Amanhã vão crucificar um homem


Teresa Ribeiro,

A crucificação ainda se pratica. Vai ser amanhã, na Arábia Saudita. O infeliz contemplado é um jovem que há uns anos liderou um gang de adolescentes que assaltou umas joalharias. Teve primeiro que crescer até à idade adulta na prisão, que os sauditas são muito escrupulosos e não crucificam menores. Aos seus companheiros de infortúnio foi aplicada uma pena mais branda: serão decapitados com uma espada.

O que podemos fazer? Ao menos divulgá-lo. E expressar o nojo que nos merecem as civilizações que desprezam a nossa mas se aproveitam dela. Cujos líderes adoram a nossa tecnologia, mas descartam os valores que evoluíram com ela, condenando a sua gente a viver na Idade Média. Se gostam tanto dessa pureza abdiquem dos aviões, dos automóveis e da Internet. Desprezem-nos mas em tudo. Dividam as águas, arredem pé deste nosso patamar civilizacional e comprem com o dinheiro do petróleo muitos camelos, tendas e tapetes.

19 comentários em “Amanhã vão crucificar um homem”

  1. Ninguém deve ter o direito de tirar a vida a alguém. Ponto.
    Se começarmos a especificar, então teremos uma longa lista: crucificação, decapitação, lapidação, cadeira eléctrica, injecção letal, armas químicas, drones… e o sofisticado terrorismo financeiro que inexoravelmente provoca a morte a muita gente. Ou seja, o patamar civilizacional só nos trouxe formas mais sofisticadas de matar!

    1. Sou contra a pena de morte. Ponto. Mas isso não me impede de reconhecer que há formas de execução mais cruéis que outras. A crucificação é consensualmente considerada uma das mais bárbaras. Quanto ao “terrorismo financeiro”, percebo do que fala, mas, convenhamos, metê-lo no mesmo patamar das crucificações e outras penas capitais é um pouco excessivo, não?.

  2. Métudos de julgamento e de punição à parte. Indignação e divulgação, à parte.
    Parece-me que quanto ao resto, tento podemos desejar, aconselhar, reivindicar, que os líderes que adoram a “nossa” tecnologia, abdiquem dos aviões, dos automóveis e da Internet, como desejar, aconselhar, reivindicar que, quem lhas vende, deixe de o fazer.

    1. Não é exactamente o mesmo, Bartolomeu. Nós até podemos ser críticos em relação a muitos aspectos da sua cultura mas não temos por isso que impedir que se estabeleçam relações comerciais livres com esses países.

  3. Vi, há dois dias, uma reportagem na televisão feita numa prisão israelita, onde se encontram presas palestinianas acusadas de atos de terrorismo. Os autores da reportagem não comentavam a favor, nem contra, limitavam-se a entrevistar as presas e a mostrar as imagens. Tentavam encontrar respostas para perguntas do tipo: o que leva uma mãe de seis filhos, ou uma mulher grávida, a cometer terrorismo suicida? Claro que, no caso das presas, algo correu mal, caso contrário, não teriam sobrevivido para contar.

    Sim, o que as leva a fazer isso? Será mesmo por amor a Alá e ao Islamismo? Por ódio a Israel?

    Apesar de a maior parte delas jurar a pés juntos que era essa a explicação, eu acho que encontrei a resposta numa moça que lá estava e que disse que não fizera nada de mal, que se limitara a passear pela zona de fronteira entre a Palestina e Israel com uma faca no bolso. Revistaram-na e encarceraram-na. A jornalista, pelos vistos, achou aquilo estranho e perguntou-lhe se ela tinha feito de propósito, se tinha desejado ser presa. Depois de uma hesitação, a moça disse que sim.

    Durante a reportagem, ela foi libertada, pois o seu delito não era grave e esteve pouco mais de um ano presa. Passado um mês, tornou à prisão. E, desta vez, foi mais aberta com a jornalista: “resolvi voltar. Cheguei a casa e a minha mãe bateu-me. O meu irmão também me bateu. Proibiram-me de falar, só era autorizada a cumprir as tarefas do quotidiano. Sem falar. Aqui (na prisão) estou melhor, sou mais respeitada!”
    E tanto se soltou, que disse ainda: “não acredite nisso de lutarem por Alá! Todas elas têm problemas em casa. Mesmo que não o admitam! Porque é que a A., com seis filhos em casa, afinal, está aqui?”

    Vem isto a propósito de líderes que condenam a sua gente a viver na Idade Média.

      1. Fui, entretanto, averiguar, pois tinha lido as informações da revista de TV por alto. Não se trata bem de uma reportagem, mais de um documentário feito cheio de vagar. A realizadora israelita, Natalie Assouline, filmou e acompanhou as detidas palestinianas durante dois anos. Vi-o num canal alemão, 3sat, mas hei de verificar se há versões noutras línguas.

  4. Inteiramente de acordo. E fico doente com o argumento dos baixos índices criminais nestes países, normalmente usado para justificar a barbárie das penas para crimes de delito comum.

      1. Nada disso. Não era sobre esse ângulo.
        Os Americanos também têm pena e morte, e os Chineses já agora. Só por isso.
        Então o limite em que considera que devemos cortar todos os laços com uma civilização e rejeitá-la tout court é o método da morte.
        Note-se que não a questionei sobre o petróleo saudita uma vez que este não é produto da civilização saudita.

        1. Lucky, já afirmei numa resposta a um comentário acima que sou contra a pena de morte, mas também expliquei que me repugnam particularmente os métodos em que à eliminação da pessoa ainda se somam requintes de crueldade, como é o caso. A crucificação é considerada consensualmente como uma das mais cruéis formas de execução.

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