Maria Lúcia Lepecki
(Araxá, 1940 – Lisboa, 2011)
“Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira”
Obrigado, Maria Lúcia, por tudo o que fizeste por nós.


Pois, necessário não é. Mas é benéfico se constituir uma racionalização da forma de escrever.
Todos nós somos também capazes de ler a ortografia do século 14 ou do século 19. Mas concordamos que a ortografia atual constitui um progresso em relação a elas, pois simplifica e racionaliza a forma de escrever, na medida em que a aproxima da língua falada.
Este post insiste em ver a reforma ortográfica apenas do ponto de vista da relação Portugal-Brasil, quando o que seria correto seria investigar a relação entre a ortografia e a língua falada.
A língua falada tem acentuação diferente num país e no outro. Enquanto os brasileiros abrem todas as vogais, não necessitando por isso de acentuação nas palavras escritas, os portugueses abrem umas e fecham outras necessitando de uma “sinalização” que nos indique quais são abertas e quais são fechadas sempre que estamos a ler um texto. Eu não leio “dialeto”, leio “dialéto” logo, ou se coloca um acento no E ou se coloca, como temos actualmente, um c antes do T para abrir a vogal que o antecede. Se queriam simplificar podiam fazê-lo mas, nesse caso, precisamos de acentos em vez de consoantes mudas. Assim como dizemos, de forma diferente o pretérito perfeito de certos verbos (como, por exemplo, o andar), relativamente ao presente. Se escrevemos sempre “andamos” como vamos saber se a frase:
Nós andamos depressa enquanto conversamos uns com os outros.
é, de facto o presente, ou se era isto:
Nós andámos depressa enquanto conversámos uns com os outros.
Dado que esses acentos desaparecem…
Acho bem que a língua evolua e, mesmo sem acordos, já muitas palavras se tornaram diferentes e muitos termos entraram na nossa língua desde o último acordo de 1945. Não necessitamos de acordos feitos à pressa e por interesses económicos (ou será econômicos?) para que a língua evolua. E sem um acordo ela teria evoluído, de um e do outro lado do oceano, de forma natural e naturalmente aceitável por todos nós.
Lê “dialeto” como lê “Anacleto” ou “espeto” (do verbo espetar) ou “Odete” ou “abeto” ou “feto”. Não precisa de c para nada.
Metade da leitura é feita por perceção e reconhecimento das palavras. Você hoje está habituada a percecionar a palavra “dialecto” com um c. No futuro percecionará, com a mesma facilidade, a palavra “dialeto”.
Só você, Luís Lavoura. ‘Espeto’ foi um exemplo pessimamente escolhido. Repare como espetador e espe(c)tador se tornam palavras homógrafas com o ‘acordo’, o que a prazo as levará a tornarem-se palavras homófonas.
Acha que “espetador profissional” significa o mesmo que “espe(c)tador profissional”?
Pois. O ‘acordo’, em vez de simplificar, baralha e confunde.
Essa de que palavras homógrafas tendem a tornar-se homófonas é original. Há montes de palavras homógrafas que não são homófonas. Por exemplo, “pela” ou “para”. E “espetador” com o e fechado é uma palavra tão rara que basicamente nunca é dita.
Mas há ainda os outros exemplos, que demonstram à saciedade que não são precisas consoantes mudas nenhumas para abrir uma vogal.
Aliás, esse argumento de que a consoante muda serve para abrir a vogal é contraditório com o argumento (esse sim, verdadeiro) de que a consoante muda tem origem etimológica. Pois que, ou bem que a consoante está lá por motivos históricos, etimológicos, ou bem que ela está lá por motivo de uma regra da escrita e leitura. As pessoas que são a favor das consoantes mudas têm que se decidir por qual dos argumentos utilizar, não podem usar dois argumentos contraditórios simultâneamente.
Você continua a escolher péssimos exemplos em abono da sua tese. ‘Pára’ é uma daquelas palavras que, nos termos do ‘acordo’ ortográfico, perde o acento. O que só dificultará a leitura da frase e a apreensão do seu significado. Esse acento existe precisamente para desfazer qualquer dúvida em palavras que se tornarão homógrafas embora com significados muito diferentes.
Afirmar que as consoantes não são ‘mudas’ por servirem de abertura tónica às vogais, ao contrário do que você alega, em nada contradiz a defesa do respeito pela etimologia das palavras, princípio basilar das principais línguas cultas e o argumento central daqueles que, como eu, contestam o ‘acordo’.
Concordo Luís Lavoura.
Racionaliza porquê?
E facilita porquê?
Explique lá bem.
Diga lá essas coisas tão importantes que o Sr. sabe e eu não, e que apenas meia dúzia de brasileiros em 1907 e depois 7 ou 8 maçons portugueses em 1911 atingiram e os ingleses e os franceses nunca perceberam, de tal modo que continuam a escrever «arcaicamente».
E qual a razão pela qual com uma ortografia tão moderna o Brasil tem taxas de analfabetismo superiores à do Zimbabué?
os ingleses e os franceses nunca perceberam
Pois, mas perceberam os italianos e os alemães.
Ainda bem que a nossa língua, tal como as destes últimos, se escreve como se fala, em vez de ser escrita das formas absurdas e medievais como os ingleses e os franceses escrevem as deles.
Graças a isso, o meu filho e eu começámos a ler aos 4 anos de idade, juntando letras, enquanto que os franceses e os ingleses têm que utilizar um método global de perceção e reconhecimento das palavras.
Que horror. Os ingleses e os franceses (e os espanhóis), esses bárbaros!
A propósito: horror devia escrever-se ‘orror’. A ideia não é eliminar as consoantes mudas e “aproximar a ortografia da oralidade”?
Que horror. Os italianos e os alemães (e os russos), esses bárbaros!
Concordo que os hs mudos nos princípios das palavras deveriam ter sido eliminados. (Tal como, aliás, não existem em italiano, que eu saiba.) Infelizmente não foram. Fica para a próxima. Mas eliminar algumas consoantes mudas sempre é melhor do que não eliminar nenhumas.
Veja lá se, de eliminação em eliminação, o seu apelido não passa a escrever-se Lavôra, mandando o U às urtigas. Há que ser coerente, homem. Se a ortografia, na sua opinião, deve acompanhar a oralidade…
Se você pronuncia “lavôra” é porque tem um defeito de pronúncia (os lisboetas têm muitos, por exemplo dizem “côlidade” em vez de “qualidade”). Eu pronuncio bem o ditongo “ou”.
Sérgio: subscrevo, inclinando-me em memória da ilustre professora que nos ensinou a ler mais e melhor. Com uma pronúncia diferente da nossa e uma ortografia que, também sendo diferente, nunca serviu para nos afastar – só para nos aproximar.
Obrigado, Sérgio… por tão bem o lembrar!
… e, já agora, se me permite, deixe que, também eu, aproveite este espaço para agradecer a Maria Lúcia Lepecki o que fez por todos nós, pelo conhecimento, pelo jornalismo, pela autonomia de pensamento e pela literatura!
Um abraço.
Também concordo que temos bastante para lhe agradecer.
Sem espinhas!!
R.I.P.
É a herança lúcida da Maria Lúcia Lepecki. Não falta por aí quem precise urgentemente de reflectir sobre aquilo que é tão simples que qualquer criança em idade escolar é capaz de entender por intuição.