Alguns entrevistados que “matei”


Pedro Correia,

Houve uma altura da minha vida profissional, ainda muito no início, em que pensei seriamente que dava azar às pessoas que entrevistava. Isto porque foram várias as últimas entrevistas que fiz a diversas figuras públicas. Lembro-me que apenas num ano faleceram pelo menos quatro delas, recém-entrevistadas por mim.

O primeiro foi o poeta popular Carlos Conde, velha figura da Lisboa castiça – um nome quase lendário do mundo fadista, autor de letras de vários temas interpretados por Carlos do Carmo. Pouco tempo depois de o ter entrevistado na redacção do jornal onde eu então trabalhava, soube que havia falecido..

Aconteceu algo muito semelhante com o general Fernando Santos Costa, o todo-poderoso ministro da Defesa de Salazar, que me recebeu de luto carregado num apartamento de Campo de Ourique que mal deixava entrar a luz do sol. Entrevistei-o durante uma longa tarde em que foi desvendando algumas memórias, com a condição de a conversa decorrer sem gravador nem fotografias. Foi a última entrevista que sairia dele na imprensa: morreu pouco tempo depois.

 

                                                            

                                                         

Outra destacada figura do regime salazarista, Jorge Jardim, deu-me também a última entrevista. Era já na época uma figura quase lendária, misto de Zorro e James Bond. Vivia no Gabão e encontrava-se esporadicamente em Lisboa, onde o entrevistei numa suíte do hotel Sheraton. Não parou quieto durante a entrevista: levantava-se, agitava-se. Usava um bigode à Clark Gable e pintava o cabelo. Desta vez levei gravador e a entrevista saiu no formato pergunta-e-resposta, com direito a capa do principal suplemento e várias páginas no interior, sob um título garrafal: “Lawrence de África”. Que eu saiba, Jardim não voltou a dar nenhuma outra: morreu alguns meses mais tarde, sem concretizar nenhum dos sonhos que traçara naquela agitada conversa do Sheraton que não esqueci.

Maria Leonor, uma das figuras mais populares e mais queridas dos portugueses, vedeta da rádio e da televisão, foi outra das minhas entrevistadas. Estava já muito doente então, lutando contra um cancro, mas persistia em manter as rotinas, como se a doença não a perturbasse. Eu conhecia desde criança aquela voz inconfundível, aquele rosto já marcado pelo mal que a viria a vitimar. A conversa decorreu numa espécie de tom antecipado de homenagem póstuma, o que não me orgulha como jornalista mas creio ser desculpável em termos humanos.

O certo é que algum tempo depois, quando soube que a Maria Leonor tinha falecido, adquiri a convicção de que dava azar aos meus entrevistados. Tanto mais que o caso viria a repetir-se, nessa década de 80 e no início da de 90, com outras personalidades bem conhecidas: o escritor Adolfo Simões Müller (autor de várias obras que devorei no início da adolescência), o pintor Thomaz de Mello (Tom) e o cineasta Jorge Brum do Canto, por exemplo.

 

Só aos poucos fui adquirindo a noção de que tudo não passara de um conjunto fortuito de coincidências. De facto, fiz centenas de entrevistas de então para cá – e não me recordo de que alguma delas fosse a derradeira dos meus interlocutores embora tenha publicado no saudoso suplemento DNA, do Diário de Notícias, duas grandes entrevistas de capa com o escritor e crítico televisivo Mário Castrim e o dirigente comunista João Amaral que figuraram entre as últimas que ambos concederam.

Mas aquela espécie de superstição que começava a apoderar-se de mim tinha alguma razão de ser: que jornalista gostaria de arrastar um peso desses na consciência?

 

Fotografias, de cima para baixo e da esquerda para a direita: Tom, Brum do Canto, Jorge Jardim e Santos Costa

10 comentários em “Alguns entrevistados que “matei””

  1. Lagarto… lagarto…

    E comentar os seus posts dá direito a quê? gripe?

    Por favor, não entreviste nenhum jogador/treinador do Sporting!

    Aconselho a quem comentar um post do amigo PCorreia, ponha um dente d’alho no teclado.

    1. Certo, JJA. Quando tomei consciência disso começou a pesar-me menos o fardo de ter feito várias “últimas entrevistas”. Afinal, pelo menos em certos casos, tudo se inscrevia de algum modo na ordem natural das coisas.

  2. Dear Mr
    P. Correia

    …” I regret to inform You that our interview is conceled”…

    Regards

    Barak Obama

    ( By CIA advise)

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