Amor, amor


Maria Dulce Fernandes,

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No tempo do era uma vez, as donzelas eram belas, castas e prendadas, conquistavam o coração dos seus amados, encantados ou encantadores, e depois dum sem número de peripécias, angústias, terror e sofrimento, acontecia o final feliz, selado com um beijo do verdadeiro amor e eram felizes para sempre, tudo isto enquadrado num cenário idílico, com maravilhosos pores do sol, passarinhos a chilrear e arcos-íris no céu.

Quem não gosta dum final feliz?

Eu, que sou o paradigma da chorona carpideira, em tudo o que é filme, série, mini-série, novela, cartoon, livro, revista e jornal ou caderninho de Sudoku, e que deveria receber a medalha de honra e mérito na categoria de melodrama, eu, que “num dia daqueles” vibro com as histórias das Floribellas desta vida e gasto resmas, paletes de lenços de papel, torço sempre para que a princesa fique com o sapo e vivam felizes para sempre, com uma trupe fandanga de girinos atrás.

Como diria Lavoisier, na natureza nada se perde, tudo se transforma, e os tais finais felizes, à força de se renovarem, reinventarem e estarem sempre in, acabam muito mais in-felizes, do que se pretenderia.

No espaço dum mês servi de ombro amigo, tia emprestada, psicóloga, médica, expert em coisas do coração, confidente e mentalista, não a duas, mas a dois piquenos de coração estraçalhado, cujas princesas encantadas os arquivaram na categoria de sapos, e deram às de Vila Diogo, deixando-os a afogar as mágoas, ou melhor, a afogarem-se nelas.

Já não há donzelas como antigamente! Onde é que param as pálidas e etéreas criaturas, tão dependentes, tão frágeis como dentes de leão ao vento? Muitas estão na Universidade, outras trabalham; umas criam novas amizades com interesses em comum mais cativantes, outras puxam pelos galões de Femmes Fatales, entram numa onda de curtir a vida e originam verdadeiras cenas de faca e alguidar que, declamadas por João Villaret, fariam do Fado Falado uma cantiga infantil.

Eles, os que deveriam cavalgar meio mundo, armadura resplandecente e montados num corcel branco para proteger as suas donzelas, revelam-se criaturas invertebradas, fracas e tristes, quais D. Quixotes montados em paus de vassoura, que escorraçados pelas Dulcineias, ficam sem força até para dar um espirro.

Quando acabam os argumentos, ou partem para a ignorância, ou recorrem á compaixão. Coisa triste de se ver…

O que me dói mais é ver gente que não sabe estar, que não sabe ser gente sequer! Eu sou daquelas que antes quebrar que torcer e nunca, mas nunca me haviam de ver rastejar atrás de quem me enxotou. Diz Pascal que o coração tem razões que a própria razão desconhece, mas então e se a razão do coração não tem razão nenhuma?

Será possível que aquele fogo que arde sem se ver a que chamamos amor se resuma a uma reles anedota de novela de cordel?

Esta gente doida sabe lá o que é o Amor!

 

(Imagens Google)

22 comentários em “Amor, amor”

  1. Gostei do post, é estiloso.
    Rastejar mesmo? Do estilo, pisa-me que eu gosto? É que nem sei se existe alguém assim. Mas admito que sim, o masoquismo anda solto.
    Por outro lado, a afirmação “nunca digas nunca”, parece-me avisada. Entre o pensamento e a acção cabe por vezes um mundo e a relação entre ambos pode ser uma grande entaladela. Isso é que sim.
    Boa semana, Dulce

  2. Os rapazes são trucidados desde o berço com o politicamente correcto feminista. Têm culpa de tudo e não valem nada. Admira-se que tenham crises de identidade?

  3. Hoje Maria Dulce não me convenceu. Há muito que me habituei, em filmes livros e novelas a distinguir a comédia, que acaba em casamento, da tragédia, que começa com este.
    E, na história da princesa e do sapo, o que sempre me maravilhou, foi a ingenuidade dos pais, que, ao verem o príncipe no quarto da princesa, acreditaram na história do sapo.
    Como dizia Millôr noutro cenário, tem pai que é cego..

  4. Caríssima homónima de apelido (Fernandes).
    Olá Maria Dulce!
    A senhora é um amor do “DELITO DE OPINIÃO”. Acabei de ler a sua crónica – Amor, amor – que me alegrou o dia.
    Admiro as suas alegres, verdadeiras, contundentes e bem dispostas crónicas.
    Grato e desde a America (USA), queira aceitar 85 cordiais e fraternos abraços, de quem tem essas Primaveras vividas.
    Carlos Menezes Fernandes, Sr.
    New Jersey, 27 Setembro 2022

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