Altos e baixos


Maria Dulce Fernandes,

av-de-roma-011.jpg

As engrenagens já não são o que eram. Acordam perras e demoram até aquecer e pararem de estalar e ranger, e não há volta a dar-lhes nem exercício que as regenere que não aceitar e arrepiar caminho. Uma destas noites cheguei em casa tarde e a más horas, fruto da situação diária e laboral de muitos verões. Cansada e acalorada pelo termómetro juliano, nem reparei que o malfadado ascensor, em fase de reparações, parara a um bom meio metro acima do nível do patamar. Foi tiro e queda. Mais queda, porque de tiro só o estrondo do abalo que se fez ouvir na minha cabeça. Uma pessoa fica esparramada de corpo e amarfanhada de espírito e demora uma infinidade de cinco ou seis minutos para se recompor e constatar que está viva e funcional. Pelo menos até ao dia seguinte, quando se olha no espelho e lhe vem à cabeça a velha lengalenga da escola primária, em que, frente a um colorido mapa de Portugal, se repete o que se sabe de cor e salteado: “Portugal Continental está dividido administrativamente em onze províncias, dezoito distritos e trinta e seis cidades. Minho, Trás-os-Monte e Alto Douro, Douro Litoral, Beira Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve.” As manchas multicolores (nódoas negras não é politicamente correcto dizer) instalaram-se de Norte a Sul e, mesmo sabendo que já não tenho os parafusos todos, afligiu-me que os tais da prótese lombar se tivessem deslocado, dada a cor mais pronunciada no centro, talvez equivalente à zona da Grande Lisboa. Depois de mais uma sessão de 30 minutos dentro de um cilindro estrepitoso, concluiu-se que a única coisa que ficara fora do sítio terá sido o ominoso elevador, máquina do demo destinada à preguiça e à estropiação dos menos atentos. A insatisfação é intrínseca ao ser humano, dizer mal é tão natural como respirar, e atribuir culpas a terceiros então nem se fala. Faz parte de saber estar, creio.

Por vezes basta ter a humildade de pensar o que seria de mim, de todos nós, se todos os dias tivéssemos de subir e descer nove ou mais andares a pé.

(Imagens Google)

24 comentários em “Altos e baixos”

  1. Boa Saúde … e dinheiro para impostos.
    depois do purgama trágico cómico ”hall” da cnn vamos ter outro sobre o mau estado da nação
    ” Que Mal Fiz Eu a Deus? ”

    1. Creio que “Qu’est-ce qu’on a tous fait au bon Dieu” que trouxe muita gargalhada e boa disposição, anda meio apagado dos circuitos televisivos, dado o seu cariz ” racista”, que é o mais importante nos dias de hoje. Podemos estar todos a morrer, mas se morrermos “impolutos” , morreremos como deve de ser.
      Quanto ao estado da nação, o stock de balões de soro já desceu consideravelmente.

  2. “Foi tiro e queda”, de que forma? Tropeçou ao entrar no elevador? Tropeçou ao sair? Caiu no poço do elevador? Tropeçou ao subir as escadas a pé? Ou quê?

  3. ó pá , Dulce , que chatice. ainda bem que não partiu nada. as melhoras.
    ( isso do elevador é um perigo , o avô de uma amiga , 90 anos impecáveis , lúcido e a mexer-se perfeitamente morreu na sequencia de uma queda igual , só que partiu a anca)

    1. Obrigada Marina. Devo ter os ossos rijos. Nunca tive fracturas. Há uns anos caí de uma escada com 20 degraus e fiquei feita num oito, com uma data de traumatismos mas sem qualquer fractura. Um dia destes hei-de experimentar fazer um salto sem para-quedas.

      1. Pelos vistos ‘tarde e a más horas’ nem facturas apareceram.
        Nunca percebi o que é chegar tarde e …a más horas! Pode-se chegar tarde e a boas horas?
        Imaginemos chegar tarde a um restaurante mas ainda no horário de funcionamento é chegar ainda a boas horas?
        Quedas de elevadores são terríveis, ainda bem que nada de fracturas, disse facturas para me armar em engraçadinho.

          1. ahahahah! ‘daquelas sem graça nenhuma’.
            Também penso que chegar tarde será sempre a más horas.

  4. Chato, Dulce, as quedas espreitam por todos os lados à espera de incautos … e incautas.
    São mais danosas do que as maiorias absolutas. Há que andar com a pestana bem aberta! Rápidas melhoras, o verão não se compadece com as “manchas coloridas”…

  5. e depois admiram-se de que rareiam os leitores…tou a brincar.
    Mas o post é um crepitar de termos incomuns.
    Pelo que alcanço, o elevador safou-se.

  6. Podia ter-se matado!. Ainda bem que lhe deu para brincar com o “argumento”…
    As melhoras e rápidas.
    Um beijinho!

    1. A três semanas de distância, já consigo rir do sucedido, principalmente na parte, que não referi, em que tive de subir quase um lance de escadas de gatas, apenas para me conseguir pôr de pé.
      Obrigada pelo cuidado e beijinhos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *