Algumas questões, umas pertinentes e outras não


Rui Rocha,

Perante a gravidade da situação do país e das medidas anunciadas por Pedro Passos Coelho há um conjunto de reacções e ilusões que são completamente despropositadas. Aqui vão algumas:

 

1 – Discussão entre austeridade e estímulo económico: num país em que o Estado está sem dinheiro para pagar salários, absolutamente dependente do financiamento estrangeiro, pretende-se investir exactamente o quê? E, já agora, não foi um certo tipo de investimento que, em boa parte, nos trouxe até aqui? O certo é que o dinheiro que temos não é nosso, é emprestado, e fazemos com ele o que nos mandam. Assim, o único investimento que pode chegar à nossa economia é o investimento directo estrangeiro. De empresas que se queiram instalar no nosso país. Se o conseguirmos tornar atractivo. Impedidos de responder no imediato com alterações estruturais (justiça, qualificação), resta-nos intervir nos custos do factor trabalho (diminuição dos feriados ou aumento do horário de trabalho são exemplos, porventura de eficácia reduzida). No mais, falar de investimento do Estado nas actuais circunstâncias é completamente irrealista.

2 – Ilusão de que os funcionários públicos são os grandes sacrificados: sim, é verdade que vão perder poder de compra. Mas, vão, até ver, manter o emprego. No privado, a crise pagar-se-á com falências e desemprego maciço. Alguém no sector público estará interessado em trocar?

3 – A ideia de que os sacrifícios têm de valer a pena: na medida em que está implícita a possibilidade de, algum dia, num futuro mais ou menos próximo, podermos regressar aos níveis de consumo dos últimos anos. Nada mais falso. Depois do túnel, se houver alguma coisa, será frugalidade e contenção. E já não será nada mau.

 

Posto isto, há algumas interrogações que são, essas sim, pertinentes. E todas têm dimensão ética. A primeira diz respeito à avaliação das promessas e compromissos eleitorais de Passos Coelho. Está a violar aquilo a que se vinculou e, em casos afirmativo, tem para isso justificação? A resposta é fundamental para percebermos da viabilidade do vínculo de confiança que deve existir entre eleitores e governantes. A segunda coloca-se ao nível da repartição dos sacrifícios. Está a classe média a ser a única sacrificada ou aqueles a quem chamamos ricos estão também a ser chamados a participar no esforço nacional? Existe um esforço sério para combater a corrupção e a utilização abusiva de dinheiros públicos? Está a ser percorrido caminho no sentido de assegurar a frugalidade e equilíbrio nas remunerações dos titulares de cargos públicos? E responder a isto é fundamental para percebermos da viabilidade da manutenção da paz social.

14 comentários em “Algumas questões, umas pertinentes e outras não”

  1. No primeiro ponto creio que coloca a questão mais pertinente.
    Ninguém no seu perfeito juízo pedirá seja que investimento for, foi isso mesmo que nos conduziu aqui. Mas também não vemos a tão necessária redução do sector empresarial do Estado, para dar finalmente espaço a uma verdadeira livre economia que permita crescer e criar emprego. Este é o pecado capital deste OE! As tão propaladas reformas estruturais voltam a ficar na gaveta.
    Ainda assim aguardo pela apresentação do documento para uma melhor análise, mas, à partida, não esperemos muito mais do hoje nos foi revelado.

  2. Bom Dia,

    Como se morre de velhice
    ou de acidente, ou de doença,
    morro, Senhor, de indiferença.

    Da indiferença deste mundo
    onde o que se sente e se pensa
    não tem eco, na ausência imensa.

    Na ausência, areia movediça
    onde se escreve igual sentença
    para o que é vencido, e o que vença.

    Salva-me, Senhor, do horizonte
    sem estímulo ou recompensa
    onde o amor equivale à ofensa.

    De boca amarga e de alma triste
    sinto a minha própria presença
    num céu de loucura suspensa.

    ( Já não se morre de velhice
    nem de acidente nem de doença
    mas, Senhor, só de indiferença.)

    Cecília Meireles, in ‘Poemas (1957)’

    até logo, desculpe qualquer coisinha, é carinho,
    mesmo…
    IM

  3. Excelente post. Concordo com tudo.

    Existe um esforço sério para combater a corrupção e a utilização abusiva de dinheiros públicos?

    A utilização abusiva de dinheiros públicos em assessores corre desenfreada. O que mais me choca são os assessores para relações públicas e, de entre estes, o que mais me choca é o aliciamento e a contratação de jornalistas e de bloggers para esse efeito. (Há um caso neste blogue.) Acho vergonhoso alegadamente que um governo de austeridade gaste tanto dinheiro público com gente que, bem vistas as coisas, para nada serve. E acho vergonhoso que, para esse efeito, desvie gente que nem sequer são profissionais do ofício e que na prática vai servir pelos seus bons contactos, num estilo bem português.

    1. Este blogue é tão democrático que até concede espaço diário para o senhor Lavoura vir aqui escarrar as suas aleivosias.
      Recordo apenas que neste mesmo blogue, tão democrático e sempre tão acessível ao ‘contraditório’, o senhor Lavoura escreveu o seguinte a propósito do homicídio da ex-militante da UEC Sita Valles em Angola, até hoje nunca esclarecido:
      «A rapariga tinha umas pernas giras, mas acho que fizeram bem em matá-la, porque quem colabora naquilo com que ela colaborou não merece outra coisa.»
      O perfil político, cívico e moral do senhor Lavoura fica bem esclarecido com estas linhas que escreveu. No dia 17 de Fevereiro de 2011, às 17h17.
      Usando um termo que ele utiliza no seu comentário: vergonhoso. Para remate definitivo de conversa.

    2. Lavoura, se ainda não tinha sido antes, fica agora claríssimo: V. perdeu o direito a respostas pela simples razão de que esta casa põe em dúvida o seu direito a perguntas.

      Vá meditar, se sabe o que isso é, e aproveite para aprender a não morder a mão que lhe dá comida.

  4. Os funcionários públicos já estão a ser despedidos há muito tempo, através da mobilidade, que é uma forma ardilosa de meter as pessoas na rua. Nos últimos anos já foram vários milhares, sabia??
    Vão para casa com 60% do salário e passados uns meses com 50%, até que passados 2 anos ficam com ZERO!
    A grande diferença é que os funcionários públicos pagam, dos seus impostos, o subsídio de desemprego dos outros, mas não têm direito a subsídio de desemprego!

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