Vi agora, apenas agora, que faleceu o Alfredo Farinha.
Cresci a vê-lo na televisão a defender o meu Benfica. Ganhei enquanto criança espírito crítico com futebol a ler os seus textos, quando ainda tinha a ingenuidade de miúdo e ia todos os dias de manhã comprar A Bola à banca do Sr. Fausto.
Não me esqueço daquela forma espontânea e inabalável como defendia o Benfica. Parecia que lhe saíam o coração e o estômago pela boca cada vez que atacavam o Nosso Glorioso. Era assertivo e impunha um respeito único, jamais visto em defensores do Benfica em programas do género. Eram tempos difíceis, acumulavam-se os anos em que o título nos fugia, mas nem por isso o Alfredo desistia.
Sei que antes de tudo isto, antes de o Alfredo se afastar, muito deu ao mundo do futebol.
Ao Alfredo Farinha deixo o meu muito obrigado e a certeza de que a sua memória perdurará.
E Pluribus Unum!
[Adenda] Contributo do Pedro Correia:
O Alfredo Farinha era o penúltimo representante ainda vivo da melhor geração de jornalistas da imprensa desportiva portuguesa. Uma geração que transformou o jornal ‘A Bola’ num cartão de visita de Portugal em todos os continentes. Gente que escrevia bem, que tinha convicções e que não receava exprimir opiniões, não confundindo o confronto de ideias com ataques de carácter. Uma geração que incluía Vítor Santos, Carlos Miranda, Carlos Pinhão, Homero Serpa e Aurélio Márcio (este o único sobrevivente).
Li, desde miúdo, incontáveis textos do Alfredo Farinha, ainda naqueles velhos lençóis d’"A Bola". Presto aqui a minha homenagem, como leitor, à memória desse veterano jornalista.

O Alfredo Farinha era o penúltimo representante ainda vivo da melhor geração de jornalistas da imprensa desportiva portuguesa. Uma geração que transformou o jornal ‘A Bola’ num cartão de visita de Portugal em todos os continentes. Gente que escrevia bem, que tinha convicções e que não receava exprimir opiniões, não confundindo o confronto de ideias com ataques de carácter. Uma geração que incluía Vítor Santos, Carlos Miranda, Carlos Pinhão, Homero Serpa e Aurélio Márcio (este o único sobrevivente).
Li, desde miúdo, incontáveis textos do Alfredo Farinha, ainda naqueles velhos lençóis d’”A Bola”. Presto aqui a minha homenagem, como leitor, à memória desse veterano jornalista.
Vou acrescentar este teu texto ao corpo do post.
Vi agora. Obrigado, André.
A Bola era já então um jornal predominantemente benfiquista – mas com nível. Uma geração fantástica, acima referida.
Também muito puxada à esquerda. Farinha destoava nisso, explicitamente contestando o apreço pelo outro bloco (na altura era assim) que os colegas iam deixando escorrer nos textos, através dos seus frontais “hoje jogo eu”, sublinhando também nessa área o tom plural do jornal. Como escrevia o também grande Carlos Pinhão “ai, que saudades, ai, ai …”
Diz muito bem, parafraseando o grande Carlos Pinhão, caro JPT: “ai que saudades, ai, ai”.
Não sei se lembram de uns célebres debates do Alfredo Farinha com o Valentim Loureiro na SIC, na altura em que o campeonato nacional de futebol passou para a égide da Liga. Alfredo era contra e não tinha pejo em dizê-lo de peito feito contra os berros ameaçadores do Major. O tempo deu-lhe razão, claro. Grande Farinha.
A morte de Alfredo Farinha significa o fim da melhor geração de jornalistas da imprensa desportiva em Portugal, para não dizer do jornalismo em geral. Nas palavras do beirão, um tipo de jornalismo que “não obedecia à voz do dono” nem tampouco era subserviente. Independentemente das suas simpatias políticas e do seu clube do coração, defendido até à medula quando era ridicularizado por invejosos, utilizava corajosamente a liberdade de expressão mesmo nos tempos de feroz ditadura. Escrita irrepreensível, foi professor e agraciado com o grau de comendador, também graças aos seus valores morais onde a frontalidade e a lealdade imperavam. Que lição para os dias de hoje onde o jornalista se confunde com o ardina, a notícia com a opinião, onde a a deontologia é arrumada para dentro de uma secretária e a promiscuidade de alguns jornalistas com agentes desportivos é demasiado comprometedora.