Análise: Portugal – Croácia


joaomsandre,

Antes de mais: esta é uma semi-análise dado que não consegui ver a primeira parte. Da mesma forma não fiz qualquer análise do Portugal – Hungria onde só vi os últimos minutos.

 

Quero começar com uma confissão: quando a Croácia beneficiou de um pontapé de canto perto do fim dos 90 minutos, dei por mima  pensar: «marquem pel’amor de tudo o que vos é sagrado». E não era necessariamente um pensamento dirigido a um eventual contra-ataque português.

 

O jogo será definitivamente arquivado com a etiqueta “jogo muito táctico” mas deveria levar coma bolinha vermelha de “aconselhável apenas a pessoas com insónias”. Analisar a táctica é simples e complicado. Simples porque pouco houve a analisar. Complicado porque é difícil explicar táctica quando as duas equipas se anularam.

  

 

Portugal começou com três alterações: Cédric Soares a lateral direito (no lugar de Vieirinha), José Fonte a central (no lugar de Ricardo Carvalho) e Adrian Silva a médio centro (no lugar de João Moutinho). A estas acresce Raphäel Guerreiro no lugar de Eliseu a defesa esquerdo, mas Eliseu apenas tinha jogado por problemas físicos de Guerreiro, por isso não se pode falar de alterações tácticas. A primeira troca parece ter sido por questões de rendimento: Vieirinha tinha sido o elo (mais) fraco da defesa e perdeu o lugar. A segunda uma questão física: o sentido posicional de Carvalho é fantástico, mas falta-lhe velocidade e também não tem o poder de choque para lidar com Mandžukić e por isso entrou Fonte. Adrien entrou também para compensar a falta de rendimento (e condição física) de Moutinho e talvez para recriar o meio-campo sportinguista.

 

Já os croatas entraram com um objectivo: utilizar o seu (teoricamente) superior meio-campo (Rakitić, Modrić e Brozović entrariam no meio campo português e Badelj teria também boas hipóteses de o fazer) para avançar e criar oportunidades e, na defesa, esperavam poder condicionar Ronaldo, tentando limitar a possibilidade de receber bolas com espaço (consequência lógica do previsível contra-ataque a que Portugal seria obrigado se a Croácia dominasse a posse de bola). Na ala, Perišić tentava dar largura e velocidade (além de cor, com o seu penteado).

 

Com as equipas focadas em eliminar as armas adversárias, o resultado foi um completo impasse. Não vi a primeira parte, por isso nada posso dizer. Na segunda, depois da entrada de Renato Sanches, Portugal acabou a alinhar num 4-5-1, com Nani na ala direita, João Mário na esquerda, Adrien o mais adiantado com Sanches a ser o todo terreno e William Carvalho o mais recuado. João Mário na esquerda teria como objectivo proteger Guerreiro das investidas de Srna. Nani na direita deveria ajudar a lidar com Perišić. Adrien era o mais adiantado mas parecia especialmente preocupado em defender, como um trinco adiantado. Os croatas não conseguiam ligar o jogo por não quererem arriscar e os portugueses não se encontravam em posição de o fazer. Sanches oferecia a melhor hipótese de ataque, mas apesar da energia, os seus passes ainda são algo erráticos e perdeu algumas boas hipóteses de criar oportunidades por ou os passes não saírem bem ou por escolher mal.

 

Achei contudo curioso que muitos apontassem que Portugal finalmente mostrou que sabe jogar sem Ronaldo. Isto porque apesar de Ronaldo ter estado essencialmente ausente durante o jogo, a Croácia foi-se anulando a si mesma para poder anular o português. Fez-me lembrar a Alemanha na final do mundial de ’86, quando se anulou colocando Matthäus a marcar Maradona. No fim os alemães foram mais inofensivos que o esperado e Maradona acabou por fazer a diferença. Aqui viu-se no final o mesmo, com Ronaldo a ser fundamental no golo (fez o primeiro remate dirigido à baliza de toda a partida).

 

Ricardo Quaresma demonstrou que a sua principal utlidade é como suplente utilizado, para utilizar o que lhe resta de velocidade quando o adversário está desgastado e com pouca concentração para as suas fintas e truques. Entrou para a direita (Nani foi para a esquerda) e ajudou a fechar o flanco e a criar uma certa sensação de ameaça. No entanto, perante um jogo sem espaços ou vontade de arriscar, a sua principal contribuição atacante – e decisiva – foi estar no sítio certo para marcar o golo. Note-se no entanto que, se tivesse começado o jogo de início, certamente não teria a energia necessária para acompanhar a jogada.

 

Não creio fazer sentido uma análise detalhada aos jogadores. Não vi a primeira parte e após 10 minutos da segunda comecei a ter dificuldade em prestar atenção a detalhes. Vi que Sanches tem energia e assim que souber afinar as decisões poderá ser de facto um caso muito sério a nível mundial; notei que Adrien pareceu ter regressado aos seus tempos pré-Académica em que era um médio mais defensivo an academia do Sporting; vi que a táctica para lidar com Mandžukić consistia em Fonte contestar as bolas (não ganhou muitas) e ter Pepe a limpar os ressaltos. Vi que William continua a ter um sentido posicional impecável mas continua a ser muito rijo de rins quando o contornam. Vi especialmente que Nani continua a confirmar ter sido desperdiçado como ala: uma posição como segundo avançado teria sido melhor (e ainda o poderá ser). O seu passe para Ronaldo foi fabuloso, transformando um contra-ataque quase perdido (por falta de opções para Sanches passar a bola) num potencial golo (o remate de Ronaldo). Aliás, note-se que para começar o contra-ataque, Quaresma desarmou o croata que tinha a bola, Ronaldo recolheu-a e entregou-a a Sanches e os dois seguiram a correr para o ataque. Por isso não havia ninguém no meio para oferecer mais opções a Sanches para o passe, mas demonstra também que Portugal nem queria correr riscos (mais ninguém avançou) nem teria mais ninguém com energia para correr meio campo.

 

Nota para o onze inicial: em Portugal vemos frequentemente os comentários a falar na equipa inicial, na melhor formação, no melhor onze, etc. Neste jogo viu-se que tal não existe e que, antes de mais, faz sentido falar num jogo no “melhor 14” em que os suplentes têm uma função específica além de “refrescar o jogo” e, num torneio, faz sentido em falar no “melhor 23” (ou 21, se considerarmos que os guarda-redes raramente rodam). Fernando Santos, por muitos defeitos que lhe queiramos atribuir, parece compreender isto perfeitamente. Fez alinhar um onze com uma ideia específica emmente: contrariar o teoricamente melhor adversário. Fê-lo quase na perfeição. Podemos contestar a qualidade do jogo, mas não muito as consequências do mesmo. Pessoalmente alinho na tese de, na impossibilidade prática de vencermos competições, deveríamos contribuir para as tornar mais interessantes esteticamente, mas sou um caso talvez marginal.

 

Venha agora a Polónia. É mais equipa que Portugal e se Lewandowski decidir acordar poderá tornar-se difícil de bater. No papel, no entanto, cabe melhor no estilo português e terá mais espaços para serem aproveitados. O meu maior receio será Milik, que tem tido um excelente torneio e joga entre as linhas, numa zona sob a responsabilidade de William Carvalho. Se este demonstrar a sua mobilidade habitual, o jogo poderá tornar-se muito incómodo. Seja como for, também pensei que a Croácia seria vencedora e Portugal passou. Por outro lado, a Croácia demonstrou que ter demasiados cuidados com Ronaldo pode limitar o próprio jogo ofensivo. Neste momento a melhor opção será marcar mais golos que Portugal, não sofrer mais. E nesse aspecto os polacos estão melhor preparados, com mais jogadores capazes de oferecer perigo que os portugueses. Na quinta-feira veremos.

 

 

Também aqui.

Leitura complementar: um problema chamado Ronaldo.

0 comentários em “Análise: Portugal – Croácia”

  1. João,
    Três notas suscitadas pelo teu texto:

    1. Desvalorizas a disciplina táctica do Adrien. Ao contrário do que ironizas, ele não recuou aos tempos pré-Académica nem terá desaprendido tudo quanto aprendeu no Sporting. Acontece que neste jogo ele desempenhou um papel muito diferente, cumprindo de forma impecável a missão de que foi incumbido por Fernando Santos: competia-lhe condicionar Modric no início da fase de construção. Era missão mais que suficiente. E foi bem-sucedido.

    2. Também me parece que menosprezas o Quaresma. Ele não se limitou a “estar no sítio certo para marcar o golo”: como aliás sublinhas noutra passagem do teu texto, começou por ser exemplar numa missão defensiva (algo pouco frequente nele) ao recuperar a bola no nosso reduto defensivo e dando a partir daí início ao processo atacante de que resultou o golo português. Foi portanto uma jogada iniciada e concluída por ele. Toda a jogada, aliás, é de antologia. ‘Chapeau’!

    3. De acordo: alguns passes de Sanches foram erráticos. Mas atenção: ele é sobretudo um transportador de bola, como de resto demonstrou de forma brilhante na jogada do golo. Nisso equipara-se ao João Mário, ainda sem o requinte e a elaboração do médio leonino. Não lhe peçam que seja tão exímio na colocação da bola – para isso está a postos o Adrien, por exemplo. O segredo de um meio-campo operacional, quanto a mim, é esta mescla bem medida entre transportadores e colocadores: enquanto adepto emocional, lamento que FS não potencie todas as qualidades destes jogadores; enquanto adepto racional, aceito as opções tácticas desde que produzam resultados. E o facto é que até agora isto tem acontecido.

    Haveria mais para dizer mas este comentário já vai longo. Fico-me por aqui.

    1. Pedro, não creio que discordemos no essencial em nenhum dos aspectos.

      1. O comentário foi irónico mas foi também dirigido às funções que Adrien teve. Foi muito menos efectivo no passe do que eu esperaria (mesmo considerando os objectivos que teve) e por isso ironizei. Gostaria de o ter visto mais envolvido na construção e penso que nesse aspecto, mesmo com as instruções que recebeu, poderia ter feito mais. Não significa que tivesse estado mal.

      2. Eu escrevi que a sua principal função atacante foi estar no sítio certo. Mas também escrevi que ajudou a fechar o flanco (na época 2014/15 já o tinha feito bem no FC Porto). No resto não fez muito de forma atacante, mas nisso não esteve isolado, foi resultado da abordagem portuguesa. Também fiz mais abaixo referência a ter sido ele a recuperar a bola antes do golo.

      3. O que disseste complementa o que eu escrevi. O problema de Sanches no passe é simplesmente a decisão, algo que será inevitavelmente melhorado com a experiência e a idade. Continuo a entender que não é ideal fazê-lo jogar de início. Tem ainda pouca experiência, controle e poderá fazer alguma asneira ou gastar demasiada da sua (apenas aparentemente infinita) energia no início. Entrando mais tarde as suas qualidades podem ser mais importantes que neste momento. Já agora: foi considerado o melhor em campo pela UEFA. Num jogo tão insípido, a sua energia ter-se-à destacado e a escolha não é injusta.

      Concordo que o ideal é equilibrar os elementos. FS no sábado apenas quis anular os adversários, como a Grécia (que ele treinou) se especializou em fazer. A diferença é a qualidade dos jogadores no ataque. Vamos a ver se lhes dá mais liberdade a partir de agora.

      Note-se apenas uma coisa: o treinador croata teve razão. A melhor equipa perdeu. Também teve razão na razão: às vezes acontece. Parte da culpa é dele.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *