Jogue, Sr. Fulano, estamos à espera.
Está nervoso, Sr. Beltrano? Eu não posso andar mais depressa porque estou aqui a pedir a intervenção do meu santo Nicolau. Vamos lá a ver se ele me ajudou. (Tirando uma carta): É que não queríamos outra! Sabe o meu amigo o que tenho aqui?
Não sei nem tenho de saber, Sr. Fulano. Faz parte das regras do jogo. Jogue faz favor.
Ora bem, o que o meu santo me deu foi o valério de Ravel, está a ver? E com este valério o meu jogo ganhou um grande futurejo. Obrigado, são Nicolauzinho.
E se a carta comprada fosse realmente conveniente poderia dizer: Isto é a melhor carta Dumont! – um jogo de palavras invariavelmente acolhido com um silêncio gélido.
O jogo, a feijões, corria em minha casa e uma, às vezes duas, vezes por semana, os dois juntavam-se-me para uma disputa a cujo resultado ambos afectavam não ligar a menor importância. Beltrano afinava quando as coisas não lhe corriam de feição e Alberto havia ao longo dos anos desenvolvido todo um dialecto e manejos cujo propósito era desestabilizar o adversário num jogo que metia muita táctica e complicados raciocínios. Eu, o terceiro jogador, conhecia a música; e sabia que quando a coisa lhe estava a dar para o torto dizia, ao comprar com força uma carta: Anda cá minha douda quizofrénica!
Inúmeras vezes ouvi, em noites de vitória, um discurso solerte: Só ganhei com a ajuda do meu santo Nicolau. Na verdade ajuda-me e eu ajudo-o a ele, que bem sabe que é preciso jogar como só eu.
O grande perdedor, na maior parte das vezes, era eu, nunca tendo sido possível apurar porque, delicadamente, nunca coloquei a questão, se por intervenção de S. Nicolau, por simples azar ao jogo ou burrice. Levei a coisa à conta dos deveres de anfitrião. Conversas sobre os casos da semana poucas. Que das personalidades, partidos, autoridades, casos, novidades, Alberto via sobretudo o lado burlesco e escangalhava-se a rir e fazer rir.
Não haverá mais jogo agora. Que morreu ontem aos 86 anos, ao cabo de uma vida trabalhosa de profissional respeitado, intelectual à sua pessoalíssima maneira, devotado à família e meu tio.

Que bela homenagem. Um abraço
Um abraço, Paulo.
Meu caro José, os meus pêsames e o meu apreço por este texto, tão exemplar.
Obrigado, Pedro.
Que simpático, este Alberto. Teve o senhor sorte em tê-lo como tio.
Lamentando a vossa perda, apenas posso dizer que de um tio desses ficam sempre boas memórias. E isso já não é pouco de uma vida longa e bem partilhada.
Que tenha o merecido descanso.
Um forte abraço.
Obrigado, Sérgio.
São esses amigos, porque familiares são amigos também e vice versa, que dão cor e ternura à nossa saudade.
Os meus sinceros sentimentos, José.
Obrigado, Maria Dulce.
Será que o São Nicolau lhe vai entregar esta sua carta? Que ele ia gostar de ler, parece-me, que ele a merece e pelo que nos diz, é justo.
Parabéns pelo texto e os meus sentimentos.
Que privilégio o nosso, de quem vos lê, ao tio Alberto e ao tio José. Um abraço.
Obrigado. Abraço, Patrícia.