Ainda há heróis


Pedro Correia,

Uma imagem para a História: Aleksandr Dubcek e Václav Havel durante a Revolução de Veludo (1989). Foto de Justin Leighton.

 

O século XX ficou marcado, de uma ponta a outra, por demasiadas figuras sinistras — tiranos, torcionários, carrascos do seu povo e de outros povos. Amarga ironia da história: sabemos muitas vezes com mais facilidade de cor os nomes desses déspotas do que os daqueles — bem mais raros — que contribuíram para tornar o mundo melhor.

Um político cujo nome merece a pena ser decorado e recordado pelas gerações futuras é Václav Havel. Dramaturgo, pensador, antigo preso político, fundador e activista da Carta 77, grande figura de referência ética contra o regime imposto em Praga pelos blindados soviéticos em Fevereiro de 1948 e Agosto de 1968, conduziu em 1989 a Revolução de Veludo mobilizando milhões de checos e de eslovacos contra a ditadura comunista. E nesse processo — tendo a seu lado Aleksandr Dubcek, o malogrado arquitecto do “socialismo de rosto humano” estrangulado pelas tropas do Pacto de Varsóvia com o aplauso do PCP — demonstrou toda a sua fibra de resistente, toda a sua coragem física e política, toda a sua enorme envergadura moral. Com uma oratória persuasiva e galvanizadora, apelou às melhores energias dos compatriotas que o ajudaram a derrubar a burocracia despótica do “socialismo real” checoslovaco, espécie de estalinismo mitigado, medíocre máquina trituradora de aspirações e sonhos.

Na pátria de Kafka, esta foi uma das revoluções mais bem sucedidas de que há memória. Sem um tiro, sem derramamento de sangue. Graças à enérgica liderança de Havel — democrata assumido, pacifista convicto, crente na virtude da tolerância como forma de mobilizar vontades e de cativar até os inimigos da liberdade.

Este homem íntegro, vertical, serviu o seu povo como Chefe do Estado e após o cumprimento do mandato presidencial soube regressar da melhor forma à condição de cidadão comum. Que é pouco. Mas que é tudo.

No preciso momento em que escrevo estas linhas decorre o seu funeral em Praga. Confesso: são linhas comovidas. Porque Havel foi uma das figuras da política internacional que mais admirei. Graças a ele, e a alguns outros, posso gabar-me de ter vivido numa época com heróis de carne e osso.

18 comentários em “Ainda há heróis”

  1. O Pedro fala aqui do Havel estadista, mas ignora o Havel dramaturgo. O que é pena.

    Aconselho o Pedro a ler as peças de teatro de Havel, que têm pelo menos tanta categoria quanto a sua atuação como político.

  2. Pedro:

    Cocordo em absoluto com o que afirmas. Havel será uma das figuras do século XX quando a história desse periodo for elaborada com muito mais rigor. Homens e politicos como ele há já muito poucos saibamos nós respeitar e fazer respeitar o seu legado.

  3. Belo texto, Pedro. Aproveito para desejar Feliz Natal – a si e a todos os autores do Delito. Boa Consoada.

  4. Václav Havel foi um estadista invulgar. Primou pela rectidão e sobriedade, mostrou carisma e sensibilidade, tudo condimentos que fizeram dele um ser humano quase irrepreensível.

    Grande homenagem Pedro, sim senhor! A minha vénia a um dos grandes Homens do mundo.

    1. Inclino-me também respeitosamente perante a memória deste grande homem, tão vilipendiado em vida mas que soube perdoar aos seus captores, o que só confirma a inteireza do seu carácter.

  5. Comunismo puro e duro está morto mas o comunismo de veludo está bem vivo.
    Vaclav Havel sobre a última espécie:
    “The post-totalitarian system touches people at every step, but it does so with its ideological gloves on. This is why life in the system is so thoroughly permeated with hypocrisy and lies: government by bureaucracy is called popular government; the working class is enslaved in the name of the working class; the complete degradation of the individual is presented as his ultimate liberation; depriving people of information is called making it available; the use of power to manipulate is called the public control of power, and the arbitrary abuse of power is called observing the legal code; the repression of culture is called its development; the expansion of imperial influence is presented as support for the oppressed; the lack of free expression becomes the highest form of freedom; farcical elections become the highest form of democracy; banning independent thought becomes the most scientific of world views; military occupation becomes fraternal assistance. Because the regime is captive to its own lies, it must falsify everything. It falsifies the past. It falsifies the present, and it falsifies the future. It falsifies statistics. It pretends not to possess an omnipotent and unprincipled police apparatus. It pretends to respect human rights. It pretends to persecute no one. It pretends to fear nothing. It pretends to pretend nothing.”

    http://www.superfluitiesredux.com/2011/12/18/vaclav-havel-1936-2011/

    1. Obrigado, Teresa. Infelizmente a nossa memória colectiva fixa muito melhor os nomes dos maus do que dos bons. E ao contrário de certos relativistas morais, eu continuo a achar que existem bons e maus. É simples, decerto. Mas nada mais verdadeiro.

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