainda não fez uma semana que a troika se despediu dos régulos que tomam conta do “Protectorado” e já um ilustre autarca se prepara para cumprir uma promessa eleitoral. Inadiável, digo eu. Sim, porque quando se considera estruturante um investimento de € 100.000,00 (cem mil euros) para construir uma “pista pedonal para cumprimento de promessas em nome de Madre Rita“, quem o promove deve ter direito a fotografia na primeira página. Para que todos os portugueses a quem são pedidos esforços e sacrifícios possa ver a cara do “pagador de promessas” e agradecer convenientemente o investimento quando com ele se cruzarem na rua ou, quem sabe, numa procissão pré-eleitoral.
Para um tipo que foi secretário de Estado do Sr. Passos Coelho, num executivo onde também estava aquele senhor a quem chamavam “doutor”, que ia fazer a reforma das autarquias, da RTP e de mais um montão de coisas, para poupar dinheiro aos contribuintes, acabar com as gorduras do Estado e reduzir a despesa pública, penso que seria importante incluir este cavalheiro nas medalhas para o Dez de Junho. Oxalá que o Presidente da República não se esqueça dele.
Autarcas destes, dos que cumprem promessas e anunciam investimentos estruturantes em honra das santinhas da terra a 72 horas de um acto eleitoral, já escasseiam. Com a generosa protecção do partido ainda menos.


Já vai sendo costume, de cada vez que o autor destila a sua indignação num post, ter de usar de extrema cautela na leitura da notícia que estará na origem de tal extravaso. De facto, a ingenuidade com que o autor se deixa convencer por um título ou uma frase bombástica é a prova mais evidente de que o jornalismo de sarjeta tem um futuro risonho à sua frente.
Afinal, o que vai ser construído? A própria notícia linkada lá acaba por dizê-lo: uma estrada a ligar a Casa-museu à igreja paroquial de Ribafeita, e ao lado um caminho tipo ecopista, o tal corredor pedonal que servirá, quer para o cumprimento de promessas, quer para outros efeitos, ao longo do ano.
E quando vai ser construída? A tempo de estar pronta no final de Julho, em que se realizará uma peregrinação internacional (e a inauguração da Casa Memorial).
E estava prevista a sua construção? Sim, constava do programa eleitoral do candidato à presidência da Junta de Freguesia que ganhou as eleições.
Claro que o autor do post podia ter-se dado ao trabalho de recolher mais informações e cruzá-las. Mas isso implicaria uma séria mudança de hábitos…
O autarca até pode chamar “auto-estrada” a um “caminho pedonal”. E o leitor acreditar. Mas no português pré-acordo um “caminho pedonal” é isso mesmo. A não ser que para o leitor um aeroporto que receba um voo do estrangeiro por semana, na época alta, também mereça o estatuto de “aeroporto internacional” e justifique o investimento.
Ah, e quanto a promessas de candidatos a presidentes de junta, vai ver que se ler o programa com atenção ainda encontra lá a nota de que se tratou de uma recomendação do Além. Uma recomendação “estruturante”.
P.S. Se houver “derrapagem” na obra e tiver notícia do valor não se esqueça de pedir ao presidente da junta para nos informar. Hoje em dia não nos podemos fiar nas notícias.
No português pré-acordo, ler uma notícia é ler uma notícia.
«Para além da colocação da pista pedonal com mais de dois quilómetros de extensão, será anda feita a ligação em estrada entre a casa da Madre Rita e a Igreja Matriz de Ribafeita.
“Teremos uma estrada que liga estes dois pontos e ao lado um caminho tipo ecopista, que servirá também para outros efeitos ao longo do ano”, concluiu».
Haverá, portanto, uma estrada E um caminho pedonal. Ou, se se quiser eliminar a treta do marketing, uma estrada com um amplo passeio. Que o “jornalista” da Lusa tenha visto o picante da coisa e tenha optado por “noticiar” que vai ser construído um passeio com uma estrada ao lado, até se percebe. Mas também há quem insista em dar simplesmente a notícia. Do Diário de Viseu:
«A autarquia de Viseu vai gastar cerca de 100 mil euros na construção de uma estrada que ligará a casa de Madre Rita à Igreja Matriz de Ribafeita, na mesma ligação será também criado um percurso pedonal».
Justifica-se o investimento? Tem base sólida para ser considerado estruturante? Que fale quem tiver conhecimento de causa. Criticar recorrendo a graçolas com o Além ou contabilizando hipotéticas derrapagens parece-me fraco argumento.
O que está aqui em causa não é a estrada nem o passeio ao lado. O ponto é que o presidente da camara de Viseu, foi secretário de estado deste governo, e portanto é um malandro, tem de ser um malandro, que já anda a desbaratar os dinheiros públicos. É estordinário!!!
Não leia o que lá não está. Quando quero chamar “malandro” a alguém faço-o sem meias-palavras.
O que aqui está em causa é a bondade do investimento nesta altura e a coerência do discurso, quando se está dentro do Governo e fora dele, quando se é poder ou se é oposição. Se o leitor não vê isso, se não vê o desrespeito por quem não tem dinheiro para pagar as propinas dos filhos, por quem não tem para aviar os medicamentos na farmácia, e considera normal o “investimento” num “caminho “tipo pedonal”, que servirá “para outros efeitos ao longo do ano”, só tenho que lamentar. Mas não serei eu a abrir-lhe os olhos.
P.S. Não vivo em Lisboa desde finais dos anos 70 e nos últimos doze vivi a 265km de Lisboa. Agora estou a 10 mil. Sei do que falo. E aqui aqui onde estou, fica a saber, para se tirar um passaporte no consulado português vai-se buscar uma senha (são vinte por dia) e faz-se fila a partir das 5 horas da manhã. Se lá estiver alguém para tirar um passaporte para si e para os três filhos, só 16 conseguirão o papelinho. Se quiser agora uma marcação fazem-na para Agosto. E um cartão de cidadão leva meses. Todos os dias de manhã são filas terceiro-mundistas. Um reconhecimento de assinatura obriga a três deslocações e pagamento antecipado do equivalente a 15 euros. E o Presidente da República saiu daqui há dias com uma centena de empresários. É claro que com um telefonema há quem resolvo tudo mais depressa, mas antes de pegar no telefone há quem costume cumprir a via sacra dos seus concidadãos. Presumo que tudo isto deva ser normal para si e muito menos importante do que um gasto de cem mil euros num caminho pedonal para pagar promessas.
“há quem resolva”, eu não resolvo nada. É bom que também fique claro.
Sei que não foi o leitor quem falou de Lisboa, mas aproveitei para responder a outro leitor. Espero que me releve a ousadia.
Pois se fui eu o que falou de Lisboa , enfio o barrete com muito prazer .
O Sérgio viveu a 265 kms de Lisboa mas não foi no interior norte nem nada que se pareça com isso e não vou ser eu que lhe venha aqui lembrar onde é que viveu (isso V. sabe e os outros não têm nada que o saber por mim) .
Quanto ao sítio onde agora vive tenho aí alguns bons conhecidos , são as voltas da vida , ainda que não vá para esses lados há muito tempo não os perdi “de vista” e muito menos “de ouvido” .
Sei portanto algo sobre a situação (menos que o Sérgio , claro).
Mas vir com o que se passa aí no consulado não é argumento para contrariar as opiniões dos outros sobre o caminho pedonal em Viseu .
Se quisesse discutir esse problema específico levantava-o legítimamente aqui (já trouxe situações semelhantes) .
Como agora trouxe esta do caminho pedonal , é disso que falamos e não me parece que alguém lhe tivesse chamado nomes .
No entanto sei por experiência própria que este seu tipo de “diálogo” faz parte do seu “estilo” , até andei afastado daqui uns tempos por causa disso .
Não estou de acordo que seja tudo dinheiro mal gasto desde o momento que , servindo um propósito específico de alguma (mesmo que não urgente) utilidade pública , dê trabalho durante uns meses a gente da construção civil que neste momento não tem trabalho nenhum por lá e portanto “não tem dinheiro para pagar as propinas dos filhos” nem “para aviar os medicamentos na farmácia” .
“Outros efeitos”…, hum…, quais?
Realmente… para que é que poderá servir um caminho pedonal?…
Fosse em Lisboa e a resposta seria óbvia. Mas assim…
Curiosa esta frase:
«E estava prevista a sua construção? Sim, constava do programa eleitoral do candidato à presidência da Junta de Freguesia que ganhou as eleições.»
Permita-me então que faça um breve cálculo:
3091 freguesias (fruto da reforma Relvas) x 100 000 euros
Se todos os candidatos vencedores tivessem promessas eletorais deste valor, o resultado seria de 309 100 000 euros para se gastar!
Paga Zé Povinho!
Sensivelmente o mesmo que a RTP tem gasto por ano.
Paga e não bufes!
Sendo eu de Lisboa há 3 gerações e tendo aqui a minha base e a família toda , comprei há muitos anos uma casa abandonada no interior norte , que recuperei e onde agora passo largas temporadas .
Isso torna-me um caso suspeito num país onde as pessoas só compravam casas no Algarve , eu sei .
Isto para dizer que conheço mais ou menos o assunto e o consigo olhar tanto com os olhos do “gajo de fora” como com os “olhos do gajo de dentro” .
Ainda que não seja para aqueles lados que estou , sempre estou mais perto do que outras pessoas que por aqui andam …
E só posso dar razão ao comentador “sampy” .
Entre os urbanos (*) há uma maneira muito provinciana de ver a província .
(*) Terem raízes na província e passarem por lá às vezes não os torna conhecedores de nada , há que viver lá pelo menos metade do mês e nos meses todos do ano que é assim que se fecham os “ciclos da vida local” .
Meses depois… x?fid=1&did=156027&utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.asp
Passei hoje em Ribafeita para confirmar as obras feitas. Fiquei maravilhado:
– construção de uma Casa Memorial, que mais parece um hotel de charme do que a casa de alguém que pregou a pobreza. Nota: custou 300 mil euros;
– construção de uma estrada que não serve ninguém. Nota: custou 100 mil euros;
– e temos ainda a construção daquela magnífica igreja junto ao Palácio do Gelo que, entre ladrões e empreiteiros, já custou para cima de 1 milhão de euros.
Conclusão: como os nossos governantes políticos e religiosos gastam tão bem o nosso dinheiro!!! Já estou a ver o sorriso na cara das criancinhas africanas que morrem de fome todos os dias. E também o sorriso de todos os viseenses quando descobriram que nos próximos anos este grandioso investimentos vai trazer quase 10 turistas a Ribafeita.
Tinhas ficado para a inauguração hoje, para veres os tais 10 turistas…