Alberto


José Meireles Graça,

Jogue, Sr. Fulano, estamos à espera.

Está nervoso, Sr. Beltrano? Eu não posso andar mais depressa porque estou aqui a pedir a intervenção do meu santo Nicolau. Vamos lá a ver se ele me ajudou. (Tirando uma carta): É que não queríamos outra! Sabe o meu amigo o que tenho aqui?

Não sei nem tenho de saber, Sr. Fulano. Faz parte das regras do jogo. Jogue faz favor.

Ora bem, o que o meu santo me deu foi o valério de Ravel, está a ver? E com este valério o meu jogo ganhou um grande futurejo. Obrigado, são Nicolauzinho.

E se a carta comprada fosse realmente conveniente poderia dizer: Isto é a melhor carta Dumont! – um jogo de palavras invariavelmente acolhido com um silêncio gélido.

O jogo, a feijões, corria em minha casa e uma, às vezes duas, vezes por semana, os dois juntavam-se-me para uma disputa a cujo resultado ambos afectavam não ligar a menor importância. Beltrano afinava quando as coisas não lhe corriam de feição e Alberto havia ao longo dos anos desenvolvido todo um dialecto e manejos cujo propósito era desestabilizar o adversário num jogo que metia muita táctica e complicados raciocínios. Eu, o terceiro jogador, conhecia a música; e sabia que quando a coisa lhe estava a dar para o torto dizia, ao comprar com força uma carta: Anda cá minha douda quizofrénica!

Inúmeras vezes ouvi, em noites de vitória, um discurso solerte: Só ganhei com a ajuda do meu santo Nicolau. Na verdade ajuda-me e eu ajudo-o a ele, que bem sabe que é preciso jogar como só eu.

O grande perdedor, na maior parte das vezes, era eu, nunca tendo sido possível apurar porque, delicadamente, nunca coloquei a questão, se por intervenção de S. Nicolau, por simples azar ao jogo ou burrice. Levei a coisa à conta dos deveres de anfitrião. Conversas sobre os casos da semana poucas. Que das personalidades, partidos, autoridades, casos, novidades, Alberto via sobretudo o lado burlesco e escangalhava-se a rir e fazer rir.

Não haverá mais jogo agora. Que morreu ontem aos 86 anos, ao cabo de uma vida trabalhosa de profissional respeitado, intelectual à sua pessoalíssima maneira, devotado à família e meu tio.

12 comentários em “Alberto”

  1. Será que o São Nicolau lhe vai entregar esta sua carta? Que ele ia gostar de ler, parece-me, que ele a merece e pelo que nos diz, é justo.
    Parabéns pelo texto e os meus sentimentos.

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